Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Jesus desprezado na sua pátria. Envia Jesus os Apóstolos a pregar. Herodes ouvindo a fama de Jesus diz que Êle era o Batista ressuscitado. Milagre dos pães multiplicados. Caminha Jesus por cima das águas. Faz acalmar uma tormenta. Conseguem muitos enfermos a saúde, só com lhe tocar a orla do vestido.

1Tendo Jesus saído dali foi para a sua pátria: E o seguiam os seus discípulos:[1]Para a sua pátriaPara Nazaré, onde costumava habitar com seus pais e de onde havia quase onze meses que se tinha ausentado. — Calmet. Estava em Cafarnaum e daí partia.

2E chegando o dia de sábado começou a ensinar na sinagoga: E muitos dos que o ouviam, se admiravam da sua doutrina, dizendo: Donde vêm a êste tôdas estas coisas? e que sabedoria é esta que lhe foi dada? E donde tais maravilhas que pelas suas mãos são obradas?

3Não é êste o oficial, filho de Maria, irmão de Tiago, e de José, e de Judas, e de Simão? não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E daqui tomavam motivo para se escandalizarem.[2]Não é êsteCfr. Mt 13, 55, 56.

4Mas Jesus lhes dizia: Um profeta só deixa de ser honrado na sua pátria, e na sua casa, e entre os seus parentes.

5E não podia fazer ali milagre algum, senão foi que curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos:[3]E não podia fazer ali milagre algumTerríveis consequências as da incredulidade, e da obstinação! Secarem de um certo modo a fonte das divinas graças, e tornarem como impotente o que tudo pode. A incredulidade e ingratidão dos homens frustram muitas vezes os desígnios de Deus pelo óbice que as más disposições estabelecem.

6E Jesus se admirava da incredulidade deles, e andava pregando por tôdas as aldeias circunvizinhas.

7E chamou os doze: E começou a enviá-los a dois e dois, e lhes dava poder contra os espíritos imundos.

8E ordenou-lhes que não levassem nada nas jornadas, senão sòmente um bordão; nem levassem alforge, nem pão, nem dinheiro na cinta.

9Mas que fossem calçados de sandálias, e que não se provessem de duas túnicas.

10E dizia-lhes: Em qualquer casa onde entrardes, ficai nela, até sairdes do lugar:

11E quando alguns vos não receberem, nem vos escutarem, saindo dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra êles.

12E saindo êles pregavam aos povos, que fizessem penitência:

13E expeliam muitos demônios, e ungiam com óleo a muitos enfermos, e os curavam.

14E ouviu isto o rei Herodes, (porque o seu nome se tinha feito célebre) e dizia: É que João Batista ressurgiu dentre os mortos: E por isso os prodígios obram nele.[4]Rei HerodesHerodes Antipas, tetrarca da Galiléia e Peréia, Cfr. Mt 14, 1.

15Outros porém diziam: É Elias. E diziam outros: É profeta como um dos profetas.[5]Como um dos profetasIsto é, como um dos antigos profetas, como se lê em Lc 9, 8.

16Herodes, que ouvia êstes rumores, disse: Êste é João a quem eu mandei degolar e que ressurgiu dos mortos.

17Porque é de saber que o mesmo Herodes, como tinha casado com Herodíades, sendo esta mulher de seu irmão Felipe, mandou prender, e meter em ferros a João, por causa desta mulher.

18Porque dizia João a Herodes: Não te é lícito ter a mulher de teu irmão.

19E Herodíades lhe andava espreitando alguma ocasião: E o queria fazer morrer, porém não podia.

20Porque Herodes temia a João, sabendo que êle era varão justo e santo: E o protegia e pelo seu conselho fazia muitas coisas, e o ouvia de boa vontade.[6]O protegiaÉ o sentido do texto, e o que se deduz da continuação dos versículos. Assim traduz Glaire.

21Até que ultimamente chegou um dia favorável, em que Herodes celebrava o dia do seu nascimento, dando um banquete aos grandes da sua côrte, aos tribunos, e aos principais da Galiléia.

22E havendo entrado no festim a filha da mesma Herodíades, e dançado, e dado gôsto a Herodes, e aos que com êle estavam à mesa, disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres que eu to darei:

23E lhe jurou: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino.

24Tendo ela saído, disse a sua mãe: Que hei de eu pedir? e ela respondeu: A cabeça de João Batista.

