Capítulo 19
1E aconteceu que, estando Apolo em Corinto, Paulo, depois de haver atravessado as altas províncias da Ásia, veio a Éfeso e achou alguns Discípulos:[1]As Altas Províncias da Ásia — Isto é, a Galácia e a Frígia. - Pereira.
2E lhes disse: Vós recebestes já o Espírito Santo quando abraçastes a Fé? E êles lhe responderam: Antes nós nem sequer temos ainda ouvido se há Espírito Santo.[2]Vós Recebestes Já o Espírito Santo — S. Paulo, vendo que êstes homens faziam profissão do Cristianismo, não entrou em dúvida do seu batismo. Mas como a êste se costumava seguir a confirmação, e em Éfeso não havia Apóstolo, nem bispo que a desse, (porque só Apóstolos, ou bispos a davam) somente se informa, se tinham já recebido êste sacramento. E o significar o Apóstolo o Sacramento da Confirmação pelo nome do Espírito Santo, foi porque nos primeiros tempos da Igreja era a recepção dêle ordinàriamente seguida de graças sobrenaturais, que serviam como de penhores e símbolos da presença interior do Divino Espírito.
3E êle lhes disse: Em que batismo logo fostes vós batizados? Êles disseram: No batismo de João.
4Então disse Paulo: João batizou ao povo com batismo de penitência, dizendo: Que crêssem naquele que havia de vir depois dêle, isto é, em Jesus:
5Ouvindo isto, foram batizados em nome do Senhor Jesus.
6E havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sôbre êles o Espírito Santo e falavam em diversas línguas e profetizavam.
7E eram por todos algumas doze pessoas.
8Tendo pois entrado dentro da Sinagoga, falou com liberdade por espaço de três meses, disputando e persuadindo-os acerca do reino de Deus.
9Mas como alguns se endurecssem, e não crêssem, desacreditando o caminho do Senhor diante da multidão, apartando-se dêles, separou os Discípulos, disputando todos os dias na escola de um certo Tirano.
10E isto foi por dois anos, de tal maneira que todos os que moravam na Ásia, ouviram a palavra do Senhor, judeus, e gentios.
11E Deus fazia milagres, não quaisquer, por mão de Paulo:
12Chegando êstes a tal extremo, que até sendo aplicados aos enfermos os lenços e aventais, que tinham tocado no corpo de Paulo, não só fugiam dêles as doenças, mas também os espíritos malignos se retiravam.[3]Os Lenços e Aventais — Lenços, ou de atar a cabeça, ou de limpar o rosto. Aventais, dos que usam os artífices nas suas oficinas para resguardo.
13Ora também alguns dos exorcistas judeus que andavam de terra em terra, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sôbre os que se achavam possessos dos malignos espíritos, dizendo: Eu vos conjuro por Jesus, a quem Paulo prega.
14E os que faziam isto eram uns sete filhos de certo judeu, príncipe dos sacerdotes, chamado Sceva.[4]Sceva — Era príncipe dos sacerdotes, naturalmente chefe das vinte e quatro famílias sacerdotais.
15Mas o espírito maligno respondendo, lhes disse: Eu conheço a Jesus e sei quem é Paulo: Mas vós quem sois?
16E o homem, no qual estava um espírito malignísimo, saltando sôbre êles e apoderando-se de ambos, prevaleceu contra êles, de tal maneira que nus, e feridos, fugiram daquela casa.
17E êste caso se fêz notório a todos os judeus e gentios que habitavam em Éfeso, e caiu sôbre todos êles grande temor, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido.
18E muitos dos que haviam crido vinham confessando e denunciando as suas obras.
19Muitos também daqueles que tinham seguido as artes vãs, trouxeram juntos os seus livros e os queimaram diante de todos e, calculando o seu valor, acharam que montava a cinqüenta mil dinheiros.[5]Que Tinham Seguido as Artes Vãs — Entende-se a arte mágica, e as outras que confinam com ela, como a astrologia Judiciária, e a Genetlíaca, condenada pelos nossos Santos Padres no primeiro Concílio de Toledo e no primeiro de Braga, e depois por Santo Isidoro de Sevilha nas suas Origens. Era tanta a voga da mágica, que às fórmulas mágicas usadas no Oriente, e que consideravam Amuletos, chamavam Cartas Efésias.
