Capítulo 23
1Paulo pois, pondo os olhos no conselho, disse: Varões irmãos, eu até o dia de hoje me tenho portado diante de Deus com toda a boa consciência.
2E Ananias, príncipe dos sacerdotes, mandou aos que estavam junto dêle, que o ferissem na cara.[1]ANANIAS — Filho de Zebedeu, constituído sumo pontífice por Herodes, no ano 48, em substituição de Josefa, filho de Caifás. Morreu assassinado no ano 66 ou 67.
3Então lhe disse Paulo: Deus te ferirá a ti, parede branqueada. Tu estás aí sentado para julgar-me a mim segundo a lei, e contra a lei mandas que eu seja ferido?[2]PAREDE BRANQUEADA — Por êstes têrmos argúi S. Paulo a hipocrisia do pontífice, que, debaixo do pretexto de zêlo pela Lei de Moisés, violava a Lei natural. Nem esta repreensão se deve reputar injúria de palavra, mas sim uma pronúncia: Minus intelligentibus convicium donat, intelligentibus vero prophetia est, disse Santo Agostinho no livro 1 do Sermão do Monte, cap. 19. - Sacy e Calmet.
4E os que estavam ali disseram: Tu injuras ao sumo sacerdote de Deus?
5E disse Paulo: Não sabia eu, irmãos, que é príncipe dos sacerdotes. Porque escrito está: Não dirás mal do príncipe do teu povo.[3]NÃO SABIA — Como o Sumo Pontífice assistia sem os ornamentos pontificais, não deve ninguém maravilhar-se de que S. Paulo, que havia vinte e cinco anos não tinha estado em Jerusalém senão alguns dias, e de passagem, não conhecesse por tal a Ananias. - Sacy e Calmet.
6Ora sabendo Paulo que uma parte era de saduceus, e outra de fariseus, disse em alta voz no conselho: Varões irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus, acerca da esperança e da ressurreição dos mortos eu sou julgado.[4]ACERCA DA ESPERANÇA E DA RESSURREIÇÃO — Valem-se os Santos alguma vez de traças humanas e da prudência de serpente, não se opõem ao espírito de Deus, nem à simplicidade evangélica. Ninguém deixa de ver que, declarando-se do partido dos fariseus, e de sentimentos contrários aos saduceus acêrca da vida eterna e ressurreição dos mortos, discorreu S. Paulo que podia conseguir ser absolvido. Primo: Porque com esta lembrança do partido, que seguia, fazia seus os fariseus. Secundo: Porque sendo o ponto da questão em matéria, em que os saduceus lhe eram parte, mostrava que consequentemente não podiam ser seus juízes. Tertio: Porque declarando que a causa tôda versava sôbre pontos especulativos e problemáticos entre os mesmos que o queriam sentenciar, era natural que o tribuno o defendesse. Mas a Providência conduziu a coisa doutro modo que o que se podia esperar, como se vê de todo o contexto da história. - Calmet.
7E quando isto disse, se moveu uma grande dissenção entre os fariseus e os saduceus, e se dividiu a multidão.
8Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito: Ao mesmo tempo que os fariseus reconhecem um e outro.
9Houve pois grande vozeria. E levantando-se alguns dos fariseus, altercavam, dizendo: Não achamos mal algum neste homem; quem sabe, se lhe falou algum espírito ou anjo?
10E como se tivesse originado daqui uma grande dissenção, temendo o tribuno que Paulo fosse por êles despedaçado, mandou que descessem os soldados, e que o tirassem dentre êles, e o levassem à cidadela.
11E na seguinte noite, aparecendo-lhe o Senhor, lhe disse: Tem constância: Porque assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, assim importa que também mo dês em Roma.
12E quando chegou o dia, houve alguns dos judeus que fizeram liga entre si, e apostados se praguejaram dizendo que êles não haviam de comer, nem beber, enquanto não matassem a Paulo.
13E eram passante de quarenta pessoas, as que tinham entrado nesta conjuração.
14As quais se foram apresentar aos príncipes dos sacerdotes, e aos senadores, e disseram: Nós temo-nos obrigado por voto, sob pena de maldição, a não provarmos bocado até não matarmos a Paulo.
15Vós pois agora com o conselho fazei saber ao tribuno que quereis vo-lo produza, como para haverdes de tomar algum conhecimento mais ao certo da sua causa. E nós estaremos prestes para o matar, antes que êle chegue.
16Mas um filho da irmã de Paulo, tendo ouvido esta conspiração, foi, e entrou na cidadela, e deu aviso a Paulo.
