Capítulo 7
1E vieram ter com Jesus os fariseus, e alguns dos escribas, que eram chegados de Jerusalém.
2E quando viram tomar a refeição a alguns dos seus discípulos com as mãos imundas, isto é, por lavar, os vituperaram por isso.[1]Com as mãos imundas — O latim diz communibus manibus, que tomado à letra, quer dizer, com as mãos comuns. Porque as mãos que andavam expostas aos toques de tôda a sorte, de gente, de judeus e gentios, de bons e maus, tinham os fariseus por mãos imundas enquanto se não purificavam daqueles toques. Porque geralmente chamavam comum, e reputavam imundo, tudo o que servia ao uso comum, como se prova dos At 10, 14, e da Epístola aos Rom 14, 14. — Calmet.
3Porque os fariseus, e todos os judeus em observância da tradição dos antigos, não comem sem lavarem as mãos muitas vezes:
4E quando vêm do mercado, não comem sem se purificarem: E assim observam outros muitos costumes, que lhes ficaram por tradição, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal, e os leitos:
5E lhe perguntaram os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conformes com a tradição dos antigos, mas comem as viandas com as mãos por lavar?
6E êle respondendo, lhes disse: Com muita razão profetou de vós, hipócritas, Isaias, como está escrito: Êste povo honra-me com a bôca, mas o seu coração está longe de mim:
7E em vão me adoram êles, quando ensinam máximas e preceitos dos homens.
8Porque deixando o mandamento de Deus, observais cuidadosamente a tradição dos homens, lavando os jarros e os copos: E fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.
9E dizia-lhes: Vós bem fazeis por invalidar o mandamento de Deus, para guardardes a vossa tradição.[2]Vós bem fazeis por invalidar — Ou melhor, Vós fazeis bem em invalidar, etc. E então é uma ironia.
10Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe. Item: Todo o que tratar mal de palavra a seu pai, ou a sua mãe, morra de morte.[3]Honra a teu pai — Jesus aproveita sempre o ensejo de exaltar o respeito devido pelos filhos aos pais, preceito do direito divino.
11Mas vós outros dizeis: para cumprir com a lei, basta que um homem diga a seu pai, ou a sua mãe: Toda a Corban, (que é toda a oferta) que eu faço a Deus, será em teu proveito.
12E não lhe deixais fazer mais coisa alguma a favor de seu pai, ou de sua mãe.
13Vindo assim a rescindir a palavra de Deus por uma tradição de que vós mesmos fostes os autores: e fazeis ainda muitas mais coisas que se parecem com esta.
14E convocando de novo ao povo, lhes dizia: Ouvi-me todos, e entendei.
15Não há coisa fora do homem que entrando nele o possa manchar, mas as que saem do homem, essas são as que fazem imundo ao homem.
16Se algum há que tenha ouvidos de ouvir, oiça.
17E depois que, deixada a plebe, entrou em casa, perguntaram-lhe seus discípulos qual era o sentido desta parábola.
18E êle lhes disse: Que! também vós sois ignorantes? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem, nada o pode contaminar:
19Porque isso não lhe entra no coração mas vai ter ao ventre, e depois lança-se num lugar escuso, levando consigo tôdas as fezes do alimento?[4]No coração — Porque o coração é considerado como a sede da vida espiritual e afetiva.
20E lhes dizia que as coisas que saem do homem, essas são as que contaminam ao homem.
21Porque do interior do coração dos homens é que saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios:
22Os furtos, as avarezas, as malícias, as fraudes, as desonestidades, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.
23Todos êstes males vêm de dentro, e são os que contaminam ao homem.
24E levantando-se dali, foi Jesus para os confins de Tiro e de Sidônia: E tendo entrado numa casa, quis que ninguém o soubesse, mas não pôde ocultar-se.
25Porque uma mulher, cuja filha estava possessa do espírito imundo, tanto que ouviu que êle lá estava, entrou, e lançou-se-lhe aos pés.
26Era pois uma mulher gentia, de nação siro-fenícia, e rogava-lhe que expelisse de sua filha o demônio.
27Disse-lhe Jesus: Deixa que primeiro sejam fartos os filhos; porque não é bom tomar o pão dos filhos, e lançá-lo aos cães.
28Mas ela respondeu, e disse-lhe: Assim é, Senhor, mas também os cachorrinhos comem debaixo da mesa, das migalhas que caem dos meninos.
29Então lhe disse Jesus: Por esta palavra que disseste, vai, que já o demônio saiu de tua filha.
30E tendo vindo para sua casa, achou que a menina estava deitada sôbre a cama, e que o demônio a deixara.
31E Jesus, tornando a sair do têrmo de Tiro, veio por Sidônia ao mar de Galiléia, passando pelo meio do território de Decápolis.
32E lhe trouxeram um surdo e mudo, e lhe rogavam que pusesse a mão sôbre êle.
33Então Jesus, tirando-o de entre o povo e tomando-o de parte, meteu-lhe os seus dedos nos ouvidos: E cuspindo, pôs-lhe da sua saliva sôbre a língua:
34E levantando os olhos ao Céu, deu um suspiro, e disse-lhe: Éphphetha, que quer dizer, abre-te.
35E no mesmo instante se lhe abriram os ouvidos, e se lhe soltou a prisão da língua, de sorte que entrou a falar expeditamente.
36E mandou-lhes que a ninguém o dissessem. Porém quanto mais Jesus lho defendia, tanto mais êles o publicavam.
37E tanto mais se admiravam, dizendo: Êle tudo tem feito bem: Fez não só que ouvissem os surdos, mas que falassem os mudos.