Capítulo 1
1Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.
2Conforme está escrito no profeta Isaías: Eis aí envio o meu anjo ante a tua face, o qual irá adiante de ti preparar-te o caminho.
3Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.
4Estava João batizando no deserto, e pregando o batismo de penitência, para remissão de pecados.[1]Pregando o batismo — João iniciou a sua pregação no ano 27 da Era Cristã, que era um ano sabático, durante o qual estava suspensa a vida agrícola; não se trabalhava nem se semeava a terra; os animais e os homens, tudo repousava. As sinagogas eram muito frequentadas; os fiéis aglomeravam-se juntos às cadeiras dos doutores. Contudo o Batista conserva-se anacoreta, foge dos centros, escolhe o deserto para aí pregar. Is 11, 3; Mat 3, 3. S. João percorreu-o do norte ao sul, do poente ao oriente, ia, vagueando pelos caminhos, desde o Engadi e das margens do mar morto ao Dayebeh; desde a gruta de Ain-Karim até ao Jordão. Esperava os que passavam nas caravanas e dirigia-lhes a sua palavra, firme como as suas convicções, austera como a sua vida, e emocionante como a verdade que anunciava; a aproximação do reino de Deus.
5E saía concorrendo a êle tôda a terra de Judéia, e todos os de Jerusalém, e eram batizados por êle no rio Jordão, confessando os seus pecados.
6E João andava vestido de peles de camelo, e trazia uma cinta de couro à roda de seus lombos, e comia gafanhotos, e mel silvestre. E pregava dizendo:
7Após de mim vem outro mais forte do que eu: Ante o qual não sou digno de me prostrar para lhe desatar a correia dos sapatos.
8Eu tenho-vos batizado em água, porém êle batizar-vos-á no Espírito Santo.
9E aconteceu isto: Naqueles dias veio Jesus de Nazaré, cidade de Galiléia: E foi batizado por João no Jordão.
10E logo que saiu da água, viu Jesus os Céus abertos, e que o Espírito Santo descia, e pousava sôbre êle em figura de pomba.
11E ouviu-se dos Céus esta voz: Tu és aquêle meu Filho singularmente amado, em ti tenho pôsto tôda a minha complacência.[2]Ouviu-se dos Céus esta voz — Êste ato inaugura a vida pública de Jesus, revela a sua natureza, a sua missão divina, o seu destino e a fôrça que o há de conduzir. Jesus deixou de ser o humilde carpinteiro da Galiléia, o véu que o ocultava à multidão despedaça-se; aparece como é, o Cristo, o Filho de Deus. Vinha salvar o mundo perdido pelo orgulho, uma sociedade dementada pela vaidade; o seu primeiro ato solene é sujeitar-se à lei da penitência e do sacrifício, do qual o batismo de João era o símbolo, depois o deserto.
12E logo o Espírito o lançou para o deserto.[3]O deserto — Qual era êste deserto? Os documentos evangélicos não o determinam expressamente. E entretanto certo que a palavra grega eremos empregada pelos Evangelistas com o artigo no singular e sem epíteto só pode convir no deserto de Judá. A mais antiga tradição procurou os vestígios de Jesus na região montanhosa e inculta que se estende para oeste de Jericó até às alturas da Betânia, limitada ao sul pelo Suady el Kelt, ao norte pelo Ouady Neuahimeh. Jesus deixando o Jordão devia atravessar a planície de Jericó, e, deixando a cidade para a esquerda, internar-se nos desfiladeiros, ainda hoje chamados de Quarentena. É um bloco imenso de calcáreo encarniçado que parece ter sido calcinado por um incêndio. No mais elevado cume vê-se uma gruta que os fiéis veneram, como se tivesse sido nela que Jesus se abrigasse durante a sua estada no deserto, à qual se chega por um caminho aberto na rocha. É incomparável de majestade o vasto horizonte que daí se descortina. A este, para lá da planície do Jordão, o monte Nebo e os planaltos da Peréia; ao norte o Hermon, coroado de neves douradas fendendo as nuvens, por onde se perdem ao sul, o Mar Morto, brilhante como um disco de prata; ao poente a terra deserta da Judéia, onde as chuvas fazem brotar esquisitas e formosas plantas. Por isso diz o padre Didon: C'est tout à la fois le desert et la montagne; deux grandeurs réunies, pleines d'austérité et de majesté — Jesus Cristo, t. 1 pag. 156.
