Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 44

Salmo profético e epitalâmico, em que se celebra o desposório de Cristo com a sua Igreja. Vitórias se hão de alcançar pela pregação do Evangelho, e estabelecimento do reino de Jesus Cristo. Reunião feliz de todas as nações em um corpo.

1Ao regente do côro. Sôbre o scheschanim. Dos filhos de Coré. Instrução. Cântico amoroso.[1]ScheschanimEsta palavra traduziu a Vulgata qui commutabuntur, e o padre Pereira, que hão de ser mudados, o que não faz sentido. Esta palavra significa o lírio, e é, ou uma ária conhecida, o estilo de certo cântico, em que êste devia ser cantado, ou então um instrumento de música, com o acompanhamento do qual devia ser entoado. Êste salmo é aplicado pelos comentadores ao casamento da filha de Faraó com Salomão. É certamente Messiânico. — Vigouroux, ob. cit.

2Saiu do meu coração com grande ímpeto uma palavra boa: Eu digo ao rei as minhas obras. A minha língua é pena de escrivão, que escreve velozmente.[2]Uma palavra boa / A minha língua é pena de escrivão, etc.Um discurso de coisas excelentes e misteriosas, como são os louvores de Jesus Cristo. — P. Scio. — Ao rei, etc.: Ao rei Cristo, a quem celebro, e que é o objeto imediato dêste salmo; no que convêm os Santos Padres, e os mais doutos dos rabinos. — P. Scio. — A minha língua é pena de escrivão: Quer dizer: Eu nisto não tenho outra parte, senão aquela que tem o que escreve velozmente o que outro lhe dita. O sentido é: "E o Espírito Santo se serve da minha língua para que eu publique isto". — Santo Agostinho.

3Vistoso em formosura sôbre os filhos dos homens, a graça se derramou nos teus lábios: Por isso te bendisse Deus para sempre.[3]Vistoso em formosura, etc.Aqui principiam os louvores de Cristo, vistoso e magnífico em formosura, e perfeito em tôda a virtude, e tal te descobres à tua Igreja. Is 33, 17. — P. Scio. — Por isso, etc.: O propterea se explica como causa do que precede no sentido de propterea quod: és belo, e engraçado; porque o Senhor te abençoou. Outros o entendem na sua natural significação ob id: êstes são os dois motivos ou fundamentos, aos quais tem atendido Deus teu Pai para estabelecer o teu reino eterno. — P. Scio.

4Cinge a tua espada ao teu lado, ó poderosíssimo.[4]Cinge a tua espada, etc.Por esta espada se denota a eficacíssima e penetrante palavra do Evangelho. Is 49, 2; ad Hebr. 4, 12; Apc 1, 16 e 19, 15. — P. Scio.

5Com a tua beleza e com a tua formosura enteza o arco, vai adiante felizmente, e reina. Por meio da verdade e da mansidão, e da justiça: E a tua destra te conduzirá a coisas maravilhosas.

6As tuas setas são agudas nos corações dos inimigos do rei, debaixo de ti cairão os povos.

7O teu trono, ó Deus, subsistirá por todos os séculos: Vara de retidão é a vara do teu reino.[5]Vara de retidãoDirige o seu discurso a Jesus Cristo, o qual, além do reino de glória eterna, e essencial, possui também o reino com que manda a todo o criado em qualidade de medianeiro, e o excita pela união das duas naturezas. S. Paulo aplica êste versículo a Jesus Cristo, e prova por êle a sua divindade, segundo a palavra de Deus que se lhe atribui. Ad Hebr. 1, 8. — P. Scio.

