Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 20

Salmo de ação de graças, ao voltar o rei vitorioso.

1Ao regente do côro, salmo de Davi.[1]Salmo de DaviÉ um hino de ação de graças depois da vitória. Tem sete estrofes. 1.ª (2-3) O rei regozija-se com a sua vitória; 2.ª (4-5) Deus coroou-o de glória e lhe concedeu larga vida; 3.ª (6-7) A vitória que Deus lhe proporcionou engrandeceu-o e o encheu de alegria; 4.ª (8-9) Porque pôs a sua confiança em Deus, o Senhor o livrará dos seus inimigos; 5.ª (10) Deus queimará e aniquilará os que lhe querem mal; 6.ª (11-12) Perderá a sua raça, se ela tramar contra êle; 7.ª (13-14) Afugentará e perseguirá os seus inimigos. — Que Deus seja louvado. Seu povo o louvará sempre. O sentido místico dêste Salmo, segundo alguns comentadores, é Jesus Cristo triunfando da morte e do pecado, suplicando a vitória sôbre os seus inimigos.

2Senhor, o rei se alegrará na tua fortaleza: E na tua salvação se regozijará em grande maneira.

3Tu lhe cumpriste o desejo de seu coração: E não o defraudaste da vontade de seus lábios.

4Porque tu o preveniste de bênçãos de doçuras: E puseste sôbre a sua cabeça uma coroa de pedras preciosas.

5Vida te pediu a ti: E lhe concedeste diuturnidade de dias pelo século, e pelos séculos dos séculos.

6Grande é a sua glória na tua salvação: Glória e grande formosura porás sôbre êle.

7Porque tu o darás para bênção pelos séculos dos séculos: Enche-lo-ás de alegria com o teu rosto.[2]Porque tu o darás para bênçãoEm Cristo que nascerá do seu sangue, e em quem serão benditas tôdas as nações. — Pereira. Enche-lo-ás de alegria — Nos seus perigos, e trabalhos achará a maior consolação, e o gôsto mais completo, vendo que estais sempre a seu lado, e que não o perdeis jamais de vista. Pode também expor-se em êste outro sentido: E depois dos trabalhos desta vida, e de haver triunfado de todos os seus inimigos o encherá de glória em vossa presença. O que convém muito bem ao Divino Redentor, exaltado por seu eterno Padre, depois de haver triunfado do inferno, e da morte. — P. Scio.

8Porquanto o rei espera no Senhor: E na misericórdia do Altíssimo não será comovido.

9Caia a tua mão sôbre todos os teus inimigos: Caia a tua destra sôbre todos os que te aborrecem.

10Tu os porás como um forno aceso ao mostrar-lhes teu rosto: O Senhor na sua ira os conturbará, e o fogo os devorará.[3]Ao mostrar-lhes teu rostoSejam devorados vossos inimigos pelo fogo do vosso semblante irado. O que se pode entender, ou da ruína de Jerusalém pelas chamas abrasadoras, ou do fogo do inferno, que abrasará eternamente aos perseguidores de Cristo e da sua Igreja. E assim o entendeu e expôs também Bossuet; advertindo que na frase da Escritura se toma algumas vêzes o rosto de Deus, que isso quer dizer vultus, pelo aspecto irado, como no salmo 33, 17. — Pereira.

11Seu fruto exterminarás da terra: E a sua descendência de entre os filhos dos homens.

12Porque urdiram contra mim males: Maquinaram conselhos que não puderam estabelecer.

13Porquanto os porás em fugida: Nos teus resíduos prepararás o rosto dêles.[4]Porquanto os porás em fugidaO hebreu diz: "Porquanto os porás aparte". Outros têm: "Por alvo da tua ira". Outros: "Os obrigarás a voltar as costas". O que pode explicar-se dêste modo: os obrigarás a voltar as costas, mas nem por isso escaparão, porque, ainda fugindo, lhes sairás ao encontro com o teu arco, e dêste modo tanto pela frente como pelas costas terão fim com as tuas setas. — P. Scio.

14Exalta-te, Senhor, no teu poder: Cantaremos e louvaremos as tuas maravilhas.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
📄 PDF
📄 Original