Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 136

Salmo deprecatório. Os prisioneiros choram a sua perdida liberdade. Profecia da queda de Babilónia e da ruína do império.

Salmo de Davi, para Jeremias.[1]Salmo de Davi, para JeremiasO título dêste salmo é difícil de explicar, contudo, como no original hebraico se não encontra, os exegetas atendem menos a êle do que ao sentido do salmo. Teodoreto escreve a propósito: Psalmi sensus planus est. Qui enim captivi fuerant abducti, et reditum consecuti, ea narrant quae Babylone acciderant. Interpretatio Psalmi 120. Descreve as tristezas do cativeiro. Tem seis estrofes. Primeira (1-2). Os cativos em Babilónia suspenderam os seus cânticos. Segunda (3). Pedem-lhes os senhores que entoem um cântico de Sião. Terceira e quarta (4-6). Responderam: "Como poderemos louvar o nosso Deus, entoando cânticos em sua honra, em terra estranha?" Quinta (7). Oração a Deus contra a Iduméia, que depois do cativeiro inquietou a Judéia. Sexta (8-9). Imprecação contra Babilónia, que oprimia a Judéia.

1Junto dos rios de Babilónia, ali nos assentamos e pusemos a chorar: Lembrando-nos de Sião:[2]Junto dos riosJUNTO DOS RIOS — O nome de Babilónia se toma neste lugar por tôda a província. Foram sinaladas aos judeus algumas cidades na Caldéia, para que habitassem nelas durante o seu cativeiro; e estas pela maior parte estavam junto ao Eufrates e outros rios em sítios baixos e pantanosos. Dizem, pois, os cativos, sentados nas margens dos rios da Caldéia e Babilónia, e derramando um mar de lágrimas: Nós nos lembramos de ti, ó Sião amada. — Pereira.

2Nos salgueiros que há no meio dela, penduramos nossas harpas.[3]Nos salgueirosEram tão frequentes nas margens do Eufrates, que se chamam Salix babylonica.

3Porque ali nos pediram os que nos levaram cativos, palavras de canções:
E os que por fôrça nos levaram, disseram: Cantai-nos um hino dos cânticos de Sião.

4Como cantaremos o cântico do Senhor em terra alheia?

5Se me esquecer de ti, Jerusalém, a esquecimento seja entregue a minha direita.

6Fique pegada a minha língua às minhas fauces, se eu me não lembrar de ti:
Se não me propuser a Jerusalém, como principal objeto da minha alegria.

7Lembra-te, Senhor, dos filhos de Edom no dia de Jerusalém:
Os que dizem: Arruinai, arruinai nela até os fundamentos.[4]Dos filhos de Edom / No dia de JerusalémDOS FILHOS DE EDOM — Os idumeus, descendentes de Esaú, que se uniram com os caldeus, e os instigavam a que reduzissem a um montão de pedras a infeliz Jerusalém. Jer, Thren. 4, 21-22. Ez 25, 12. Abd 11. Porém te contemplo agora caída e desolada, ó injustiça dos pérfidos idumeus! Não vos esqueçais, Deus meu, da sua crueldade para vingá-la. — Pereira. NO DIA DE JERUSALÉM — Calmet e De Carrières expõem assim: "Lembrai-vos do que êles fizeram no dia da tomada, ou da ruína de Jerusalém". Bossuet, assim: "No dia que tu te lembrares de Jerusalém." A mim parece-me mais provável a primeira exposição, que é também a que seguira Sacy. — Pereira.

8Filha desastrada de Babilónia: Bem-aventurado o que te der o pago que tu deste a nós outros.[5]Filha desastradaHebraísmo por Babilónia, ou babilónios, porque os habitadores de uma cidade, ou de um estado têm com êle a mesma relação, que os filhos com a mãe. Chama-lhe infeliz, porque devia ser destruída conforme as profecias. Is 13, 1; 47, 2, Jer 25, 12, b. 2. — Pereira.

9Bem-aventurado o que apanhar às mãos e fizer em pedaços numa pedra teus tenros filhos.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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