Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

Ajunta-se o supremo conselho contra Jesus. Uma mulher lhe lança sôbre a cabeça uma redoma de cheiros. Traição de Judas, que Jesus descobre. Instituição do Sacramento da Eucaristia. Corta Pedro uma orelha a Malco. Fogem os discípulos. Jesus acusado na presença de Caifás, é condenado à morte e entregue aos ultrajes da família. Pedro o nega três vezes.

1Faltavam pois dois dias para chegar a Páscoa, em que se começava a comer os pães ásmos: E os príncipes dos sacerdotes, e os escribas andavam buscando modo, como prenderiam por traição a Jesus, para o matarem.

2Mas êles diziam: Não convém que isto se faça no dia da festa, por não suceder que no povo se excite algum motim.

3E estando Jesus em Betânia, em casa de Simão o leproso, e sentado à mesa: Chegou uma mulher que trazia uma redoma de alabastro cheia de precioso bálsamo feito de espigas de nardo, e quebrada a redoma, lho derramou sôbre a sua cabeça:

4E alguns dos que estavam presentes indignaram-se lá entre si do que viam e disseram: Para que foi êste desperdício de bálsamo?

5Pois podia êle vender-se por mais de trezentos dinheiros, e dar-se êste produto aos pobres. E murmuravam fortemente contra ela.[1]Por mais de trezentos dinheirosIsto é trinta mil réis da nossa moeda, aproximadamente.

6Mas Jesus lhes disse: Deixai-a; por que a molestais? ela fez-me uma boa obra.

7Porque vós sempre tendes convosco os pobres: Para que quando lhes queirais fazer bem, lho possais fazer: Porém a mim não me tendes sempre.

8Ela fez o que cabia nas suas fôrças: Foi isto embalsamar-me antecipadamente o corpo para a sepultura:

9Em verdade vos digo: Onde quer que fôr pregado êste Evangelho, que será em todo o mundo, será também contado para sua memória, o que esta obrou.

10Então se retirou Judas Iscariotes, que era um dos doze, a buscar os príncipes dos sacerdotes, para lhes entregar a Jesus.

11Êles ouvindo isto se alegraram, e prometeram dar-lhe dinheiro. E buscava Judas ocasião oportuna para o entregar.

12E no primeiro dia em que se comiam os pães ásmos, quando se imolava o Cordeiro Pascal, disseram-lhe seus discípulos: Onde queres tu que nós vamos preparar-te o que é necessário para comeres a Páscoa?

13Enviou êle pois a dois de seus discípulos, e disse-lhes: Ide à cidade, e lá vos sairá ao encontro um homem que levará uma bilha de água; ide atrás dêle:

14E onde quer que êle entrar: Dizei ao dono da casa que o Mestre diz: Onde é o aposento em que eu poderei comer a Páscoa com meus discípulos?

15E êle vos mostrará um cenáculo, todo mobilado, e preparai-nos lá o que é necessário.[2]CenáculoÉ o anágaion, compartimento superior onde se recebiam os hóspedes. Sôbre o lugar do cenáculo edificou-se uma igreja, de que dá testemunho S. Epifânio. Em 1551, a igreja do cenáculo foi convertida em mesquita e passou a ter o nome que ainda hoje conserva — Nebi-Davud. Uma antiga tradição dizia que o cenáculo pertencera a José de Arimatéia. Devia ter dois andares; no superior ficava o local onde Jesus Cristo celebrou a derradeira ceia, e instituiu a Sacrossanta Eucaristia. A êste da última sala está a do cenotáfio de Davi.

16E partiram seus discípulos, e chegaram à cidade, e acharam tudo como êle lhes havia dito, e prepararam a Páscoa.

17E chegada a tarde, foi Jesus com os doze.

18E quando êles estavam à mesa e ceavam, disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo, que um de vós que comigo come, me há de entregar.

19Então se começaram êles a entristecer, e cada um de per si lhe perguntava: Sou eu?

20Respondeu-lhes Jesus: É um dos doze que mete comigo a mão no prato.

21E quanto ao Filho do homem, êle vai segundo o que dêle está escrito: Mas ai daquele homem, por meio do qual será entregue o Filho do homem: Melhor lhe fôra, se êsse homem não houvera nascido.

