Capítulo 6
1Ao regente do côro, com acompanhamento de instrumentos de corda, salmo de Davi, com vozes graves.[1]Com vozes graves — Voz do baixo, é o que quer dizer o têrmo hebraico scheminith, que a Vulgata traduziu pro octava. O objeto dêste Salmo é pedir a Deus que abrande o rigor da sua justiça. Alguns expositores entendem que o Salmista dirigira êste cântico ao Senhor, sofrendo de alguma grave moléstia; outros pensam que foi composto quando sôbre êle pesava o castigo de adultério que tinha cometido, e da cruel morte de Urias. Como quer que seja, êle é a nobre expressão do coração aflito, que só do Senhor espera alívio ao seu padecimento. Tem 3 estrofes: a média mais extensa do que as outras. É o primeiro dos Salmos Penitenciais, e o que nêle se encontra tanto pode ser repetido por um pecador arrependido das suas faltas, como por um justo vergado ao pêso do infortúnio. Na primeira estrofe (2-4) Davi apela para a Misericórdia Divina, para que o não castigue, rogando ao Senhor se compadeça dêle, fraco e cheio de temor e tremendo diante de Deus. Na segunda (5-8) reza ao Senhor que por piedade lhe anime o semivivo peito, e que ouça os seus gemidos durante a noite. A terceira (9-11) é a chamada estrofe do triunfo — Deus escutou a prece, e triunfa dos seus inimigos.
2Senhor, não me arguas no teu furor, nem me castigues na tua ira.
3Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou enfêrmo: Sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão comovidos.
4E a minha alma se turbou em extremo: Mas tu, Senhor, até quando?
5Volta-te, Senhor, e livra a minha alma: Salva-me pela tua misericórdia.
6Porque na morte não há quem se lembre de ti: E no inferno quem te louvará?[2]Na morte não há quem se lembre de ti — Esta expressão é frequente nos Salmos; encontra-se nos 113, 17; 114, 9; 145, 4; 29, 10; 87, 6.11.13; e daqui, sem razão, censuram alguns o salmista de ignorar a vida futura, e circunscrever as esperanças do homem à vida presente. A esta objeção responderemos com Vigouroux: 1.º Deus não revelou no Antigo Testamento, com a mesma precisão que se lê no Novo, o estado das almas depois da morte; 2.º que se servia das promessas e ameaças temporais para conter os judeus na observância da Lei; 3.º que as palavras do salmista não são uma negação da Imortalidade da alma ou da vida futura, mas sim a afirmação de que não podiam louvar a Deus no limbo. Manuel Bíblique. Demais é também certo que antes da vinda de Jesus Cristo estavam privados da Bem-aventurança e da visão beatífica, e por consequência a morte tinha um horror particular. Bossuet, Dissertatio in Psalmis, 101, 10. Há porém muitos Salmos em que são evidentes as passagens que atestam a crença numa outra vida. Sl 15, 9-10; 61, 8-9; 83, 5; 72, 23-28; 16, 15; 47, 15; 36, 18. E NO INFERNO — Inferno aqui, assim como noutros muitos lugares da Escritura, toma-se pelo sepulcro. — Bossuet e Duhamel.
7Trabalhado me vejo no meu gemido, lavarei tôdas as noites o meu leito: Regarei com minhas lágrimas o meu estrado.
8O meu ôlho se turvou à vista do furor: Tenho envelhecido no meio de todos os meus inimigos.[3]À vista do furor — Isto é, pelo furor dos meus inimigos. S. Jerônimo verte do hebreu: Calignavit præ amaritudine, o meu ôlho cegou por causa da amargura; isto é, pela cópia de lágrimas, que êles me faziam chorar. — Bossuet e Duhamel.
9Apartai-vos de mim todos os que obrais iniquidade: Porque o Senhor ouviu a voz do meu pranto.
10O Senhor ouviu o meu humilde rogo, o Senhor recebeu a minha oração.
11Sejam confundidos, e em extremo conturbados todos os meus inimigos: Convertam-se, e sejam cobertos de ignomínia num instante.[4]Num instante — A palavra hebraica significa logo logo e se declara bem exatamente com o valde velociter da Vulgata. A palavra convertantur uns a entendem da 'conversão' a Deus, que deseja Davi a seus inimigos, como figura daquele que disse desde a cruz: Parce illis. Outros pelo mesmo que voltar, pedindo que fujam logo os que combatiam o seu sossêgo espiritual e temporal. — P. Scio.