Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

Salmo didático. O profeta neste salmo diz que os verdadeiros membros da Igreja são aquêles que vivem em justiça, e que por ela terão lugar na celestial Sião.

1Salmo de Davi. Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Ou quem descansará no teu santo monte?[1]Salmo de DaviÊste Salmo parece ter sido composto quando a arca da Aliança foi colocada no monte de Sião. Tem cinco estrofes, que muito fàcilmente se compreendem, visto que o poeta muito claramente exprime que só a virtude é digna da Eterna recompensa, que só os justos gozam na Bem-aventurança. As ações virtuosas que êle considera merecedoras do prémio de ir descansar com o Senhor no seio do seu Santo Monte, ou de habitar com êle no seu Tabernáculo, reduzem-se à prática dos deveres de caridade.

2O que caminha na inocência, e faz obras de justiça;

3O que fala verdade no seu coração, o que não fêz engano com a sua língua; Nem fêz mal a seu próximo, nem consentiu que se infamassem seus próximos.

4O que nos seus olhos olha o malvado como um nada; Mas honra aos que temem ao Senhor: O que jura a seu próximo, e não o engana.[2]Como um nadaQuer dizer que não estima o mau e honra o justo.

5O que não deu a usura o seu dinheiro, nem recebeu dádivas sôbre o inocente: O que faz estas coisas descansará eternamente.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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