Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

Salmo impetratório. Davi cheio de consolação pela firme esperança que acha na divina misericórdia, pede ao Senhor que o livre da violência de seus inimigos, dos quais se vê larga e pertinazmente perseguido.

1Ao regente do côro, salmo de Davi. Até quando, Senhor, te esquecerás de mim para sempre? Até quando apartarás de mim a tua face?[1]Salmo de DaviÊste Salmo exprime a situação de uma alma atribulada que, cheia de confiança no Senhor, lhe expõe o seu mal e O invoca num grande perigo. Tem três estrofes de três versos. 1.ª (1-3) Queixa-se Davi de se ver abandonado por Deus. 2.ª (4-5) Oração ao Senhor rogando o divino socorro. 3.ª (6) Esperança no Auxílio Celeste. É incerta a ocasião em que foi composto êste Salmo; alguns crêem que êle se refere à perseguição de Saul; outros à rebelião de Absalão; e outros, que o seu objeto é expor os sentimentos dos justos que existiam cativos em Babilónia. — ATÉ QUANDO — Em latim usque quo, é uma interrogação de queixa, interrogatio lamentatio (Caetano) mas que tem também fôrça impetratória, equivalente a uma súplica.

2Até quando encherei a minha alma de desígnios, cada dia com dor no meu coração?[2]Até quando encherei a minha alma de desígnios, etc.Ponere consilia in anima, explica o estado de perplexidade em que se acha aquêle que não está certo em alguma coisa. — P. Scio.

3Até quando será o meu inimigo exaltado sôbre mim?

4Olha para mim, e ouve-me, Senhor Deus meu. Alumia os meus olhos para que eu não durma jamais na morte:[3]Não durma jamais na morteHebraísmo, que significa "dormir na morte" e morrer eternamente. — S. Jerônimo.

5Para que nunca o meu inimigo diga: Eu prevaleci contra êle. Os que me atribulam, exultarão se eu fôr abalado:

6Porém eu esperei na tua misericórdia. O meu coração exultará na salvação que me virá de ti: Cantarei ao Senhor que me deu bens: E entoarei salmos ao nome do Senhor altíssimo.[4]Que me deu bens, etc.O hebraico tem: "porque me retribuiu" premiou a minha inocência nesta causa; me deu a recompensa do meu trabalho, paciência e esperança; e não se lê aqui: Et psallam nomini tuo altissime, como se lê no salmo 9, 2. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
📄 PDF
📄 Original