Capítulo 6
1Tendo Jesus saído dali foi para a sua pátria: E o seguiam os seus discípulos:[1]Para a sua pátria — Para Nazaré, onde costumava habitar com seus pais e de onde havia quase onze meses que se tinha ausentado. — Calmet. Estava em Cafarnaum e daí partia.
2E chegando o dia de sábado começou a ensinar na sinagoga: E muitos dos que o ouviam, se admiravam da sua doutrina, dizendo: Donde vêm a êste tôdas estas coisas? e que sabedoria é esta que lhe foi dada? E donde tais maravilhas que pelas suas mãos são obradas?
3Não é êste o oficial, filho de Maria, irmão de Tiago, e de José, e de Judas, e de Simão? não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E daqui tomavam motivo para se escandalizarem.[2]Não é êste — Cfr. Mt 13, 55, 56.
4Mas Jesus lhes dizia: Um profeta só deixa de ser honrado na sua pátria, e na sua casa, e entre os seus parentes.
5E não podia fazer ali milagre algum, senão foi que curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos:[3]E não podia fazer ali milagre algum — Terríveis consequências as da incredulidade, e da obstinação! Secarem de um certo modo a fonte das divinas graças, e tornarem como impotente o que tudo pode. A incredulidade e ingratidão dos homens frustram muitas vezes os desígnios de Deus pelo óbice que as más disposições estabelecem.
6E Jesus se admirava da incredulidade deles, e andava pregando por tôdas as aldeias circunvizinhas.
7E chamou os doze: E começou a enviá-los a dois e dois, e lhes dava poder contra os espíritos imundos.
8E ordenou-lhes que não levassem nada nas jornadas, senão sòmente um bordão; nem levassem alforge, nem pão, nem dinheiro na cinta.
9Mas que fossem calçados de sandálias, e que não se provessem de duas túnicas.
10E dizia-lhes: Em qualquer casa onde entrardes, ficai nela, até sairdes do lugar:
11E quando alguns vos não receberem, nem vos escutarem, saindo dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra êles.
12E saindo êles pregavam aos povos, que fizessem penitência:
13E expeliam muitos demônios, e ungiam com óleo a muitos enfermos, e os curavam.
14E ouviu isto o rei Herodes, (porque o seu nome se tinha feito célebre) e dizia: É que João Batista ressurgiu dentre os mortos: E por isso os prodígios obram nele.[4]Rei Herodes — Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia e Peréia, Cfr. Mt 14, 1.
15Outros porém diziam: É Elias. E diziam outros: É profeta como um dos profetas.[5]Como um dos profetas — Isto é, como um dos antigos profetas, como se lê em Lc 9, 8.
16Herodes, que ouvia êstes rumores, disse: Êste é João a quem eu mandei degolar e que ressurgiu dos mortos.
17Porque é de saber que o mesmo Herodes, como tinha casado com Herodíades, sendo esta mulher de seu irmão Felipe, mandou prender, e meter em ferros a João, por causa desta mulher.
18Porque dizia João a Herodes: Não te é lícito ter a mulher de teu irmão.
19E Herodíades lhe andava espreitando alguma ocasião: E o queria fazer morrer, porém não podia.
20Porque Herodes temia a João, sabendo que êle era varão justo e santo: E o protegia e pelo seu conselho fazia muitas coisas, e o ouvia de boa vontade.[6]O protegia — É o sentido do texto, e o que se deduz da continuação dos versículos. Assim traduz Glaire.
21Até que ultimamente chegou um dia favorável, em que Herodes celebrava o dia do seu nascimento, dando um banquete aos grandes da sua côrte, aos tribunos, e aos principais da Galiléia.
22E havendo entrado no festim a filha da mesma Herodíades, e dançado, e dado gôsto a Herodes, e aos que com êle estavam à mesa, disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres que eu to darei:
23E lhe jurou: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino.
24Tendo ela saído, disse a sua mãe: Que hei de eu pedir? e ela respondeu: A cabeça de João Batista.
25E tornando logo a entrar a grã-pressa onde estava o rei, pediu, dizendo: Quero que sem mais demora me dês num prato a cabeça de João Batista.
