Capítulo 68
1Ao regente do côro. Sôbre os Schoschannim. De Davi.[1]Schoschannim — SCHOSCHANNIM — Veja-se Sl 44, 1. Êste salmo deve ter sido composto durante a perseguição de Saul, mas referem-no os exegetas a Jesus Cristo, pois que é impossível na vida de Davi encontrar fatos aos quais se possam aplicar as palavras exaradas neste salmo. São freqüentes as alusões aos sofrimentos de Jesus Cristo, e por isso, como o salmo 21, é muito citado no Novo Testamento. Êste salmo tem três partes. Primeira parte. 1.° O Messias sofre (2-4). 2.° por Deus (6-7, 8-10, 11-13) — 3.° logo Deus deve-o salvar (14, 15-16, 17-19). Segunda parte. Visto que sofre pela maldade dos seus inimigos (20-22) Deus deve-os castigar (23-26; 27-29). Terceira parte. Mas Deus o salvará (30-32). A sua recompensa será ver convertidos os gentios, que louvarão a Deus com êle.
2Salva-me, ó Deus: Porque as águas têm entrado até à minha alma.[2]Salva-me, ó Deus — SALVA-ME, Ó DEUS — Tôda esta alegoria consta de expressões muito enérgicas, e acomodadas a manifestar-nos o extremo a que os pecados de todos os homens, e a crueldade dos judeus haviam de reduzir ao que havia de vir resgatar e salvar o Universo inteiro. — P. Scio. AS ÁGUAS — As grandes calamidades.
3Atolado estou no lôdo do profundo: Nem há consistência.
Cheguei ao alto mar: E a tempestade me submergiu.[3]Nem há consistência — NEM HÁ CONSISTÊNCIA — E não há pé, ou firmêza, diz o hebreu, isto é: Não há lugar onde se possa firmar o pé. E êste parece ser também o sentido da Vulgata: S. Jerônimo traduz: "Nada há firme, nem onde eu possa subsistir". — Pereira.
4Cansei-me clamando, enrouqueceram-se as minhas fauces: Desfaleceram os meus olhos, enquanto espero no meu Deus.
5Têm-se multiplicado mais que os cabelos da minha cabeça, os que me aborrecem sem razão.
Têm-se fortalecido os meus inimigos que me perseguiram injustamente: Paguei então o que não tinha roubado.[4]Paguei então o que não tinha roubado — PAGUEI ENTÃO O QUE NÃO TINHA ROUBADO — Eu sou inocente, e não obstante sou tratado como réu. Se isto se refere a Jesus Cristo, significa que o Justo havia de padecer pelos injustos. Is 53, 4. 5. 6, e 1 Pdr 3, 18. — Bossuet.
6Ó Deus, tu conheces as minhas faltas: E os meus delitos não te são ocultos.
7Não sejam envergonhados por minha causa os que te esperam, Senhor: Senhor das virtudes.
Não sejam confundidos a meu respeito aquêles que te buscam, ó Deus de Israel.[5]Senhor das virtudes — SENHOR DAS VIRTUDES — O hebreu diz: "Dos exércitos." — P. Scio.
8Pois por tua causa tenho sofrido afronta: Foi coberto de confusão o meu rosto.
9Tenho-me tornado estranho a meus irmãos, e desconhecido aos filhos de minha mãe.[6]Aos filhos de minha mãe — AOS FILHOS DE MINHA MÃE — Fratres mei, et filii matris meae, significam uma mesma coisa. Os judeus não conheceram a Jesus Cristo, e o trataram como a estranho. Is 13, 3. Jo 9, 29, e os seus próprios parentes não crendo nêle, o apartaram de si, e o desacreditaram. Jo 1, 11 e 7, 5.
10Porque o zelo da tua casa me devorou: E os opróbrios dos que te improperavam a ti, recaíram sôbre mim.[7]Recaíram sôbre mim — RECAÍRAM SÔBRE MIM — O que se verificou não sòmente quando lançou fora do Templo aos que o profanavam com as suas vendas, compras e câmbios, Jo 11, 17, senão sempre que se tratava do serviço e da honra de seu pai; olhando como injúrias, e ofensas feitas a si mesmo, as que se faziam contra Deus, isto é, que se segue e o aplica expressamente a Cristo o Apóstolo ad Romanos 15, 1-23.
11E cobri pelo jejum a minha alma: E tornou-se-me em opróbrio.[8]E cobri — E COBRI — Há aqui provàvelmente uma elipse: o sentido da frase deve ser êste: Cobri minha alma com um cilício durante o meu jejum; isto é, vesti-me de cilício para jejuar. É sabido que no hebreu muitas vêzes toma-se a palavra alma para significar pessoa ou indivíduo. A elipse torna-se evidente desde que se comparem estas palavras com as do Sl 34, 13: "E eu, enquanto me eram molestos me vestia de cilício". A Vulgata traduziu operui, a que o padre Pereira deu a significação de "humilhei", porém nós seguimos a edição dos Setenta de Compluto, e a maior parte dos exemplares gregos e latinos, que trazem expressamente — eu cobri.
