Capítulo 1
1No meu primeiro discurso falei na verdade, ó Teófilo, de tôdas as coisas que Jesus começou a fazer, e a ensinar.[1]NO MEU PRIMEIRO DISCURSO — Isto é, no primeiro livro que escrevi que foi o meu Evangelho. - Pereira.
2Até ao dia em que ascendeu ao Céu, depois de ter dado preceitos pelo Espírito Santo aos Apóstolos que elegeu.
3Aos quais também se manifestou a si mesmo vivo com muitas provas depois da sua Paixão, aparecendo-lhes por quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus.[2]DO REINO DE DEUS — Isto é, da sua Igreja e da doutrina Evangélica, em que se contêm muitas verdades não escritas, que o Senhor revelou então aos Apóstolos de viva voz, e que nos foram depois transmitidas pelo canal da tradição apostólica. - Sacy.
4E comendo com êles, lhes ordenou que não saíssem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Padre, que ouvistes (disse êle) na minha bôca:[3]NO ESPÍRITO SANTO — Os Apóstolos já tinham recebido o batismo de Cristo. Faltava-lhes porém aquela inundação do Espírito Santo, que consistia no dom da confirmação, e que de todo o habilitasse para, com tôda a coragem e intrepidez, exercitarem o Episcopado, até se sacrificarem pela Igreja. E êste era o segundo batismo ou efusão da Divina graça, que êles haviam de receber no dia de Pentecostes. - Sacy, Amelote, Duhamel.
5Porque João na verdade batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, não muito depois dêstes dias.
6Portanto os que se haviam congregado lhe perguntavam, dizendo: Senhor, dar-se-á caso que restituas neste tempo o reino a Israel?[4]RESTITUAS NESTE TEMPO O REINO — Por estas palavras se vê que até então os Apóstolos não tinham percebido a doutrina de Cristo, nem compreendido o que o seu Divino Mestre tantas vezes lhes havia inculcado. Para êles ainda há a preocupação dum reino temporal.
7E êle lhes disse: Não é para vós saber já os tempos, nem momentos, que o Padre reservou ao seu poder:
8Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que descerá sôbre vós, e sereis testemunhas em Jerusalém e em tôda a Judéia, e Samaria, e até às extremidades da terra.
9E tendo dito isto, vendo-o êles, se foi elevando: E o recebeu uma nuvem que o ocultou a seus olhos.[5]SE FOI ELEVADO — Severo Sulpício e S. Paulino de Nola, escritores do quinto século, atestam que ao subir Jesus do monte do Olival ao céu deixara impressas na terra as suas divinas pegadas. Santo Agostinho e o venerável Beda acrescentam que em seu tempo iam muitos de romaria a visitá-las. Advirto mais que êste monte, que os Evangelistas chamam do Olival, é o que, adotando em português o mesmo nome latino, chamamos comumente o Monte Olivete.
10E como estivessem olhando para o Céu quando êle ia subindo, eis que se puseram ao lado dêles dois varões com vestiduras brancas.
11Os quais também lhes disseram: Varões galileus, que estais olhando para o Céu? Êste Jesus que, separando-se de vós foi assunto ao Céu, assim virá, do mesmo modo que o haveis visto ir ao Céu.
12Então voltaram para Jerusalém desde o monte, que se chama do Olival que está perto de Jerusalém na distância da jornada de um sábado.[6]NA DISTÂNCIA DA JORNADA DE UM SÁBADO — Era o espaço de dois mil côvados, ou de mil passos, que tanto distava do campo dos israelitas o Tabernáculo no deserto. - Amelote.
13E tendo entrado em certa casa, subiram ao quarto de cima, onde permaneciam Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, e Simão o Zeloso e Judas, irmão de Tiago.[7]E TENDO ENTRADO EM CERTA CASA — Dizem que fôra a de Maria, mãe de João Marcos, de quem adiante se faz menção neste livro, 12, 12. Calmet. A letra do texto diz: e tendo entrado no cenáculo, que aqui se toma por uma sala ou quarto superior da tal casa. - Pereira.
14Todos êstes perseveraram unanimemente em oração com as mulheres e com Maria, Mãe de Jesus, e com os irmãos dêle.[8]E COM OS IRMÃOS DÊLE — Isto é, com os parentes dêle, segundo o modo de falar dos hebreus.
15Naqueles dias, levantando-se Pedro no meio dos irmãos (e montava a multidão dos que ali se achavam juntos a quase cento e vinte pessoas) disse:
16Varões irmãos, é necessário que se cumpra a Escritura, que o Espírito Santo predisse por bôca de Davi, acêrca de Judas, que foi o condutor daqueles que prenderam a Jesus:
17O qual estava entre nós alistado no mesmo número, e a quem coube a sorte dêste ministério.
18E êste possuiu de fato um campo do preço da iniquidade, e depois de se pendurar rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram.
19E tão notório se fêz a todos os habitantes de Jerusalém êste sucesso, que se ficou chamando aquele campo, na língua dêles, Haceldama, isto é, campo de sangue.
20Porque escrito está no Livro dos Salmos: Fique deserta a habitação dêles e não haja quem habite nela, e receba outro o seu Bispado.
21Convém pois que dêstes varões, que têm estado juntos na nossa companhia todo o tempo em que entrou e saíu entre nós o Senhor Jesus:[9]ENTROU E SAÍU — É o mesmo que dizer todo o tempo que viveu entre nós; porque a expressão de entrar e sair por um Hebraísmo, significa tôda a série e teor de vida, tôdas as palavras e ações de qualquer pessoa. Confirma-se o Dt 31, 2, o 2 Par 1, 10.
22Começando desde o batismo de João até ao dia em que foi assunto acima dentre nós, que um dos tais seja testemunha conosco da sua Ressurreição.
23E propuseram dois, a José, que era chamado Barsabás, o qual tinha por sobrenome o Justo, e a Matias.[10]JOSÉ QUE ERA CHAMADO BARSABÁS — Naturalmente um dos 70 discípulos, na opinião de Eusébio. - História eclesiástica.
24E orando disseram: Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra-nos dêstes dois um a quem tiveres escolhido,[11]TU, SENHOR, QUE CONHECES OS CORAÇÕES — Esta oração é naturalmente dirigida a Jesus Cristo, que reservou para si a escolha dos Apóstolos.
25para que tome o lugar dêste ministério e Apostolado, do qual pela sua prevaricação caíu Judas para ir ao seu lugar.
26E a seu respeito deitaram sortes, e caíu a sorte sôbre Matias, e foi contado com os onze Apóstolos.[12]DEITARAM SORTES — Por êste modo de eleição vê-se quanto os Apóstolos contavam com a assistência Divina. É o que diz eloquentemente S. Agostinho. Electi sunt duo judicio humano et electus de duobus unus judicio divino. S. Agostinho, Enarratio in Psalmum 30. Sabiam que o Senhor em breve se lhes revelaria, e nesta confiança entregam-se aos seus designios.