Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 74

Salmo gratulatório e didático. O salmista se emprega a louvar a Deus, porque faz brilhar a sua justiça em abater a uns e a exaltar a outros, em levantar os humildes que o temem, e em humilhar aos soberbos que o desprezam.

1Ao regente do côro. Sôbre a ária al thaschkheth. Salmo de Asaf. Cântico.[1]Al thaschkhethAL THASCHKHETH — Com a música da ária conhecida com êste nome a Vulgata traduzia — não corrompas. — Teodoreto encontrou nalguns manuscritos esta adição: Contra o Assírio. Com efeito pode conjecturar-se que êste salmo tivesse sido composto no tempo de Ezequias e ver nêle um cântico profético anunciando que Judá seria livre da invasão de Senaquerib. 4 Rs 19; 2 Par 22. Compreende uma saudação inicial, que é o versículo 2 e cinco estrofes. Primeira (3-4). Discurso de Deus, que dá a justiça no momento preciso. Segunda (5-6). Pelo que o salmista anuncia ao mau que nunca poderá levantar a fronte. Terceira (7-9). Não é um monarca da terra que governa, é Deus. Quarta (9). Deus reserva para o mau uma taça de fel. Quinta (10-11). E Israel glorificará o seu Deus e celebrará a ruína do ímpio.

2Nós te glorificaremos, ó Deus: Confessaremos, e invocaremos o teu Nome.
Cantaremos as tuas maravilhas:

3Quando eu tomar o meu tempo, julgarei com justiça.

4Tem-se liqüidado a terra, e todos os que a habitam: Eu fortaleci as suas colunas.

5Disse aos malvados: Não cometais maldade: E aos que pecam: Não vos glorieis do poder.

6Não queirais levantar ao alto vosso poder: Não queirais falar iniquamente contra Deus.

7Porque nem do Oriente, nem do Ocidente, nem dos montes desertos:[2]Nem dos montes desertosNEM DOS MONTES DESERTOS — É esta uma reticência em que deve suprir-se, erit vobis evasio, "tereis vós saída, em nenhum lugar podereis evitar o juízo de Deus, o qual está em tôdas as partes".

8Porque Deus é o Juiz.
A êste humilha, e àquele exalta:

9Porque na mão do Senhor está o cálice de vinho puro cheio duma mistura.
E deitou dêste naquele: Certamente as suas fases não se apuraram: Delas beberão todos os pecadores da terra.[3]O cálice de vinhoO CÁLICE DE VINHO — Por êste cálice se designa na frase dos profetas a vingança de Deus, isto é, o cálice da sua ira. Is 51, 17-22. Jer 51, 7. Ez 23, 53. — Pereira.

10Mas eu anunciarei pelo século: Cantarei ao Deus de Jacó.[4]Pelo séculoPELO SÉCULO — Santo Agostinho leu: "Mas eu serei um eterno gôzo." E segundo esta expressão o sentido da Vulgata é: Eu publicarei os louvores do Senhor por uma eternidade, dizendo com os Espíritos Bem-aventurados: Santo, Santo, Santo. — P. Scio.

11E quebrarei tôdas as forças dos pecadores: E será exaltada a glória do justo.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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