Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Prega João o batismo de penitência. Batiza-se Jesus, e retira-se ao deserto. É tentado do demônio. Prega o Evangelho em Galiléia. Chama a Pedro, André, Tiago e João. Vai a Cafarnaum, onde cura de uma febre a sogra de Pedro. Cura também um possesso e um leproso. De tôdas as partes o vem buscar o povo.

1Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.

2Conforme está escrito no profeta Isaías: Eis aí envio o meu anjo ante a tua face, o qual irá adiante de ti preparar-te o caminho.

3Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.

4Estava João batizando no deserto, e pregando o batismo de penitência, para remissão de pecados.[1]Pregando o batismoJoão iniciou a sua pregação no ano 27 da Era Cristã, que era um ano sabático, durante o qual estava suspensa a vida agrícola; não se trabalhava nem se semeava a terra; os animais e os homens, tudo repousava. As sinagogas eram muito frequentadas; os fiéis aglomeravam-se juntos às cadeiras dos doutores. Contudo o Batista conserva-se anacoreta, foge dos centros, escolhe o deserto para aí pregar. Is 11, 3; Mat 3, 3. S. João percorreu-o do norte ao sul, do poente ao oriente, ia, vagueando pelos caminhos, desde o Engadi e das margens do mar morto ao Dayebeh; desde a gruta de Ain-Karim até ao Jordão. Esperava os que passavam nas caravanas e dirigia-lhes a sua palavra, firme como as suas convicções, austera como a sua vida, e emocionante como a verdade que anunciava; a aproximação do reino de Deus.

5E saía concorrendo a êle tôda a terra de Judéia, e todos os de Jerusalém, e eram batizados por êle no rio Jordão, confessando os seus pecados.

6E João andava vestido de peles de camelo, e trazia uma cinta de couro à roda de seus lombos, e comia gafanhotos, e mel silvestre. E pregava dizendo:

7Após de mim vem outro mais forte do que eu: Ante o qual não sou digno de me prostrar para lhe desatar a correia dos sapatos.

8Eu tenho-vos batizado em água, porém êle batizar-vos-á no Espírito Santo.

9E aconteceu isto: Naqueles dias veio Jesus de Nazaré, cidade de Galiléia: E foi batizado por João no Jordão.

10E logo que saiu da água, viu Jesus os Céus abertos, e que o Espírito Santo descia, e pousava sôbre êle em figura de pomba.

11E ouviu-se dos Céus esta voz: Tu és aquêle meu Filho singularmente amado, em ti tenho pôsto tôda a minha complacência.[2]Ouviu-se dos Céus esta vozÊste ato inaugura a vida pública de Jesus, revela a sua natureza, a sua missão divina, o seu destino e a fôrça que o há de conduzir. Jesus deixou de ser o humilde carpinteiro da Galiléia, o véu que o ocultava à multidão despedaça-se; aparece como é, o Cristo, o Filho de Deus. Vinha salvar o mundo perdido pelo orgulho, uma sociedade dementada pela vaidade; o seu primeiro ato solene é sujeitar-se à lei da penitência e do sacrifício, do qual o batismo de João era o símbolo, depois o deserto.

12E logo o Espírito o lançou para o deserto.[3]O desertoQual era êste deserto? Os documentos evangélicos não o determinam expressamente. E entretanto certo que a palavra grega eremos empregada pelos Evangelistas com o artigo no singular e sem epíteto só pode convir no deserto de Judá. A mais antiga tradição procurou os vestígios de Jesus na região montanhosa e inculta que se estende para oeste de Jericó até às alturas da Betânia, limitada ao sul pelo Suady el Kelt, ao norte pelo Ouady Neuahimeh. Jesus deixando o Jordão devia atravessar a planície de Jericó, e, deixando a cidade para a esquerda, internar-se nos desfiladeiros, ainda hoje chamados de Quarentena. É um bloco imenso de calcáreo encarniçado que parece ter sido calcinado por um incêndio. No mais elevado cume vê-se uma gruta que os fiéis veneram, como se tivesse sido nela que Jesus se abrigasse durante a sua estada no deserto, à qual se chega por um caminho aberto na rocha. É incomparável de majestade o vasto horizonte que daí se descortina. A este, para lá da planície do Jordão, o monte Nebo e os planaltos da Peréia; ao norte o Hermon, coroado de neves douradas fendendo as nuvens, por onde se perdem ao sul, o Mar Morto, brilhante como um disco de prata; ao poente a terra deserta da Judéia, onde as chuvas fazem brotar esquisitas e formosas plantas. Por isso diz o padre Didon: C'est tout à la fois le desert et la montagne; deux grandeurs réunies, pleines d'austérité et de majesté — Jesus Cristo, t. 1 pag. 156.