8Amaste a justiça, e aborreceste a iniqüidade: Por isso te ungiu Deus o teu Deus com óleo de alegria sôbre teus companheiros.[6]Por isso te ungiuO propterea se pode explicar em os dois sentidos que ficam notados no v. 3. Porque tu só pela tua perfeitíssima justiça és digno de ser o rei da Igreja: Deus te tem destinado, e consagrado para êste ofício, não só pela tua pessoa, que é igual com a do Padre, senão ainda no teu ser de homem te tem dotado sem medida dos dons do seu espírito; o que figuravam as antigas unções dos reis. Jo 3, 34, e 1 Jo 2, 20-27. A primeira unção de Cristo foi na sua Encarnação, quando o Verbo se uniu hipostàticamente com a natureza humana. Ela precede a todo o mérito, e é de todo gratuita. A segunda unção foi na sua Ressurreição, quando o Padre encheu a Cristo da glória que merecia. Pode o texto explicar-se de uma e outra maneira. S. Paulo parece o entendeu no primeiro sentido, como se o Deus estivesse em vocativo, ó Deus, conforme a versão dos Setenta, ó Deus, o teu Deus. E Santo Agostinho insiste no mesmo, por ser o texto uma prova evidente da divindade de Jesus Cristo. Veja-se Enarr, in hunc psalmo numero 19. — P. Scio. — Sôbre teus companheiros: Sôbre todos os verdadeiros fiéis santificados pelo mesmo espírito, e dotados das suas graças para serem reis, e sacerdotes. Apc 1, 6 e 4, 10; mas que não recebem senão uma porção, e essa por medida. 1 Cor 13, 7-11, Ef 4, 7. Mas Jesus Cristo tem tôda a enchente e plenidão. Jo 3, 34. — P. Scio.

9Cheiro de mirra, de aloés, e de cássia sai de teus vestidos, desde as casas de marfim: Com as quais coisas te alegraram[7]De teus vestidos / Desde as casas de marfimDos dons do Espírito Santo de que estás revestido, e que derramam um cheiro suavíssimo de graça e de virtude: Cant 1, 3 e por meio dêles atraístes a tôdas as nações. — P. Scio. — Desde as casas de marfim: Desde o Céu, palácio real de Jesus Cristo. Costumavam os reis cobrir as paredes dos seus gabinetes, com pranchas de marfim. O hebreu tem: "Todos os teus vestidos são mirra, aloés, e cássia, que espalham o seu cheiro desde os palácios de marfim, desde os Céus onde tens a tua morada cheio de um eterno gôzo." — P. Scio.

10as filhas dos reis na tua glória. Apresentou-se a rainha à tua destra com manto de ouro: Cercada de variedade.[8]Com manto de ouroO hebreu diz: "Em coroa de Ofir:" De ouro puríssimo: Jó 22, 24. Mas não se lêem as palavras: circumdata varietate. Êste ouro, e vários adornos da Espôsa são a caridade, e variedade de virtudes, e dons de graça, dos quais está ricamente adornada a Igreja. 1 Cor 12, 6. 7. 8. Hbr 2, 4. S. Bernardo, S. Ildefonso, e outros muitos intérpretes aplicam à rainha dos anjos o que neste salmo se diz da espôsa, a quem muito bem se atribuem quantos adornos e graças insinua aqui o profeta. — P. Scio.

11Escuta, ó filha, e vê, e inclina o teu ouvido: E esquece-te do teu povo, e da casa de teu pai.[9]E esquece-te do teu povoRenuncia ao mundo, e à infidelidade, que é como a casa paterna, de onde fôste tirada por chamamento do Padre, para estar unida perfeitamente com teu espôso, segundo a lei do matrimónio, Gên 2, 24, Flp 14. — P. Scio.

12E cobiçará o rei a tua beleza: Porque êle é o Senhor teu Deus, e adorá-lo-ão.

13E as filhas de Tiro com dádivas farão deprecações em tua presença: E todos os ricos do povo.

14Tôda a glória da que é filha do rei é de dentro, em franjas de ouro.

15Tôda vestida de vários adornos. Serão apresentadas ao rei virgens após ela: As suas companheiras te serão conduzidas.[10]Tôda vestida de vários adornosO hebreu: "Tôda gloriosa é a filha d'el-rei, de dentro: recamado de ouro o seu vestido", e os versículos seguintes dizem assim no hebreu: "Em vestidos bordados será levada ao rei: virgens após ela; as suas companheiras serão trazidas à tua presença; serão conduzidas com alegria, e com festas: Entrarão no palácio d'el-rei."

16Serão conduzidas com alegria e com regozijo: Conduzi-las-ão ao templo do rei.

17Em lugar de teus pais te nascerão filhos: Estabelecé-los-ás príncipes sôbre tôda a terra.

18Lembrar-se-ão do teu nome por tôda a geração e geração. Por isto os povos te louvarão eternamente: E pelos séculos dos séculos.[11]Lembrar-se-ão do teu nomeO texto hebreu diz: "Publicarei a memória do teu nome por tôdas as idades." Palavras do profeta a Jesus Cristo. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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