Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Tradições humanas contra os divinos preceitos. Só o que sai do coração faz imundo o homem. Caso da mulher cananéia. Cura Jesus um homem surdo e mudo.

1E vieram ter com Jesus os fariseus, e alguns dos escribas, que eram chegados de Jerusalém.

2E quando viram tomar a refeição a alguns dos seus discípulos com as mãos imundas, isto é, por lavar, os vituperaram por isso.[1]Com as mãos imundasO latim diz communibus manibus, que tomado à letra, quer dizer, com as mãos comuns. Porque as mãos que andavam expostas aos toques de tôda a sorte, de gente, de judeus e gentios, de bons e maus, tinham os fariseus por mãos imundas enquanto se não purificavam daqueles toques. Porque geralmente chamavam comum, e reputavam imundo, tudo o que servia ao uso comum, como se prova dos At 10, 14, e da Epístola aos Rom 14, 14. — Calmet.

3Porque os fariseus, e todos os judeus em observância da tradição dos antigos, não comem sem lavarem as mãos muitas vezes:

4E quando vêm do mercado, não comem sem se purificarem: E assim observam outros muitos costumes, que lhes ficaram por tradição, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal, e os leitos:

5E lhe perguntaram os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conformes com a tradição dos antigos, mas comem as viandas com as mãos por lavar?

6E êle respondendo, lhes disse: Com muita razão profetou de vós, hipócritas, Isaias, como está escrito: Êste povo honra-me com a bôca, mas o seu coração está longe de mim:

7E em vão me adoram êles, quando ensinam máximas e preceitos dos homens.

8Porque deixando o mandamento de Deus, observais cuidadosamente a tradição dos homens, lavando os jarros e os copos: E fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.

9E dizia-lhes: Vós bem fazeis por invalidar o mandamento de Deus, para guardardes a vossa tradição.[2]Vós bem fazeis por invalidarOu melhor, Vós fazeis bem em invalidar, etc. E então é uma ironia.

10Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe. Item: Todo o que tratar mal de palavra a seu pai, ou a sua mãe, morra de morte.[3]Honra a teu paiJesus aproveita sempre o ensejo de exaltar o respeito devido pelos filhos aos pais, preceito do direito divino.

11Mas vós outros dizeis: para cumprir com a lei, basta que um homem diga a seu pai, ou a sua mãe: Toda a Corban, (que é toda a oferta) que eu faço a Deus, será em teu proveito.

12E não lhe deixais fazer mais coisa alguma a favor de seu pai, ou de sua mãe.

13Vindo assim a rescindir a palavra de Deus por uma tradição de que vós mesmos fostes os autores: e fazeis ainda muitas mais coisas que se parecem com esta.

14E convocando de novo ao povo, lhes dizia: Ouvi-me todos, e entendei.

15Não há coisa fora do homem que entrando nele o possa manchar, mas as que saem do homem, essas são as que fazem imundo ao homem.

16Se algum há que tenha ouvidos de ouvir, oiça.

17E depois que, deixada a plebe, entrou em casa, perguntaram-lhe seus discípulos qual era o sentido desta parábola.

18E êle lhes disse: Que! também vós sois ignorantes? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem, nada o pode contaminar:

19Porque isso não lhe entra no coração mas vai ter ao ventre, e depois lança-se num lugar escuso, levando consigo tôdas as fezes do alimento?[4]No coraçãoPorque o coração é considerado como a sede da vida espiritual e afetiva.

20E lhes dizia que as coisas que saem do homem, essas são as que contaminam ao homem.

21Porque do interior do coração dos homens é que saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios:

22Os furtos, as avarezas, as malícias, as fraudes, as desonestidades, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.

23Todos êstes males vêm de dentro, e são os que contaminam ao homem.

24E levantando-se dali, foi Jesus para os confins de Tiro e de Sidônia: E tendo entrado numa casa, quis que ninguém o soubesse, mas não pôde ocultar-se.

25Porque uma mulher, cuja filha estava possessa do espírito imundo, tanto que ouviu que êle lá estava, entrou, e lançou-se-lhe aos pés.

26Era pois uma mulher gentia, de nação siro-fenícia, e rogava-lhe que expelisse de sua filha o demônio.

27Disse-lhe Jesus: Deixa que primeiro sejam fartos os filhos; porque não é bom tomar o pão dos filhos, e lançá-lo aos cães.

28Mas ela respondeu, e disse-lhe: Assim é, Senhor, mas também os cachorrinhos comem debaixo da mesa, das migalhas que caem dos meninos.

29Então lhe disse Jesus: Por esta palavra que disseste, vai, que já o demônio saiu de tua filha.

30E tendo vindo para sua casa, achou que a menina estava deitada sôbre a cama, e que o demônio a deixara.

31E Jesus, tornando a sair do têrmo de Tiro, veio por Sidônia ao mar de Galiléia, passando pelo meio do território de Decápolis.

32E lhe trouxeram um surdo e mudo, e lhe rogavam que pusesse a mão sôbre êle.

33Então Jesus, tirando-o de entre o povo e tomando-o de parte, meteu-lhe os seus dedos nos ouvidos: E cuspindo, pôs-lhe da sua saliva sôbre a língua:

34E levantando os olhos ao Céu, deu um suspiro, e disse-lhe: Éphphetha, que quer dizer, abre-te.

35E no mesmo instante se lhe abriram os ouvidos, e se lhe soltou a prisão da língua, de sorte que entrou a falar expeditamente.

36E mandou-lhes que a ninguém o dissessem. Porém quanto mais Jesus lho defendia, tanto mais êles o publicavam.

37E tanto mais se admiravam, dizendo: Êle tudo tem feito bem: Fez não só que ouvissem os surdos, mas que falassem os mudos.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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