Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Salmo impetratório. Davi ultrajado por seus inimigos se volta a Deus implorando a sua misericórdia: conta com a vitória confiando na divina proteção.

1Ao regente do côro, com acompanhamento de instrumentos de corda, salmo de Davi, com vozes graves.[1]Com vozes gravesVoz do baixo, é o que quer dizer o têrmo hebraico scheminith, que a Vulgata traduziu pro octava. O objeto dêste Salmo é pedir a Deus que abrande o rigor da sua justiça. Alguns expositores entendem que o Salmista dirigira êste cântico ao Senhor, sofrendo de alguma grave moléstia; outros pensam que foi composto quando sôbre êle pesava o castigo de adultério que tinha cometido, e da cruel morte de Urias. Como quer que seja, êle é a nobre expressão do coração aflito, que só do Senhor espera alívio ao seu padecimento. Tem 3 estrofes: a média mais extensa do que as outras. É o primeiro dos Salmos Penitenciais, e o que nêle se encontra tanto pode ser repetido por um pecador arrependido das suas faltas, como por um justo vergado ao pêso do infortúnio. Na primeira estrofe (2-4) Davi apela para a Misericórdia Divina, para que o não castigue, rogando ao Senhor se compadeça dêle, fraco e cheio de temor e tremendo diante de Deus. Na segunda (5-8) reza ao Senhor que por piedade lhe anime o semivivo peito, e que ouça os seus gemidos durante a noite. A terceira (9-11) é a chamada estrofe do triunfo — Deus escutou a prece, e triunfa dos seus inimigos.

2Senhor, não me arguas no teu furor, nem me castigues na tua ira.

3Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou enfêrmo: Sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão comovidos.

4E a minha alma se turbou em extremo: Mas tu, Senhor, até quando?

5Volta-te, Senhor, e livra a minha alma: Salva-me pela tua misericórdia.

6Porque na morte não há quem se lembre de ti: E no inferno quem te louvará?[2]Na morte não há quem se lembre de tiEsta expressão é frequente nos Salmos; encontra-se nos 113, 17; 114, 9; 145, 4; 29, 10; 87, 6.11.13; e daqui, sem razão, censuram alguns o salmista de ignorar a vida futura, e circunscrever as esperanças do homem à vida presente. A esta objeção responderemos com Vigouroux: 1.º Deus não revelou no Antigo Testamento, com a mesma precisão que se lê no Novo, o estado das almas depois da morte; 2.º que se servia das promessas e ameaças temporais para conter os judeus na observância da Lei; 3.º que as palavras do salmista não são uma negação da Imortalidade da alma ou da vida futura, mas sim a afirmação de que não podiam louvar a Deus no limbo. Manuel Bíblique. Demais é também certo que antes da vinda de Jesus Cristo estavam privados da Bem-aventurança e da visão beatífica, e por consequência a morte tinha um horror particular. Bossuet, Dissertatio in Psalmis, 101, 10. Há porém muitos Salmos em que são evidentes as passagens que atestam a crença numa outra vida. Sl 15, 9-10; 61, 8-9; 83, 5; 72, 23-28; 16, 15; 47, 15; 36, 18. E NO INFERNO — Inferno aqui, assim como noutros muitos lugares da Escritura, toma-se pelo sepulcro. — Bossuet e Duhamel.

7Trabalhado me vejo no meu gemido, lavarei tôdas as noites o meu leito: Regarei com minhas lágrimas o meu estrado.

8O meu ôlho se turvou à vista do furor: Tenho envelhecido no meio de todos os meus inimigos.[3]À vista do furorIsto é, pelo furor dos meus inimigos. S. Jerônimo verte do hebreu: Calignavit præ amaritudine, o meu ôlho cegou por causa da amargura; isto é, pela cópia de lágrimas, que êles me faziam chorar. — Bossuet e Duhamel.

9Apartai-vos de mim todos os que obrais iniquidade: Porque o Senhor ouviu a voz do meu pranto.

10O Senhor ouviu o meu humilde rogo, o Senhor recebeu a minha oração.

11Sejam confundidos, e em extremo conturbados todos os meus inimigos: Convertam-se, e sejam cobertos de ignomínia num instante.[4]Num instanteA palavra hebraica significa logo logo e se declara bem exatamente com o valde velociter da Vulgata. A palavra convertantur uns a entendem da 'conversão' a Deus, que deseja Davi a seus inimigos, como figura daquele que disse desde a cruz: Parce illis. Outros pelo mesmo que voltar, pedindo que fujam logo os que combatiam o seu sossêgo espiritual e temporal. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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