22E quando êles estavam comendo, tomou Jesus o pão, e depois de o benzer, partiu-o e deu-lho, e disse: Tomai, êste é o meu Corpo.[3]TomaiO grego acrescenta: comei. — Pereira.

23E tendo tomado o cálice, depois que deu graças, lho deu: E todos beberam dêle.

24E Jesus lhes disse: Êste é o meu sangue do Novo Testamento, que será derramado por muitos.[4]Que será derramado por muitosO grego diz: que é derramado. S. Marcos diz aqui, por antecipação, que beberam todos do cálice e lhes disse: Êste é o meu sangue, etc. E assim é necessário ajuntar estas palavras: Êste é o meu sangue, com estas outras: bebei todos dêle, como se lê em Mt 26, 27, 28, em S. Paulo, 1 Cor 11, 25. Com êste sangue se estabeleceu a aliança entre Deus, e o homem, e se declarou a última vontade de Jesus Cristo neste Testamento. Tudo o que aceitaram em nome da Igreja os Apóstolos, que ali estavam. Êste é o Novo Testamento, que se selou depois na Cruz, e se confirmou com a morte do Salvador.

25Em verdade vos digo, que eu não beberei jamais dêste fruto da vide até chegar aquêle dia em que o beba de novo no reino de Deus.

26E depois de cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras.[5]Cantado o hinoAssim os de Moas, Sacy e Huré, seguindo o texto grego. Porque a Vulgata diz simplesmente, dito o hino, tanto em S. Marcos, como em S. Mateus.

27Então lhes disse Jesus: A todos vós serei eu esta noite uma ocasião de escândalo: Pois está escrito: Eu ferirei o pastor, e as ovelhas se porão em desarranjo.

28Mas depois que eu ressurgir, ir-vos-ei esperar em Galiléia.

29Disse-lhe então Pedro: Ainda quando todos se escandalizarem a teu respeito, eu contudo me não hei de escandalizar.

30E Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo, que hoje, nesta mesma noite, antes que o galo cante a segunda vez, me hás de tu negar três vezes.

31Mas Pedro, insistindo no mesmo, acrescentava: Ainda no caso de eu me ver precisado a morrer contigo, não te hei eu de negar. E o mesmo disseram também todos os mais.

32Vieram depois para uma herdade chamada Getsêmane. Então Jesus disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu oro.

33E levou consigo a Pedro, e a Tiago, e a João: E começou a ter pavor, e angustiar-se em extremo.

34Então lhes disse: A minha alma se acha numa tristeza mortal: Detende-vos aqui, e vigiai.

35E tendo-se adiantado alguns passos, prostrou-se em terra: E orava que, se era possível, passasse dêle aquela hora:[6]Aquela horaEm que havia de padecer. No verso seguinte lhe chama cálice.

36E disse: Abba, Pai, tôdas as coisas te são possíveis; traspassa de mim êste cálice, porém não se faça o que eu quero senão o que tu queres.[7]Abba, PaiEm hebreu e em aramaico abba quer dizer pai; palavra terna, e carinhosa, com que os filhos pequeninos chamavam a seus pais, e que ao depois se usou nas orações que se dirigiam a Deus cheias de afeto, Rom 8, 15; Gal 4, 6.

37Depois veio, e achou-os dormindo. Então disse a Pedro: Simão, dormes? não pudeste vigiar uma hora?

38Vigiai, e orai, para que não entreis em tentação. O espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca.

39E foi outra vez a orar, dizendo as mesmas palavras.

40E tornando a vir, achou-os outra vez dormindo, (porque tinham carregados os olhos) e não sabiam que lhe respondessem.

41E veio terceira vez, e disse-lhes: Dormi agora, e descansai. Basta: É chegada a hora: Eis aqui vai o Filho do homem a ser entregue em mãos de pecadores.

42Levantai-vos, vamos: Eis aí vem chegando quem me há de entregar.

43Ainda bem Jesus não tinha acabado de falar, quando chega Judas Iscariotes, um dos doze, e com êle uma grande tropa de gente armada de espadas e de varapaus, da parte dos príncipes dos sacerdotes, e dos escribas, e dos anciãos.

