Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 30

Salmo deprecatório. Davi suplica ao Senhor que o livre das amarguras em que se acha sem esperança de poder escapar, e foi de repente livre, por ter posto toda a sua confiança em Deus.

1Ao regente do côro, salmo de Davi.[1]Salmo de DaviDavi perseguido entrega-se nas mãos de Deus — provàvelmente no tempo da perseguição de Saul. Alguns dizem que foi quando fugiu para Get, buscando o asilo do rei Aquis, e outros que fôra quando chegara ao seu conhecimento a notícia da rebelião, excitada contra êle por seu filho Absalão. Tem dez estrofes, as oito primeiras pedem a libertação; as três últimas consideram-na já alcançada.

2Em ti, Senhor, esperei, não permitas que eu seja eternamente confundido: Livra-me, segundo a tua justiça.

3Dá ouvidos aos meus rogos, acode pronto a livrar-me. Ache eu em ti um Deus protetor, e uma casa de refúgio para me fazeres salvo;

4Porque tu és a minha fortaleza, e o meu refúgio: E por amor do teu nome me conduzirás, e me sustentarás.

5Tu me tirarás dêste laço, que me armaram escondidamente: Porque tu és o meu protetor.

6Nas tuas mãos encomendo o meu espírito: Tu me remiste, Senhor Deus da verdade.[2]Nas tuas mãos encomendo o meu espíritoEstas palavras pronunciou Cristo na Cruz. Lc 23, 46; e isto para nos ensinar, diz Santo Agostinho, que era êle o que falava neste salmo. Non sine causa voluit verba hujus psalmi sua esse, ut te admoneret se locutum esse in hoc psalmo. — Pereira.

7Aborreces aos que observam coisas vãs, inùtilmente, Mas eu no Senhor esperei:[3]Aborreces aos que observamSinaladamente parece que se insinuam aqui os muitos, que, no reinado de Saul, se valiam de adivinhos, pretendendo conhecer o futuro por meio das suas vãs superstições. O mesmo Saul, ainda que havia dado leis mui severas contra esta classe de gente, que sabia ser muito abominável na presença de Deus, Dt 13, isto não obstante na desesperação, e apêrto em que se achou no dia que precedeu a sua morte, passou disfarçado a consultar a pitonisa. 1 Rs 28, 7 ss. — P. Scio.

8Regozijar-me-ei, e alegrar-me-ei na tua misericórdia. Porque viste a minha humilhação, salvaste das angústias a minha alma.[4]Porque viste a minha humilhaçãoO hebreu tem: "Porque viste a minha aflição, e conheceste a minha alma nas angústias. — P. Scio.

9E não me encerraste nas mãos do inimigo: Puseste os meus pés em lugar espaçoso.

10Tem misericórdia de mim, Senhor, que estou atribulado: Conturbado com o pesar está o meu ôlho, a minha alma, e as minhas entranhas:

11Porque a minha vida tem desfalecido com a dor: E os meus anos com os gemidos. Tem-se debilitado pela pobreza a minha fôrça: E os meus ossos estão conturbados.

12Estou feito o opróbrio para todos os meus inimigos, e muito mais para os meus vizinhos: E o horror para os meus conhecidos. Os que me viam, fugiam para longe de mim:[5]Para todos os meus inimigosOs Setenta lêem: "entre todos os meus inimigos", e assim o traslada também S. Jerônimo. — Pereira.

13Fui pôsto em esquecimento, no coração dêles como morto. Fiquei sendo como vaso quebrado:

14Porque tenho ouvido as injúrias de muitos no meio dos quais eu estava. Quando deliberavam juntos contra mim, resolveram tirar-me a vida.[6]Porque tenho ouvido / Resolveram tirar-me a vidaPORQUE TENHO OUVIDO — O hebreu tem: Porque tenho ouvido opróbrios de muitos, espanto de tôdas as partes, enquanto juntos consultam contra mim, e andam maquinando tirar-me a vida. — P. Scio. RESOLVERAM TIRAR-ME A VIDA — Não se demoraram os conselheiros em ponderar se eu era réu, ou inocente; só maquinaram o modo de tirar-me a vida. O mesmo praticaram os pontífices, e fariseus contra Jesus Cristo, quando fizeram conselho em Jerusalém. — P. Scio.

15Mas eu em ti esperei, Senhor: Disse: Meu Deus és tu:

16Nas tuas mãos estão as minhas sortes. Livra-me das mãos dos meus inimigos, e dos que me perseguem.[7]As minhas sortesIsto é, os sucessos da minha vida, como verteu Le Gros. S. Jerônimo em lugar de sortes meæ, pôs tempora mea, os meus tempos, ou prósperos, ou adversos. — Pereira.

17Resplandeça a claridade do teu rosto sôbre o teu servo, salva-me segundo a tua misericórdia:

18Senhor, não seja eu confundido, pois que te invoquei. Envergonhem-se os ímpios, e sejam conduzidos ao inferno:[8]Conduzidos ao infernoO hebreu lê assim: Sejam envergonhados os ímpios; emudeçam na sepultura; isto é: põem freio à sua maledicência exterminando os da terra. Aqui a palavra inferno com tôda a propriedade se toma pelo lugar em que são atormentados os condenados ao eterno tormento; e êstes mesmos padecem eterna confusão, e é uma profecia do que havia de suceder aos perseguidores do Justo por excelência. — P. Scio.

19Tornem-se mudos os lábios enganadores. Que falam contra o Justo palavras de iniquidade, com soberba, e com desprezo.

20Que grande é, Senhor, a abundância da tua doçura, que tens reservada para os que te temem! Tu a deste completa àqueles que esperam em ti à vista dos filhos dos homens.

21Tu os esconderás no secreto da tua face contra a turbação dos homens. Tu os defenderás no teu tabernáculo da contradição das línguas.

22Bendito o Senhor: Porque maravilhosamente tem usado comigo da sua misericórdia na cidade fortificada.[9]Na cidade fortificadaAquis, rei de Get, a quem procurou Davi para salvar a vida lhe deu a cidade de Siceleg, que ficou depois incorporada no reino de Judá. 1 Rs 27, 6. Pode-se também entender êste verso da proteção de Deus que lhe servia de asilo fortíssimo. — Calmet.

23Mas eu disse no transporte do meu ânimo: Lançado fui diante dos teus olhos. Portanto ouviste a voz da minha oração, quando a ti clamava.[10]No transporte do meu ânimoA palavra hebraica significa pròpriamente na minha pressa, ou precipitação, ou que, quando eu precipitado e aturdido, e espavorido saí fugindo. O que pode convir a Davi, quando saiu de Jerusalém fugindo de seu filho Absalão. Porém a expressão dos Setenta é: "no rapto da minha mente, no meu êxtase", cuja palavra talvez desse motivo a intitular-se êste salmo pelo êxtase; e S. Jerônimo trasladou: in stupore meo, que denota a aflição, e agonia em que se achava o profeta, a qual o obrigava como a queixar-se de que o Senhor o havia desamparado. — P. Scio.

24Amai ao Senhor todos os que sois seus santos: Porque o Senhor perguntará pela verdade, e retribuirá abundantemente aos que obram com soberba.[11]E retribuirá abundantementePaga o Senhor conforme o merecimento dos que são soberbos fora de medida. Muitos saltérios antigos com Santo Agostinho uniram o advérbio abundanter com o facientibus superbiam. — P. Scio.

25Obrai varonilmente, e fortaleça-se o coração de todos vós os que esperais no Senhor.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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