Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 73

Salmo deprecatório. Suplica a Deus, lembrando os estupendos prodígios, que o Senhor havia praticado antigamente, para salvar ao seu povo. Rogando que se compadeça da sua miséria, e extrema aflição.

1Salmo didático composto por Asaf.
Por que razão, ó Deus, nos hás desamparado para sempre? Incendido está o teu furor sôbre as ovelhas do teu pasto?[1]Salmo didático composto por AsafSALMO DIDÁTICO COMPOSTO POR ASAF — Tradução de Glaire. Êste salmo é muitas vêzes citado por muitos críticos contemporâneos da época dos Macabeus. 1 Mac 4, 38-46; 9, 27; 14, 41. Pode ter sido composto depois da tomada de Jerusalém ou da destruição do templo de Salomão por Nabucodonosor. 4 Rs 24; 2 Par 36; Jer 52. Tem oito estrofes. Primeira (1-3). Suplica a Deus que não abandone Jerusalém. Segunda (4-6). Quadro da devastação causada no templo pelos inimigos de Deus. Terceira (7-9). Lamenta ter-se acabado o culto não havendo já nem milagres nem profetas que consolem Israel. Quarta (10-11). Até quando durará tal castigo? Quinta (12-14). Não falta a Deus o poder. Sexta (15-17). Deus é criador. Sétima (18-20). Que não permita então que o seu nome seja ultrajado. Oitava (21-23). Repetição do mesmo pensamento por outras palavras.

2Lembra-te da tua congregação, que possuíste desde o princípio.
Tu remediaste a porção da tua herança: O monte de Sião em que te aprouve habitar.[2]Desde o princípioDESDE O PRINCÍPIO — Desde o tempo de Abraão, que foi o tronco da família, e povo, que te havia de estar consagrado. Gên 17. — P. Scio.

3Levanta as tuas mãos contra as soberbas dêles até ao fim: Quantas maldades tem cometido o inimigo no Santuário![3]Levanta as tuas mãosLEVANTA AS TUAS MÃOS — O hebreu tem: "Alça os teus pés contra a soberba dêles." Segundo Bellarmino, e outros intérpretes, alude à soberba com que Antíoco entrou no Templo, e às abominações com que o contaminou. 1 Mac 1, 23. 41. 49. 51. — Sacy.

4E os que te aborreceram, gloriaram-se: No meio da tua solenidade.
Puseram os seus estandartes, em grande número,[4]Em grande númeroEM GRANDE NÚMERO — É o que quer significar a repetição da palavra que se encontra no original e na Vulgata, como já atrás ficou dito.

5e não os conheceram, bem como nas portas sôbre o mais alto.
Como em um bosque de árvores com machados,

6destroçaram à uma as suas portas: Com machado e camartelo a derribaram.[5]A derribaramA DERRIBARAM — A casa, ou as portas do Templo os caldeus, 4 Rs 25, 9, Jer 52, 13. Ainda que não parece ter sido queimado o Templo de Jerusalém na perseguição de Antíoco, basta ser certo que as suas portas o foram, 1 Mac 4, 38, para se compreender o que o profeta diz aqui. No texto original se lê: "Tem pôsto fogo aos teus Santuários." — Pereira.

7Abrasaram em fogo ao teu Santuário: Na terra profanaram o tabernáculo do teu nome.

8Disseram no seu coração os das suas parentelas todos juntamente: Façamos cessar da terra tôdas as festas de Deus.

9Não temos visto os nossos sinais: Já não há profeta: E não nos conhecerá daqui em diante.[6]Já não há profetasJÁ NÃO HÁ PROFETAS — É a queixa dos judeus cativos em Babilónia, queixa até certo ponto infundada; porque Daniel lá estava. É verdade que êle profetizou pouco em Babilónia, pois que as suas principais profecias tiveram lugar em Susa. (Dan 7-11.) Também é certo que se não repetiram os sinais ou prodígios que se deram no Egito e no deserto, mas é verdade que presenciaram a libertação milagrosa de Daniel e dos seus companheiros saindo incólumes da fornalha ardente (3, 20); Daniel escapando são e salvo da cova dos leões (14, 30 e seguintes); a justificação da Casta Susana (13, 45 e seguintes); a metamorfose de Nabucodonosor (4, 13 e seguintes); e enfim os últimos momentos de Baltasar, rei dos caldeus (5, 22 e seguintes).

10Até quando, ó Deus, nos afrontará o inimigo: Blasfemará o adversário o teu nome até ao fim?[7]Até quando nos afrontará o inimigoATÉ QUANDO NOS AFRONTARÁ O INIMIGO — Todo êste verso quadra bem às blasfêmias de Antíoco, e de seus capitães que lemos na história dos macabeus. — Bossuet.

11Por que retrais a tua mão, e a tua direita do meio do teu seio até ao fim?[8]Por que retraisPOR QUE RETRAIS — Assim palavra por palavra a nossa Vulgata. Alguns contudo, com Sacy e de Carrières, como achassem imperfeito e manco êste verso, verteram: Por que cessa a tua mão de nos proteger? e por que tens tu a tua direita sempre no teu seio? O mesmo em substância Calmet. Bossuet, porém, porque depois de, de sine tuo, achava-se em S. Jerônimo, consumens, conjecturou que se devia ler: Por que apartas tu de cima de nós a tua mão, e a tua direita? Tira-a do meio de teu peito para os perder. Julgue cada um o que melhor lhe parecer do caso.

12Mas o Deus Rei nosso antes dos séculos: Obrou a salvação no meio da terra.

13Tu com o teu poder deste solidez ao mar: Moeste as cabeças dos dragões nas águas.[9]As cabeças dos dragõesAS CABEÇAS DOS DRAGÕES — Os grandes animais que se encontram nas águas do Nilo e que figuram o povo e exército do Egito.

14Tu quebraste a cabeça do dragão: Deste-o por comida aos povos da Etiópia.[10]A cabeça do dragãoA CABEÇA DO DRAGÃO — De Leviatã, o crocodilo, emblema do rei do Egito. Êste estava sujeito à Etiópia.

15Tu abriste as fontes, e os ribeiros: Tu secaste os rios de Etan.[11]EtanETAN — Os antigos hebraizantes sustentavam que esta palavra queria dizer fôrça e antiguidade; os modernos dão-lhe a significação e fluxo, e do que corre continuamente. Os Setenta e a Vulgata fizeram um nome próprio. É certo todavia que Etan era um lugar em que os israelitas fizeram a sua terceira estação depois da saída do Egito, e que ficava na extremidade do deserto. Êx 13, 20. Núm 33, 6.

16Teu é o dia, e tua é a noite: Tu fabricaste a aurora e o sol.

17Tu fizeste todos os limites da terra: o estio e a primavera tu os formaste.

18Lembra-te disto: O inimigo improperou ao Senhor: E um povo néscio irritou o teu nome.

19Não entregues às feras as almas que te louvam, e não ponhas em esquecimento para sempre as almas dos teus pobres.

20Olha para o teu testamento: Porque os obscurecidos da terra são os que estão cheios de casas de iniquidade.

21Não se volte confundido o humilde: O pobre, e o desvalido louvarão o teu Nome.

22Levanta-te, ó Deus, julga a tua causa: Lembra-te dos impropérios feitos contra ti, daqueles com quem um povo néscio te injuria todo o dia.

23Não te esqueças das vozes de teus inimigos: A soberba daqueles que te aborrecem, sobe continuamente.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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