26E o rei se entristeceu, mas por causa do juramento, e pelos que com êle estavam ali à mesa, não quis desgostá-la.[7]Mas por causa do juramento — O juramento caindo sôbre uma matéria tão iníqua, como era dar a morte a um homem como o Batista, por si mesmo era nulo, e de nenhum vigor. Só o capricho, ou a vaidade, o podiam fazer cumprir. Êste assunto provaram os nossos Padres do Concílio 8 de Toledo no Cânon 2, com as autoridades de Santo Antônio, Santo Agostinho, S. Gregório Magno, e Santo Isidoro de Sevilha.
27Mas enviando um dos da sua guarda, lhe mandou trazer a cabeça de João num prato, e êle indo o degolou no cárcere.
28E trouxe a sua cabeça num prato, e a deu à moça, e a moça a deu a sua mãe.
29O que ouvindo seus discípulos, vieram e levaram o seu corpo, e o puseram no sepulcro.
30Ora, os Apóstolos ajuntando-se onde Jesus estava, contaram-lhe tudo o que haviam feito, e ensinado.
31E êle lhes disse: Vinde, retirai-vos a algum lugar deserto, e descansai um pouco. Porque eram muitos os que entravam e saíam: E não tinham tempo para comer.
32Entrando pois numa barca, retiraram-se a um lugar deserto, por estarem sós.
33E muitos os viram partir, e outros tiveram disso notícia, e concorreram lá a pé de tôdas as cidades, e chegaram primeiro que êles.
34E ao desembarcar viu Jesus uma grande multidão de povo, e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.
35E como fosse já mui tarde, chegaram-se a êle seus discípulos, dizendo: Êste lugar é deserto, e a hora é já passada:
36Despede-os; que vão por êsses casais e aldeias da comarca, a comprar alguma coisa que comam.
37E êle respondendo lhes disse: Dai-lhes vós outros de comer. E êles lhe tornaram: Será logo preciso que vamos com duzentos dinheiros comprar pão, para haver de lhes darmos de comer.
38E Jesus lhes disse: Quantos pães tendes vós? ide, e vêde lá isso. E depois de o terem examinado, lhe vêm dizer: Temos cinco e dois peixes.
39Então lhes mandou que os fizessem recostar a todos em ranchos sôbre a verde relva.
40E se recostaram em ranchos, de cento em cento, e de cinqüenta em cinqüenta.
41E Jesus tomando os cinco pães, e os dois peixes, com os olhos no Céu, abençoou e partiu os pães, e os deu a seus discípulos, para que lhos pusessem diante: E repartiu por todos os dois peixes.
42E todos comeram, e ficaram fartos.
43E levantaram doze cestos cheios de pedaços, que sobejaram dos pães, e dos peixes.
44Ora os que comeram, eram cinco mil homens.
45E imediatamente obrigou Jesus a seus discípulos a se embarcarem, para chegarem primeiro que êle à banda dalém a Betsaida, enquanto êle despedia o povo.
46E depois que os despediu, retirou-se a um monte a fazer oração.
47E chegada a tarde achava-se a barca no meio do mar e êle só em terra.
48E vendo o trabalho que êles tinham em remar (porque o vento lhes era contrário), lá junto da quarta vigília da noite foi ter com êles, andando por cima das águas: E queria passar-lhes adiante.
49Quando êles porém o viram caminhar sôbre as águas, cuidaram que era algum fantasma, e puseram-se a gritar.
50Porque todos o viram, e se turbaram. Mas êle logo falou com êles, e lhes disse: Tende ânimo, sou eu, não temais.
51E meteu-se na barca para ir ter com êles, e cessou o vento. E êles ainda mais se espantavam no seu interior do que viam:
52Pois ainda não tinham conhecido o milagre dos pães: Porque estava obceçado o seu coração.
53E tendo passado à outra banda, vieram ao país de Genesaré, e tomaram ali porto.
54E como saíram da barca, logo o conheceram:
55E correndo por todo aquele país, começaram onde quer que sabiam que Jesus estava, a trazerem-lhe de tôdas as partes, nos leitos, os que padeciam algum mal.
56E donde quer que êle entrava, fôsse nas aldeias, ou nos casais, ou nas cidades, punham os enfermos no meio das praças, e pediam-lhe que os deixasse tocar ao menos à orla do seu vestido, e todos os que o tocavam ficavam sãos.