Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Repreende Paulo aos Gálatas por haverem deixado a doutrina, que êle lhes pregara. Refere em suma os princípios e progressos da sua conversão.

1Paulo Apóstolo, não pelos homens, nem por algum homem, mas por Jesus Cristo, e por Deus Padre, que o ressuscitou dentre os mortos:[1]NÃO PELOS HOMENSÉ como se dissera: Não por eleição do colégio apostólico, como foi Matias ou pelos votos dalguma igreja, como foram Barnabé e Silas. - Éstio.

2E todos os irmãos, que estão comigo, às igrejas da Galacia.

3Graça a vós, e paz da parte de Deus Padre, e de nosso Senhor Jesus Cristo.

4O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar dêste presente século mau, segundo a vontade de Deus, e Pai nosso.

5Ao qual seja dada glória por todos os séculos dos séculos: Amém.

6Eu me espanto de que deixando aquêle que vos chamou à graça de Cristo, passásseis assim tão depressa a outro Evangelho:[2]OUTRO EVANGELHOS. Paulo refere-se ao Evangelho que pregavam os falsos doutores. Era no fundo o de Jesus Cristo, ao qual juntavam a prática de mosaismo.

7Porque não há outro, senão é que há alguns que vos perturbam, e querem transtornar o Evangelho de Cristo.

8Mas ainda quando nós mesmos, ou um Anjo do Céu vos anuncie um Evangelho diferente do que nós vos temos anunciado, seja anátema.[3]SEJA ANÁTEMAIsto é, como já outras vezes explicamos, seja maldito e execrável: Que isso significa o nome grego anátema, que os Setenta Intérpretes substituiam ao hebreu Herma, e que a igreja adotou da Escritura nos seus Cânones, para significar, como aqui significa S. Paulo, que um tal merece ser excomungado, isto é separado do corpo dos Fiéis, e condenado a penas eternas. - Pereira.

9Assim como já vô-lo dissemos, agora de novo também vô-lo digo: Se algum vos anunciar um Evangelho diferente daquêle que recebestes seja anátema.

10Por que enfim desejo eu por acaso ser agora aprovado dos homens, ou de Deus? Ou é aos homens que eu pretendo agradar? Se agradasse ainda aos homens, não seria servo de Cristo.

11Porque vos faço saber, irmãos, que o Evangelho, que por mim vos tem sido pregado, não é segundo o homem:

12Porque eu não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas sim por revelação de Jesus Cristo.

13Porque vós ouvistes dizer de que modo eu vivi noutro tempo no Judaismo: Com que excesso perseguia a igreja de Deus, e a devastava,

14e aproveitava no Judaismo mais do que muitos coetâneos meus da minha Nação, sendo em extremo zeloso das tradições de meus pais.

15Mas quando aprouve àquele que me destinou desde o ventre da minha mãe, e me chamou pela sua graça,

16o revelar seu Filho por mim, para que eu o pregasse entre a gente: Desde aquêle ponto não me acomodei à carne, nem ao sangue.[4]DESDE AQUÊLE PONTOObedeci à vocação de Deus, sem consultar sôbre isso a nenhum homem porque estava assegurado que era de Deus. O Texto Grego: Não comuniquei, não consultei com nenhum homem. S. Jerônimo entende carne et sanguini do homem carnal. - Pereira.

17Nem vim a Jerusalém aos que eram Apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.

18Dali, no fim de três anos, vim a Jerusalém por ver a Pedro, e fiquei com êle quinze dias.

19E dos outros Apóstolos não vi a nenhum, senão a Tiago, irmão do Senhor.

20E nisto que vos escrevo, vos digo diante de Deus que não minto.

21Ao depois fui para as partes da Síria, e da Cilícia.

22E as Igrejas da Judéia, que criam em Cristo, nem ainda de vista me conheciam.

23Mas sòmente tinham ouvido dizer: Aquêle porém que antes nos perseguia, agora prega aquela Fé que noutro tempo combatia.

24E davam glória a Deus a respeito de mim.