20Dêste modo crescia muito, e tomava novas fôrças a palavra de Deus.
21E concluídas estas coisas, propôs Paulo, por instinto do Espírito Santo, ir a Jerusalém depois de atravessar a Macedônia e a Acaia, dizendo: Porque depois que eu estiver ali, é necessário que também eu veja Roma.
22E enviando a Macedônia dois dos que lhe ministravam, Timóteo, e Erasto, ainda êle mesmo se demorou algum tempo na Ásia.[6]Erasto — Provavelmente é o mesmo a que se refere a segunda Epístola a Timóteo.
23Mas neste tempo se excitou um não muito pequeno tumulto a respeito do caminho do Senhor.
24Porque um ourives da prata, por nome Demétrio, que fazia de prata uns nichos de Diana, dava não pouco que ganhar aos artífices.[7]Que Fazia de Prata uns Nichos de Diana — Que representavam em pequeno o Templo e a Deusa. Êste Templo de Éfeso era uma das sete maravilhas do mundo, em cuja fábrica se gastaram duzentos e vinte anos, correndo tôdas as despesas por conta da Asia Menor. Os principais arquitetos foram Teodoro e Quenifron. Tinha de comprido quatrocentos e vinte e cinco pés, e de largo duzentos e vinte. Dentro deste âmbito havia duas ordens de colunas de 60 pés, que tôdas juntas faziam o número de cento e vinte sete, dada cada uma por seu rei, e trinta e seis delas obra de alto relêvo, com figuras excelentes. O que era de madeira, tudo era de cedro. E estava todo o Templo ornado de riquíssimos donativos e de primorosas estátuas. Tôda esta relação devemos a Vitório, no Livro 3, Cap. 10. A Diana de Éfeso diferia da Grega.
25Aos quais convocando êle e a outros, que trabalhavam em semelhantes obras, disse: Varões, vós sabeis que o nosso ganho nos resulta dêste artifício:
26E estais vendo e ouvindo, que não só em Éfeso, mas em quase tôda a Ásia, êste Paulo com as suas persuasões aparta do nosso culto muitas gentes, dizendo: Que não são deuses os que são feitos por mãos de homens.
27Pelo que não sòmente correrá perigo de que esta nossa profissão venha a ficar em descrédito, senão que também o Templo da grande Diana será tido em nada e até começará a cair por terra a majestade daquela a quem tôda a Ásia e o mundo adora.
28Ouvindo isto, se encheram de ira e levantaram um grito, dizendo: Viva a grande Diana dos efésios.
29E se encheu tôda a cidade de confusão e todos à uma arremeteram ao teatro, arrebatando a Gaio e a Aristarco, macedônios, companheiros de Paulo.
30E querendo Paulo apresentar-se ao povo, os Discípulos o não deixaram.
31E alguns até dos principais da Ásia, que eram seus amigos, lhe enviaram a rogar que não se apresentasse no teatro:
32E outros levantavam outro grito. Porquanto aquela concorrência de povo estava ali confusa: E os mais dêles não sabiam o porquê se haviam ajuntado.
33E tiraram a Alexandre dentre aquela turba, levando-o a empurrões os judeus. E Alexandre, pedindo silêncio com a mão, queria dar satisfação ao povo.
34Quando conheceram que êle era judeu, todos a uma voz gritaram pelo espaço de quase duas horas: Viva a grande Diana dos efésios.
35Então o escrivão, tendo apaziguado a gente, disse: Varões de Éfeso, quem há pois dentre todos os homens que não saiba que a cidade de Éfeso é honradora da grande Diana e filha de Júpiter?[8]O Escrivão — Era um funcionário público encarregado da redação e guarda dos atos administrativos.
36E porquanto isto se não pode contradizer, convém que vos sossegueis e que nada façais inconsideradamente.
37Porque êstes homens, que vós fizestes vir aqui, nem são sacrílegos, nem são blasfemadores da vossa deusa.
38Mas se Demétrio e os oficiais que estão com êle têm alguma queixa contra algum, audiências públicas se dão, e procônsules há; acusem-se uns a outros.
39E se pretendeis alguma coisa sôbre outros negócios: Em legítimo ajuntamento se poderá despachar.
40Porque até corremos risco de sermos arguidos pela sedição de hoje, não havendo nenhuma causa (de que possamos dar razão) dêste concurso.
41E havendo dito isto, despediu o congresso.