17Então Paulo chamando a si um dos centuriões, disse: Leva êste moço ao tribuno, porque tem coisa que lhe comunicar.[5]LEVA ÊSTE MOÇO AO TRIBUNO — Por ser a causa de Deus, não deixa S. Paulo de se valer dos meios humanos que a bondade do Senhor lhe oferecia. A sua confiança em Deus não era presuntuosa, era sim sábia, era prudente. Seria tentar a Deus o desprezar os socorros humanos e esperar milagres para evadir o perigo. S. João Crisóstomo, na Homilia 49, e S. Agostinho no livro 2, contra Petiliano, capítulo 97.
18E nesta conformidade tomando-o êle consigo, o levou ao tribuno, e disse: O prêso Paulo me rogou que trouxesse eu à tua presença êste moço, que tem coisa que dizer-te.
19E o tribuno tomando-o pela mão, o tirou à parte, e lhe perguntou: Que é o que tens que me dizer?
20E êle disse: Os judeus têm concertado rogar-te que amanhã apresentes Paulo ao conselho, como para haverem de inquirir dele alguma coisa mais ao certo:
21Mas tu não os creias; porque há mais de quarenta deles que lhe armam traição, os quais têm jurado, sob pena de maldição, que não comerão, nem beberão, enquanto o não matarem: E para isto estão já prestes, esperando que tu faças o que êles desejam.
22Então o tribuno despediu o moço, mandando-lhe que a ninguém dissesse que lhe havia dado aviso disto.
23E chamando a dois centuriões, lhes disse: Tende prontos duzentos soldados, que vão até Cesaréia, e setenta a cavalo, e duzentas lanças, desde a hora terceira da noite:[6]E DUZENTAS LANÇAS — As versões francesas dizem aqui duzentos arqueiros que em Portugal seriam duzentos alabardeiros, porque o texto grego parece significar guardas do corpo dum príncipe. Eu com Martini cingi-me aos têrmos da Vulgata.
24E aparelhai cavalgaduras, para que fazendo êles montar a Paulo o chegassem a levar com segurança ao presidente Félix,[7]AO PRESIDENTE FÉLIX — Escravo fôrro que tinha sido do imperador Cláudio e de sua mulher Antônia, por cujo respeito se chamou Cláudio Antônio Félix. Dêle escreve Tácito no livro 5 da sua história: Que governara com autoridade de rei e com insolência de escravo, sem nenhum temor, nem vergonha. Felix per omnem saevitiam, et libidinem jus regium servili ingenio exercuit. E no livro 2 dos anais acrescenta que, como era irmão de outro Liberto Palante, valido de Cláudio, creu Félix que podia fazer na Judéia tudo quanto quisesse: Judaeae impositus, et cuncta male facta sibi impune ratus tanta potestate subnixus.
25(porque temeu não se desse caso que os judeus o arrebatassem, e o matassem, e depois disto fosse êle acusado como quem havia de receber dinheiro por lho entregar).
26Escrevendo uma carta nêstes têrmos: CLÁUDIO Lísias ao ótimo presidente Félix, saude.
27A êste homem, que foi prêso pelos judeus, e que estava a ponto de ser por êles morto, sobrevindo eu com a tropa o livrei tendo sabido já que é romano.
28E querendo saber o delito de que o acusavam, o levei ao conselho deles.
29Achei que êle era acusado sôbre questões da lei dos mesmos, sem haver nêle delito algum que merecesse morte, ou prisão.
30E como tivesse chegado a mim notícia das traições que êles judeus lhe tinham aparelhado, to remeti, intimando também aos acusadores que recorram a ti. Adeus.[8]QUE RECORRAM A TI — No caso que queiram continuar na sua acusação contra Paulo. - Menóchio.
31Os soldados pois, conforme a ordem que tinham, tomando a Paulo, o levaram de noite a Antipátride.[9]A ANTIPÁTRIDE — Cidade marítima da Palestina, que fez edificar Herodes, o Grande, em honra de Antipatro, seu pai, e distante de Jerusalém doze léguas, com pouca diferença. - Pereira.
32E ao dia seguinte deixando aos de cavalo que fossem com êle, voltaram para a guarnição.
33Os quais, tendo chegado a Cesaréia, e depois de entregarem ao presidente a carta que levavam, apresentaram diante dêle também a Paulo.
34Êle, porém, depois de a ler, e perguntar de que província era, e sabendo que era de Cilícia,
35ouvi-r-te-ei, lhe disse, quando chegarem os teus acusadores. E mandou que Paulo fosse pôsto em custódia no pretório de Herodes.