Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 131

Salmo em honra de Jerusalém. Roga o povo a Deus pela restauração do seu reino conforme a promessa feita a Davi.

1Cântico gradual.
Lembra-te, Senhor, de Davi, e de tôda a sua mansidão:[1]Cântico gradualCÂNTICO GRADUAL — Muitos atribuem êste salmo a Davi, e outros com S. João Crisóstomo o atribuem a Salomão, e é a opinião mais seguida, quando trasladou a arca do Testamento para o novo Templo, que edificara. 2 Sl 6, 41, pois nêle louva a Davi, por ter preparado tudo o que era necessário para a fundação do Templo, e pede a Deus que confirme as promessas, que lhe fizera. Parece que os judeus o repetiram na Dedicação do segundo Templo. Contudo Calmet reduz ao tempo do cativeiro a sua primeira composição, em conformidade do seu sistema. Tem quatro estrofes.

2Assim como jurou ao Senhor, fêz promessa ao Deus de Jacó:

3Se eu entrar na tenda de minha casa, se subir ao leito do meu estrado:

4Se der sono aos meus olhos, e às minhas pestanas adormecimento:

5E repouso às minhas fontes da cabeça: Até que ache um lugar para o Senhor, um Tabernáculo para o Deus de Jacó.

6Eis-aqui temos ouvido que êle estava em Efrata: E o achamos nos campos da floresta.[2]Efrata / Campo da florestaEFRATA — Designa provàvelmente a tribo de Efraim, onde estava Cilo, cidade que possuiu a arca e o tabernáculo. Ora é certo que a arca permaneceu nesta tribo desde Josué até Samuel, e que daí foi transportada a Cariatiarim, onde estêve até ao início do reinado de Davi. Sl 67, 60-67. CAMPO DA FLORESTA — É o que significa Cariatiarim, cidade dos bosques. A letra que está no texto original traduzir-se-ia assim: "Ouvimos dizer que ela (a arca) estava em Efrates. E nós a achamos nos campos de Yahar." Yahar significa floresta, e foi traduzida por silva na Vulgata; era um lugar perto de Cariatiarim, cidade de pedra, na estrada de Jerusalém. Jafa, nas montanhas. Cfr. Poels, Le Sanctuaire de Kiriath Jearim.

7Entraremos no seu tabernáculo: Nós o adoraremos no lugar onde estiveram os seus pés.

8Levanta-te, Senhor, entra no teu repouso, tu e a arca da tua santificação.

9Vistam-se os teus sacerdotes de justiça: E regozijem-se os teus santos.

10Por amor de Davi teu servo, não desprezes o rosto do teu Cristo.[3]Por amorPOR AMOR — Estas palavras se devem interpretar conforme o sentido das daquele lugar do 2 Par 6, 42, onde se diz: Domine Deus ne averteris faciem Christi tui: memento misericordiarum David servi tui: Senhor, lembra-te da misericórdia que usaste com Davi teu servo; usa-a também comigo, e não me desampares, pois sou teu ungido, o que tu mesmo destinaste para que lhe sucedesse no império. Os Padres comumente aplicam a Cristo estas palavras, pelas quais se pede que o Senhor acelere a sua vinda por amor de Davi a quem foi prometido. — S. João Crisóstomo.

11Jurou o Senhor verdade a Davi, e não deixará de cumpri-la: Do fruto do teu ventre porei sôbre o teu trono.[4]Do frutoDO FRUTO — Fala-se nesta promessa de um filho, ou descendente de Davi, segundo a carne, e dêle se diz que o seu reino subsistirá eternamente, como no Sl 88, 38. — Pereira.

12Se guardarem teus filhos o meu pacto, e êstes meus testemunhos, que eu lhes ensinarei:
E os filhos dêles os guardarem também para sempre. também êles se sentarão sôbre o teu trono.

13Porque tem escolhido o Senhor a Sião: Têm-na escolhido por morada para si.

14Êste é o meu repouso para sempre: Aqui habitarei porque o escolhi:

15Abençoarei copiosamente a sua viúva: Fartarei de pães os seus pobres.[5]Abençoarei copiosamenteABENÇOAREI COPIOSAMENTE — O hebreu de S. Jerônimo, e com êle os Setenta: Eu abençoarei a sua caça, significando por caça o mantimento. O que deu lugar à lição da Vulgata, é a diferença de uma só letra na versão dos Setenta. Êles traziam Tora, que quer dizer a caça ou a prêsa: os copistas substituíram-lhe Chera, que quer dizer a viúva. — Pereira.

16Vestirei os seus sacerdotes de salvação: E os seus santos saltarão de prazer.

17Ali dilatarei o poder de Davi, preparada tenho uma lâmpada para o meu Cristo.

18Cobrirei de confusão aos seus inimigos: Mas sôbre êle florescerá a minha santificação.[6]Florescerá a minha santificaçãoFLORESCERÁ A MINHA SANTIFICAÇÃO — Ou consagração, ou unção, ou a coroa que eu lhe dei, como se lê no hebreu, e S. Jerônimo traslada: seu Diadema. O que pertence pròpriamente a Cristo, a quem se deu todo o poder no Céu, e na terra. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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