12E tomei por vestido cilício: E fui para com êles escárnio.
13Contra mim falavam os que se sentavam à porta: E sôbre mim cantavam os que bebiam vinho.[9]Se sentavam à porta — SE SENTAVAM À PORTA — Por êstes se entendem os juízes, e magistrados que tinham seus tribunais junto às portas da cidade, onde tinham lugar as assembléias mais importantes.
14Porém eu, Senhor, dirigia-te a minha oração, dizendo: Tempo é de beneplácito, ó Deus.
Ouve-me segundo a multidão da tua misericórdia, segundo a verdade da tua salvação.
15Tira-me do lôdo para que não fique atolado: Livra-me daqueles que me aborrecem, e da profundidade das suas águas.[10]Da profundidade das suas águas — DA PROFUNDIDADE DAS SUAS ÁGUAS — Isto é, do inferno. Glaire, ob. cit.
16Não me afogue a tempestade de água, nem me absorva o mar profundo: Nem cerre apertadamente o poço a sua bôca sôbre mim.[11]Nem cerre apertadamente — NEM CERRE APERTADAMENTE — O hebreu tem: "E que o poço não cerre sôbre mim a sua bôca." Por poço se entende a morte, ou o estado de morte, do qual pede a seu pai que o livre por uma gloriosa Ressurreição. — P. Scio.
17Ouve-me, Senhor, porque benigna é a tua misericórdia: Segundo a multidão das tuas comiserações olha para mim.
18E não apartes o teu rosto do teu servo: Porque estou angustiado, ouve-me prontamente.
19Atende à minha alma, e livra-a: Por causa de meus inimigos salva-me.
20Tu sabes o meu opróbrio, e a minha confusão, e a minha vergonha.
21À tua vista estão todos os que me afligem, impropério aguardou o meu coração e miséria.
E esperei se algum se entristecia comigo e não houve ninguém: E esperei se algum me consolava, e não o achei.
22E deram-me na minha comida fel: E na minha sêde me propinaram vinagre.[12]E na minha sêde — E NA MINHA SÊDE — Claramente se cumpriu isto em Cristo. Veja-se Mt 27, 48 e Mc 15, 23. Chama a esta bebida vinho mirrado, misturado com fel. Todos êstes textos parecem mais narrações de história, segundo se refere nos Evangelhos, que profecias do que estava por vir, e ainda tão remoto. — Bossuet.
23Torne-se a sua mesa diante dêles em laço, e em tribulação, e em ruína.
24Obscureçam-se os olhos dêles para que não vejam: E encurva sempre o seu espinhaço.
25Derrama sôbre êles a tua ira: E o furor da tua ira os alcance.
26Deserta fique a sua morada: E nas choupanas dêles não haja quem habite.
27Porquanto ao que tu feriste, perseguiram, e sôbre a dor das minhas chagas acrescentaram novas chagas.
28Ajunta-lhes maldade sôbre maldade: E não cheguem a entrar nos caminhos da tua justiça.[13]E não cheguem — E NÃO CHEGUEM — Não terão parte naquela justiça que manifestará no Evangelho para justificados pecadores. Rom 3, 25-26; 10, 2. A voz original se usa em sentido de justiça, e de misericórdia. — P. Scio.
29Sejam riscados do livro dos viventes: E com os justos não sejam escritos.
30Eu sou pobre e dolorido; na tua salvação, ó Deus, me acolhe.
31Glorificarei o nome de Deus com cântico: E o engrandecerei com louvor.
32E isto agradará a Deus mais que o tenro novilho, quando lhe saem as pontas e as unhas.[14]Que o tenro novilho — QUE O TENRO NOVILHO — Quer dizer, que o sacrifício dum tenro novilho.
33Vejam-no os pobres e alegrem-se: Buscai a Deus, e viverá a vossa alma:
34Porquanto ouviu aos pobres o Senhor: E não desprezou aos que por êle estão em cadeias.
35Louvem-no os céus e a terra, o mar, e todos os animais que nêles se encerram.
36Porquanto Deus fará salva a Sião: E edificar-se-ão as cidades de Judá.
E morarão ali, e ganhá-la-ão como sua herança.[15]Como sua herança — COMO SUA HERANÇA — Profecia relativa ao restabelecimento da Judéia depois do cativeiro de Babilónia. Ora esta restauração é, no entender dos intérpretes, uma figura do estabelecimento da Igreja.
37E a linhagem de seus servos a possuirá, e os que amam o seu nome, habitarão nela.