13E esteve no deserto quarenta dias e quarenta noites: E ali foi tentado por satanás: e habitava com as feras, e os anjos o serviam.[4]Esteve no deserto — Para mostrar que a solidão devia ter sempre para os religiosos um atrativo irresistível. Além disto Jesus Cristo quis sujeitar-se a êsse total recolhimento que, na vida dos homens de ação, precede a execução da sua obra. Porque a verdade é esta: a solidão aproxima a alma de Deus, depura o coração, fortalece o espírito, alenta os tíbios, e anima os fortes. Moisés retirou-se ao solitário Horeb, para procurar Deus. Êx 3, 1. Elias pediu ao deserto um asilo contra o mundo, 2 Rs 19; no deserto se engrandeceu o Batista; Paulo isolou-se nas planícies desabitadas da Arábia para meditar e tornar a ouvir o som daquela inigualável voz que retinira aos seus ouvidos na estrada de Damasco, e os discípulos do Crucificado, fugindo da corrupção do mundo, absorvidos na contemplação, sequiosos da vida eterna, caíram um dia nas concavidades dum rochedo, pedindo à Tebaida a paz que o mundo lhes não oferecia. De resto sabe-se que Cakya-Muni procurou a solidão. Rayga, 364, Cfr. Rudolph Seytel Das Evangel. von Jesus, Zoroastro viveu muito tempo na solidão duma montanha, Maomé fugiu para o monte Hisa, perto de Meca, etc.
14Mas depois que João foi entregue à prisão, veio Jesus para Galiléia, pregando o Evangelho do reino de Deus,
15e dizendo: Pois que o tempo está cumprido, e se aproximou o reino de Deus: Fazei penitência, e crêde no Evangelho.
16E passando ao longo do mar de Galiléia, viu a Simão, e a André seu irmão, que lançavam suas redes ao mar (porque eram pescadores).
17E disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.
18E no mesmo ponto, deixadas as redes, o seguiram.
19E dali tendo passado um pouco mais adiante, viu a Tiago, filho de Zebedeu, e a João seu irmão, que também numa barca estavam consertando as redes:
20E chamou-os logo. E êles, tendo deixado na barca a seu pai Zebedeu com os jornaleiros, foram-no seguindo.
21Entraram depois em Cafarnaum: E Jesus vindo logo nos dias de sábado para a sinagoga, ensinava o povo.
22E os que ouviam a sua doutrina, estavam pasmados: Porque êle os ensinava, como quem tinha autoridade, e não como os escribas.
23Ora na sinagoga deles achava-se um homem possesso do espírito imundo, que gritou,
24dizendo: Que tens tu conosco, Jesus Nazareno? Vieste a perder-nos? bem sei quem és, que és o Santo Deus.
25Mas Jesus o ameaçou, dizendo: Cala-te e sai dêsse homem.
26Então o espírito imundo agitando-o com violentas convulsões, e dando um grande grito, saiu dêle.
27E ficaram todos tão espantados, que uns a outros se perguntavam, dizendo: Que é isto? que nova doutrina é esta? porque êle põe preceito com império até aos espíritos imundos, e obedecem-lhe.
28E correu logo sua fama por tôda a terra de Galiléia.
29E êles saindo logo da sinagoga, foram à casa de Simão, e de André, juntamente com Tiago, e João.
30E a sogra de Simão estava de cama com febre: E lhe falaram logo a respeito dela.
31E chegando-se Jesus ao pé dela, depois de a tomar pela mão, a fez levantar: E imediatamente a deixou a febre, e ela se pôs a serví-los.
32E de tarde, sendo já sol pôsto, trouxeram-lhe todos os enfermos e possessos:
33E tôda a cidade se tinha ajuntado à porta.
34E curou a muitos, que se achavam oprimidos de diversas doenças, e expeliu muitos demônios, aos quais não permitia que dissessem que o conheciam.
35E levantando-se muito de madrugada, saiu, e foi a um lugar deserto, e fazia ali oração.
36E foram-no seguindo Simão, e os que com êle estavam.
37E depois de darem com êle disseram-lhe: Todos andam em busca de ti.
38E respondeu-lhe Jesus: Vamos para as aldeias, e cidades circunvizinhas, porque também quero lá pregar, que a isso é que vim.
39Pregava pois nas suas sinagogas, e em tôda a Galiléia, e expelia os demônios.
40E veio a êle um leproso, fazendo-lhe suas rogativas. E pondo-se de joelhos, lhe disse: Se queres, podes limpar-me.
41E Jesus, compadecido dêle, estendeu a sua mão: E tocando-lhe, disse-lhe: Quero: Sê limpo.
42E tendo dito estas palavras, em um momento desapareceu dele a lepra, e ficou limpo:
43E Jesus o ameaçou, e logo o fez retirar:
44E lhe disse: Guarda-te, não o contes a alguém: Mas vai, mostra-te ao príncipe dos sacerdotes, e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho.[5]Para lhes servir de testemunho — Tanto do respeito que eu guardo à lei, Lev 14, 4, como da minha Onipotência.
45Porém o homem tanto que saiu, começou a contar, e a publicar o sucedido, de sorte que Jesus não podia já entrar descobertamente numa cidade, mas ficava fora nos lugares desertos, e de tôdas as partes vinham ter com êle.