Capítulo 73
1Salmo didático composto por Asaf.
Por que razão, ó Deus, nos hás desamparado para sempre? Incendido está o teu furor sôbre as ovelhas do teu pasto?[1]Salmo didático composto por Asaf — SALMO DIDÁTICO COMPOSTO POR ASAF — Tradução de Glaire. Êste salmo é muitas vêzes citado por muitos críticos contemporâneos da época dos Macabeus. 1 Mac 4, 38-46; 9, 27; 14, 41. Pode ter sido composto depois da tomada de Jerusalém ou da destruição do templo de Salomão por Nabucodonosor. 4 Rs 24; 2 Par 36; Jer 52. Tem oito estrofes. Primeira (1-3). Suplica a Deus que não abandone Jerusalém. Segunda (4-6). Quadro da devastação causada no templo pelos inimigos de Deus. Terceira (7-9). Lamenta ter-se acabado o culto não havendo já nem milagres nem profetas que consolem Israel. Quarta (10-11). Até quando durará tal castigo? Quinta (12-14). Não falta a Deus o poder. Sexta (15-17). Deus é criador. Sétima (18-20). Que não permita então que o seu nome seja ultrajado. Oitava (21-23). Repetição do mesmo pensamento por outras palavras.
2Lembra-te da tua congregação, que possuíste desde o princípio.
Tu remediaste a porção da tua herança: O monte de Sião em que te aprouve habitar.[2]Desde o princípio — DESDE O PRINCÍPIO — Desde o tempo de Abraão, que foi o tronco da família, e povo, que te havia de estar consagrado. Gên 17. — P. Scio.
3Levanta as tuas mãos contra as soberbas dêles até ao fim: Quantas maldades tem cometido o inimigo no Santuário![3]Levanta as tuas mãos — LEVANTA AS TUAS MÃOS — O hebreu tem: "Alça os teus pés contra a soberba dêles." Segundo Bellarmino, e outros intérpretes, alude à soberba com que Antíoco entrou no Templo, e às abominações com que o contaminou. 1 Mac 1, 23. 41. 49. 51. — Sacy.
4E os que te aborreceram, gloriaram-se: No meio da tua solenidade.
Puseram os seus estandartes, em grande número,[4]Em grande número — EM GRANDE NÚMERO — É o que quer significar a repetição da palavra que se encontra no original e na Vulgata, como já atrás ficou dito.
5e não os conheceram, bem como nas portas sôbre o mais alto.
Como em um bosque de árvores com machados,
6destroçaram à uma as suas portas: Com machado e camartelo a derribaram.[5]A derribaram — A DERRIBARAM — A casa, ou as portas do Templo os caldeus, 4 Rs 25, 9, Jer 52, 13. Ainda que não parece ter sido queimado o Templo de Jerusalém na perseguição de Antíoco, basta ser certo que as suas portas o foram, 1 Mac 4, 38, para se compreender o que o profeta diz aqui. No texto original se lê: "Tem pôsto fogo aos teus Santuários." — Pereira.
7Abrasaram em fogo ao teu Santuário: Na terra profanaram o tabernáculo do teu nome.
8Disseram no seu coração os das suas parentelas todos juntamente: Façamos cessar da terra tôdas as festas de Deus.
9Não temos visto os nossos sinais: Já não há profeta: E não nos conhecerá daqui em diante.[6]Já não há profetas — JÁ NÃO HÁ PROFETAS — É a queixa dos judeus cativos em Babilónia, queixa até certo ponto infundada; porque Daniel lá estava. É verdade que êle profetizou pouco em Babilónia, pois que as suas principais profecias tiveram lugar em Susa. (Dan 7-11.) Também é certo que se não repetiram os sinais ou prodígios que se deram no Egito e no deserto, mas é verdade que presenciaram a libertação milagrosa de Daniel e dos seus companheiros saindo incólumes da fornalha ardente (3, 20); Daniel escapando são e salvo da cova dos leões (14, 30 e seguintes); a justificação da Casta Susana (13, 45 e seguintes); a metamorfose de Nabucodonosor (4, 13 e seguintes); e enfim os últimos momentos de Baltasar, rei dos caldeus (5, 22 e seguintes).
10Até quando, ó Deus, nos afrontará o inimigo: Blasfemará o adversário o teu nome até ao fim?[7]Até quando nos afrontará o inimigo — ATÉ QUANDO NOS AFRONTARÁ O INIMIGO — Todo êste verso quadra bem às blasfêmias de Antíoco, e de seus capitães que lemos na história dos macabeus. — Bossuet.
11Por que retrais a tua mão, e a tua direita do meio do teu seio até ao fim?[8]Por que retrais — POR QUE RETRAIS — Assim palavra por palavra a nossa Vulgata. Alguns contudo, com Sacy e de Carrières, como achassem imperfeito e manco êste verso, verteram: Por que cessa a tua mão de nos proteger? e por que tens tu a tua direita sempre no teu seio? O mesmo em substância Calmet. Bossuet, porém, porque depois de, de sine tuo, achava-se em S. Jerônimo, consumens, conjecturou que se devia ler: Por que apartas tu de cima de nós a tua mão, e a tua direita? Tira-a do meio de teu peito para os perder. Julgue cada um o que melhor lhe parecer do caso.
12Mas o Deus Rei nosso antes dos séculos: Obrou a salvação no meio da terra.
13Tu com o teu poder deste solidez ao mar: Moeste as cabeças dos dragões nas águas.[9]As cabeças dos dragões — AS CABEÇAS DOS DRAGÕES — Os grandes animais que se encontram nas águas do Nilo e que figuram o povo e exército do Egito.
14Tu quebraste a cabeça do dragão: Deste-o por comida aos povos da Etiópia.[10]A cabeça do dragão — A CABEÇA DO DRAGÃO — De Leviatã, o crocodilo, emblema do rei do Egito. Êste estava sujeito à Etiópia.
15Tu abriste as fontes, e os ribeiros: Tu secaste os rios de Etan.[11]Etan — ETAN — Os antigos hebraizantes sustentavam que esta palavra queria dizer fôrça e antiguidade; os modernos dão-lhe a significação e fluxo, e do que corre continuamente. Os Setenta e a Vulgata fizeram um nome próprio. É certo todavia que Etan era um lugar em que os israelitas fizeram a sua terceira estação depois da saída do Egito, e que ficava na extremidade do deserto. Êx 13, 20. Núm 33, 6.
16Teu é o dia, e tua é a noite: Tu fabricaste a aurora e o sol.
17Tu fizeste todos os limites da terra: o estio e a primavera tu os formaste.
18Lembra-te disto: O inimigo improperou ao Senhor: E um povo néscio irritou o teu nome.
19Não entregues às feras as almas que te louvam, e não ponhas em esquecimento para sempre as almas dos teus pobres.
20Olha para o teu testamento: Porque os obscurecidos da terra são os que estão cheios de casas de iniquidade.
21Não se volte confundido o humilde: O pobre, e o desvalido louvarão o teu Nome.
22Levanta-te, ó Deus, julga a tua causa: Lembra-te dos impropérios feitos contra ti, daqueles com quem um povo néscio te injuria todo o dia.
23Não te esqueças das vozes de teus inimigos: A soberba daqueles que te aborrecem, sobe continuamente.