25E tornando logo a entrar a grã-pressa onde estava o rei, pediu, dizendo: Quero que sem mais demora me dês num prato a cabeça de João Batista.

26E o rei se entristeceu, mas por causa do juramento, e pelos que com êle estavam ali à mesa, não quis desgostá-la.[7]Mas por causa do juramentoO juramento caindo sôbre uma matéria tão iníqua, como era dar a morte a um homem como o Batista, por si mesmo era nulo, e de nenhum vigor. Só o capricho, ou a vaidade, o podiam fazer cumprir. Êste assunto provaram os nossos Padres do Concílio 8 de Toledo no Cânon 2, com as autoridades de Santo Antônio, Santo Agostinho, S. Gregório Magno, e Santo Isidoro de Sevilha.

27Mas enviando um dos da sua guarda, lhe mandou trazer a cabeça de João num prato, e êle indo o degolou no cárcere.

28E trouxe a sua cabeça num prato, e a deu à moça, e a moça a deu a sua mãe.

29O que ouvindo seus discípulos, vieram e levaram o seu corpo, e o puseram no sepulcro.

30Ora, os Apóstolos ajuntando-se onde Jesus estava, contaram-lhe tudo o que haviam feito, e ensinado.

31E êle lhes disse: Vinde, retirai-vos a algum lugar deserto, e descansai um pouco. Porque eram muitos os que entravam e saíam: E não tinham tempo para comer.

32Entrando pois numa barca, retiraram-se a um lugar deserto, por estarem sós.

33E muitos os viram partir, e outros tiveram disso notícia, e concorreram lá a pé de tôdas as cidades, e chegaram primeiro que êles.

34E ao desembarcar viu Jesus uma grande multidão de povo, e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.

35E como fosse já mui tarde, chegaram-se a êle seus discípulos, dizendo: Êste lugar é deserto, e a hora é já passada:

36Despede-os; que vão por êsses casais e aldeias da comarca, a comprar alguma coisa que comam.

37E êle respondendo lhes disse: Dai-lhes vós outros de comer. E êles lhe tornaram: Será logo preciso que vamos com duzentos dinheiros comprar pão, para haver de lhes darmos de comer.

38E Jesus lhes disse: Quantos pães tendes vós? ide, e vêde lá isso. E depois de o terem examinado, lhe vêm dizer: Temos cinco e dois peixes.

39Então lhes mandou que os fizessem recostar a todos em ranchos sôbre a verde relva.

40E se recostaram em ranchos, de cento em cento, e de cinqüenta em cinqüenta.

41E Jesus tomando os cinco pães, e os dois peixes, com os olhos no Céu, abençoou e partiu os pães, e os deu a seus discípulos, para que lhos pusessem diante: E repartiu por todos os dois peixes.

42E todos comeram, e ficaram fartos.

43E levantaram doze cestos cheios de pedaços, que sobejaram dos pães, e dos peixes.

44Ora os que comeram, eram cinco mil homens.

45E imediatamente obrigou Jesus a seus discípulos a se embarcarem, para chegarem primeiro que êle à banda dalém a Betsaida, enquanto êle despedia o povo.

46E depois que os despediu, retirou-se a um monte a fazer oração.

47E chegada a tarde achava-se a barca no meio do mar e êle só em terra.

48E vendo o trabalho que êles tinham em remar (porque o vento lhes era contrário), lá junto da quarta vigília da noite foi ter com êles, andando por cima das águas: E queria passar-lhes adiante.

49Quando êles porém o viram caminhar sôbre as águas, cuidaram que era algum fantasma, e puseram-se a gritar.

50Porque todos o viram, e se turbaram. Mas êle logo falou com êles, e lhes disse: Tende ânimo, sou eu, não temais.

51E meteu-se na barca para ir ter com êles, e cessou o vento. E êles ainda mais se espantavam no seu interior do que viam:

52Pois ainda não tinham conhecido o milagre dos pães: Porque estava obceçado o seu coração.

53E tendo passado à outra banda, vieram ao país de Genesaré, e tomaram ali porto.

54E como saíram da barca, logo o conheceram:

55E correndo por todo aquele país, começaram onde quer que sabiam que Jesus estava, a trazerem-lhe de tôdas as partes, nos leitos, os que padeciam algum mal.

56E donde quer que êle entrava, fôsse nas aldeias, ou nos casais, ou nas cidades, punham os enfermos no meio das praças, e pediam-lhe que os deixasse tocar ao menos à orla do seu vestido, e todos os que o tocavam ficavam sãos.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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