13E esteve no deserto quarenta dias e quarenta noites: E ali foi tentado por satanás: e habitava com as feras, e os anjos o serviam.[4]Esteve no desertoPara mostrar que a solidão devia ter sempre para os religiosos um atrativo irresistível. Além disto Jesus Cristo quis sujeitar-se a êsse total recolhimento que, na vida dos homens de ação, precede a execução da sua obra. Porque a verdade é esta: a solidão aproxima a alma de Deus, depura o coração, fortalece o espírito, alenta os tíbios, e anima os fortes. Moisés retirou-se ao solitário Horeb, para procurar Deus. Êx 3, 1. Elias pediu ao deserto um asilo contra o mundo, 2 Rs 19; no deserto se engrandeceu o Batista; Paulo isolou-se nas planícies desabitadas da Arábia para meditar e tornar a ouvir o som daquela inigualável voz que retinira aos seus ouvidos na estrada de Damasco, e os discípulos do Crucificado, fugindo da corrupção do mundo, absorvidos na contemplação, sequiosos da vida eterna, caíram um dia nas concavidades dum rochedo, pedindo à Tebaida a paz que o mundo lhes não oferecia. De resto sabe-se que Cakya-Muni procurou a solidão. Rayga, 364, Cfr. Rudolph Seytel Das Evangel. von Jesus, Zoroastro viveu muito tempo na solidão duma montanha, Maomé fugiu para o monte Hisa, perto de Meca, etc.

14Mas depois que João foi entregue à prisão, veio Jesus para Galiléia, pregando o Evangelho do reino de Deus,

15e dizendo: Pois que o tempo está cumprido, e se aproximou o reino de Deus: Fazei penitência, e crêde no Evangelho.

16E passando ao longo do mar de Galiléia, viu a Simão, e a André seu irmão, que lançavam suas redes ao mar (porque eram pescadores).

17E disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.

18E no mesmo ponto, deixadas as redes, o seguiram.

19E dali tendo passado um pouco mais adiante, viu a Tiago, filho de Zebedeu, e a João seu irmão, que também numa barca estavam consertando as redes:

20E chamou-os logo. E êles, tendo deixado na barca a seu pai Zebedeu com os jornaleiros, foram-no seguindo.

21Entraram depois em Cafarnaum: E Jesus vindo logo nos dias de sábado para a sinagoga, ensinava o povo.

22E os que ouviam a sua doutrina, estavam pasmados: Porque êle os ensinava, como quem tinha autoridade, e não como os escribas.

23Ora na sinagoga deles achava-se um homem possesso do espírito imundo, que gritou,

24dizendo: Que tens tu conosco, Jesus Nazareno? Vieste a perder-nos? bem sei quem és, que és o Santo Deus.

25Mas Jesus o ameaçou, dizendo: Cala-te e sai dêsse homem.

26Então o espírito imundo agitando-o com violentas convulsões, e dando um grande grito, saiu dêle.

27E ficaram todos tão espantados, que uns a outros se perguntavam, dizendo: Que é isto? que nova doutrina é esta? porque êle põe preceito com império até aos espíritos imundos, e obedecem-lhe.

28E correu logo sua fama por tôda a terra de Galiléia.

29E êles saindo logo da sinagoga, foram à casa de Simão, e de André, juntamente com Tiago, e João.

30E a sogra de Simão estava de cama com febre: E lhe falaram logo a respeito dela.

31E chegando-se Jesus ao pé dela, depois de a tomar pela mão, a fez levantar: E imediatamente a deixou a febre, e ela se pôs a serví-los.

32E de tarde, sendo já sol pôsto, trouxeram-lhe todos os enfermos e possessos:

33E tôda a cidade se tinha ajuntado à porta.

34E curou a muitos, que se achavam oprimidos de diversas doenças, e expeliu muitos demônios, aos quais não permitia que dissessem que o conheciam.

35E levantando-se muito de madrugada, saiu, e foi a um lugar deserto, e fazia ali oração.

36E foram-no seguindo Simão, e os que com êle estavam.

37E depois de darem com êle disseram-lhe: Todos andam em busca de ti.

38E respondeu-lhe Jesus: Vamos para as aldeias, e cidades circunvizinhas, porque também quero lá pregar, que a isso é que vim.

39Pregava pois nas suas sinagogas, e em tôda a Galiléia, e expelia os demônios.

40E veio a êle um leproso, fazendo-lhe suas rogativas. E pondo-se de joelhos, lhe disse: Se queres, podes limpar-me.

41E Jesus, compadecido dêle, estendeu a sua mão: E tocando-lhe, disse-lhe: Quero: Sê limpo.

42E tendo dito estas palavras, em um momento desapareceu dele a lepra, e ficou limpo:

43E Jesus o ameaçou, e logo o fez retirar:

44E lhe disse: Guarda-te, não o contes a alguém: Mas vai, mostra-te ao príncipe dos sacerdotes, e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho.[5]Para lhes servir de testemunhoTanto do respeito que eu guardo à lei, Lev 14, 4, como da minha Onipotência.

45Porém o homem tanto que saiu, começou a contar, e a publicar o sucedido, de sorte que Jesus não podia já entrar descobertamente numa cidade, mas ficava fora nos lugares desertos, e de tôdas as partes vinham ter com êle.

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Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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