44Ora, o traidor tinha-lhes dado uma senha, dizendo: Àquele a quem eu der um ósculo, êsse é que é, prendei-o e levai-o com cuidado.

45E tanto que chegou, indo logo ter com Jesus, lhe disse: Deus te salve, Mestre: E deu-lhe um ósculo.

46Então êles lhe lançaram as mãos, e o prenderam.

47E um certo dos circunstantes, tirando da espada, feriu a um servo do sumo sacerdote, e lhe cortou uma orelha.

48E respondendo Jesus lhes disse: Como se eu fôra algum ladrão viestes com espadas, e varapaus a prender-me?

49Todos os dias estava eu convosco ensinando no Templo e não me prendestes. Mas isto acontece para que se cumpram as Escrituras.

50Então desamparando-o os seus discípulos, fugiram todos.

51Ia-o, porém, seguindo um mancebo, coberto com um lençol sôbre o corpo nu: E o prenderam.[8]Um manceboO grego tem adolescentulus, que denota um moço ainda muito rapaz. Com que se desvanece a opinião de alguns, que cuidaram que êste moço fôra um dos dois irmãos, Tiago, ou João. O mais verossímil é que era algum dos que ali moravam perto, e que ouvindo o rebolico de tanta gente armada, se levantou da cama coberto somente de um lençol: e como também o quiseram prender, o que mostra bem qual era o furor com que vinham os judeus, largou o lençol para fugir. Alguns querem que fôsse o próprio S. Marcos. — Glaire.

52Mas êle, largando o lençol, lhes escapou nu.

53E levaram Jesus à casa do sumo sacerdote. E se ajuntaram todos os sacerdotes, e os escribas, e os anciãos.

54Mas Pedro o foi seguindo de longe até dentro do pátio do sumo sacerdote: E estava assentado ao fogo com os oficiais, e ali se aquentava.

55E os príncipes dos sacerdotes, e todo o conselho buscavam algum testemunho contra Jesus, para o fazerem morrer, e não o achavam.

56Porque muitos, sim, depunham falsamente contra êle: Mas não concordavam os seus depoimentos.

57E levantando-se uns, atestavam falsamente contra êle, dizendo:

58Nós outros lhe ouvimos dizer: Eu destruirei êste templo, obra de mãos, e em três dias edificarei outro, que não será obra de mãos.

59Mas esta sua mesma deposição não era coerente.

60Então levantando-se no meio do conselho o sumo sacerdote, perguntou a Jesus, dizendo: Não respondes alguma coisa ao que estes atestam contra ti?

61Mas êle estava em silêncio, e nada respondeu. Tornou a perguntar-lhe o sumo sacerdote, e lhe disse: És tu o Cristo, Filho de Deus bendito?

62E Jesus lhe disse: Eu o sou: E vós vereis o Filho do homem assentado à destra do poder de Deus, e vir sôbre as nuvens do Céu.

63Então o sumo sacerdote, rasgando as suas vestiduras, disse: Para que desejamos nós ainda mais testemunhas?

64Vós acabais de ouvir a blasfêmia: Que vos parece? A sentença que todos êles deram foi que era réu de morte.

65Então começaram alguns a cuspir nêle, e a tapar-lhe o rosto, e a dar-lhe punhadas, e a dizer-lhe: Adivinha: E os oficiais lhe davam bofetadas.

66E estando Pedro em baixo no páteo, chegou uma das criadas do sumo sacerdote:

67E quando viu a Pedro, que se aquentava, encarando nêle, disse-lhe: Tu também estavas com Jesus Nazareno.

68Mas êle o negou, dizendo: Nem o conheço, nem sei o que dizes. E saiu fora onde era a entrada do páteo, e neste tempo cantou o galo.

69E tendo-o visto outra vez a criada, começou a dizer aos que estavam presentes: Êste é lá daqueles.

70Mas êle o negou segunda vez. E pouco depois ainda os que ali estavam, diziam a Pedro: Verdadeiramente tu és daqueles; porque és também galileu.

71E êle começou a praguejar-se, e a jurar: Não conheço êsse homem de quem falais.

72E no mesmo ponto cantou o galo a segunda vez. E então se lembrou Pedro da palavra que Jesus lhe havia dito: Antes que o galo cante duas vezes, me negarás três vezes. E começou a chorar.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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