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Epístola de S. Paulo aos Gálatas

Introdução

Causa e objeto desta Epístola. - A Galácia era a Gália do Oriente. Três séculos antes de Jesus Cristo, deixaram muitos galo-célticos o seu país, passaram para o norte da Grécia, indo depois estabelecer-se na Ásia, acampando nos arredores de Ancira, onde foram conhecidos pelo nome de Gálatas. Êste êxodo gaulês foi capitaneado por Lutário, e teve lugar, segundo as mais justas referências, pelo ano 280 A. C. Pôsto que em contato com os gregos, conservaram sempre traços característicos da sua antiga nacionalidade, tanto na língua como nos costumes. Unum est, quod inferimus et promissum in exordio reddimus, Galatas excepto sermone gracco; que omnis Oriens loquitur, propriam linguam eandem paene habere quam Treviros, nec referre, si aliqua exinde corrumperint S. Jeronymo. Conni iv ep. Gar. Ocupavam-se principalmente na agricultura, e alguma coisa no comércio em pequena escala em Ancira, Tavium, Pessinonte, etc. Da sua religião só sabemos que eram idólatras. Foram governados pelos seus reis, mesmo sob a dominação romana, que tornou o país tributário no ano 189. Morto seu último rei Amintas, os romanos enviaram-lhe procuradores da sua nacionalidade, tornando-se então a Galácia uma província romana, que ocupava o centro da Ásia Menor.

Os Gálatas eram inteligentes, mas duma acentuada volubilidade de espírito e dum caráter sobremaneira inconstante, o que foi sempre nota característica da raça gaulesa. Sunt ii capiendis consiliis nobiles, et novis plerumque rebus student Cesar. De Bello Gallico. IV. 5. Apesar disso S. Paulo empreendeu aí a pregação do Evangelho e obteve resultados lisonjeiros. Mais tarde soube que doutores judaizantes vindos de Jerusalém, alteravam os seus ensinamentos, impondo práticas de mosaismo. Se uns resistiram, outros deixaram-se enlevar pela novidade, estabelecendo a necessária e consequente cisão, pelo que o Apóstolo lança mão da sua bem aparada pena e reconstitui a verdadeira doutrina.

Tempo e lugar de composição desta Epístola. - Esta epístola deve ter sido composta pela mesma época em que foi a primeira epístola aos Coríntios. Quanto ao lugar, S. Jerônimo, Teodoreto e muitos outros dataram-na de Roma, atendendo ao v. 17 do Capítulo 6. Porém bons argumentos apresentam outros considerados autores que sustentam ter sido escrita em Êfeso, pouco tempo depois da sua vinda a esta cidade, aí pelo ano 55. Windischmann, Erklarung des Galaterb, pág. 6. Cfr. Glaire, Introduction hist. ecrit aux livres de l'A. et du N. T. tomo 6.

Autenticidade. - Deve-se aos herejes o melhor ensejo de se demonstrar a autenticidade desta Epístola, por não só a citarem a cada passo, como deram ocasião aos Padres que a citassem do mesmo modo. Marcio, não sòmente a insere no cânon dos livros sagrados, como vai aí buscar argumentos em favor das suas proposições. De igual sorte procederam os maniqueus, e contra êstes abusos dos herejes ergueram-se então os apologetas como S. Trineu, dizendo Et iterum in epistola quae est ad Galatas, ait Paulus, e Tertuliano que se exprime da mesma sorte. Mas já anteriormente se encontram citações à Epístola aos Gálatas em S. Inácio de Antioquia, ad Philadcl. 1 Policarpo, ad Philipp. e 1 Justino Orat ad Gracc. Foi talvez por êstes e outros testemunhos herejes e ortodoxos que a hipercrítica poupa geralmente a Epístola aos Gálatas.

Divisões. - Compreende um exórdio e três pactos.

Exórdio - 1, 1-10. - Breve saudação e manifestação clara do desgôsto de ver corrompida a sua doutrina.

1 Secção Apologética. 1, 11-2, 16, em que demonstrou a realidade do seu apostolado e perfeita identidade com a doutrina dos apóstolos.

2 Secção dogmática. 2, 17-5, 13 - Demonstra que a justificação depende da fé em Jesus Cristo e não no mosaismo cuja observância é perigosa.

3 Secção anual 5, 14-6 - Corrige os abusos e fortalece os espíritos na fé.

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