Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Salmo doutrinal. Os justos são ditosos; e os maus são infelizes.

1Bem-aventurado o varão que não se deixou ir após o conselho dos ímpios, e que não se deteve no caminho dos pecadores, e que não se assentou na cadeira empestada pelo vício.[1]Que não se deteve / Na cadeiraNão disse 'Que não andou pelo caminho dos pecadores', porque isso é impossível, visto que nenhum homem é sem pecado, mas disse 'Que não se deteve no caminho dos pecadores', porque o justo não se demora nêle, não persevera no mal, mas procura logo meter-se no caminho do Senhor pela penitência. S. Jerônimo. — NA CADEIRA — A cadeira da pestilência (Cathedra pestilentiæ) é a cadeira da falsa doutrina ou do mau exemplo, que como peste corrompe os espíritos. — Bossuet (Dissert. in Psalmos).

2Mas a sua vontade está posta na lei do Senhor, e na sua lei meditará de dia e de noite.

3E será como a árvore, que está plantada junto à margem dum ribeiro ameno, que a seu tempo dará o seu fruto: E cuja fôlha não cairá: E tôdas as coisas que êle fizer, serão prósperas.

4Não assim os ímpios, não assim: Senão como o pó que o vento espalha de cima da face da terra.[2]Não assimEsta repetição é própria da Vulgata, pois falta no hebreu. — Bossuet.

5Por isso os ímpios não ressurgirão no juízo; nem os pecadores na congregação dos justos.[3]Não ressurgirão no juízoO hebreu tem: 'Não subsistirão', isto é, perderão a causa — Bossuet. Melhor fôra stabunt em vez de ressurgent, ressurgirão.

6Porque o Senhor conhece o caminho dos justos: E o caminho dos ímpios perecerá.

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Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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