Capítulo 10
1E saindo dali, foi Jesus para os confins da Judéia, na banda dalém do Jordão: E voltaram as gentes a ajuntar-se com êle: E êle de novo os ensinava, como sempre costumara.
2E chegando os fariseus, lhe perguntavam: É lícito ao marido repudiar a sua mulher? o que êles diziam para o tentarem:
3Mas êle respondendo, lhes disse: Que é o que vos mandou Moisés?
4Responderam êles: Moisés permitiu escrever libelo de repúdio e reenviá-la.[1]Moisés permitiu — É certo que o legislador do povo de Deus tolerou o repúdio, por causa do adultério, mas ficou declarado quanto estava longe Deus de se comprazer em semelhante infração das disposições da ordem primitiva. A condescendência de Deus para com gerações moralmente enfraquecidas, e incapazes de suportarem inteiramente o jugo da lei, não obriga a abandonar para sempre os seus primeiros mandamentos, procurando restabelecer um dia o mais alto nível da perfeição moral que se aproximava do estado em que primeiro estivera constituído o homem antes da queda adâmica. Êsse momento chegou com Jesus Cristo, que derrogou a prática do mosaísmo, Mt 5, 31, e elevou o matrimônio à dignidade de Sacramento, recebendo a união conjugal, por esta consagração sobrenatural, uma restauração e confirmação indiscutíveis da sua estabilidade natural e primitiva. No caso do adultério ficou apenas permitida a separação quoad thorum et habitationem, sem a permissão de tomar segundas núpcias durante a vida de qualquer dos cônjuges.
5Aos quais respondendo Jesus, disse: Pela dureza de vosso coração é que êle vos deixou escrito êsse mandamento:
6Porém ao princípio da criação, fê-los Deus macho e fêmea.
7Por isto deixará o homem a seu pai, e a sua mãe, e se ajuntará a sua mulher.
8E serão dois numa só carne. Assim que êles já não são dois, mas uma só carne.
9O que Deus pois ajuntou, não o separe o homem.[2]Não o separe o homem — Condenação categórica do divórcio. Moisés permite, em certos casos, o uso do libelo do repúdio pela dureza do coração, lê-se terminantemente no v. 5. É evidente que a concessão mosaica tolerava essa quebra da dignidade do matrimônio, mas Jesus Cristo não quis conservar semelhante imperfeição no gênero humano, que êle vem levantar do abatimento em que jazia, e então terminantemente diz: O que Deus pois ajuntou não o separe o homem. E êste texto invalida as pretensões da Igreja grega cismática e outras seitas que entendem que o adultério é uma causa legítima de completo divórcio: a tradição dos Santos Padres, a prática da Igreja, sustentam firmemente a indissolubilidade matrimonial. O Concílio de Trento anatematiza os sectários do divórcio, Sess. IV, can 7, e Leão XIII expôs com tanta sublimidade como energia a imutável doutrina da Santa Igreja no tocante à indissolubilidade do vínculo matrimonial, na Encíclica Arcanum de 10 de fevereiro de 1880. Sôbre o assunto, na impossibilidade de nos alargarmos nas considerações que êle suscita, diremos apenas que sob a influência do divórcio, a moralidade desce a passos agigantados; a pureza dos costumes desaparece; a paz do lar extingue-se; o amor foge; o interêsse e o egoísmo reinam e até se oblitera o sentimento mais santo, mais puro que na terra existe — O amor de mãe. O divórcio não é um progresso a caminho da liberdade, é um retrocesso para os tristes dias do paganismo; não é uma conquista de bem, é uma fonte de enormes males sociais, cuja consequência experimentam as nações, as famílias e os indivíduos.
10E tornaram a fazer-lhe seus discípulos em casa perguntas sôbre a mesma matéria.
11E êle lhes disse: Qualquer que repudiar a sua mulher, e se casar com outra, comete adultério contra a sua primeira mulher.
12E se a mulher repudiar a seu marido, e se casar com outro, comete adultério.
13Então lhe apresentavam uns meninos para que os tocasse. Mas os discípulos ameaçavam aos que lhos apresentavam.
14O que vendo Jesus, levou-o muito a mal e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, e não os embaraceis: Porque dos tais é o reino de Deus.
15Em verdade vos digo: Que todo o que não receber o reino de Deus como pequenino não entrará nêle.[3]O reino de Deus — Isto é, a fé, e a profissão cristã. Porque para crer as verdades católicas, e observar o que elas mandam, é necessária em nós a simplicidade de um menino.
16E abraçando-os, e pondo sôbre êles as mãos, os abençoava.
17E tendo saído Jesus para se pôr a caminho, veio correndo um homem, e com o joelho em terra diante dêle, lhe fez esta súplica: Bom Mestre, que devo eu fazer para alcançar a vida eterna?
18E Jesus lhe disse: Por que me chamas tu bom? Ninguém é bom senão só Deus.
19Tu sabes os mandamentos: Não cometas adultério, não mates, não furtes, não digas falso testemunho, não cometas fraudes, honra a teu pai e a tua mãe.
20Então êle respondendo, lhe disse: Mestre, todos êstes mandamentos tenho eu observado desde a minha mocidade.
21E Jesus, pondo nêle os olhos, lhe mostrou agrado, e lhe disse: Uma coisa só te falta: Vai, vende quanto tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu: E vem, segue-me.[4]Lhe mostrou agrado — Enquanto amou nêle a simplicidade com que falou, e o cuidado de observar a Lei divina. — Sacy e Duhamel.
22O homem desgostoso das palavras que ouvira, foi-se todo triste: Porque era muito afazendado.
23E Jesus, olhando em roda, disse a seus discípulos: Com quanta dificuldade entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!
24E os discípulos se assombravam das suas palavras. Mas Jesus continuando por diante lhes disse: Filhinhos, quão difícil coisa é entrarem no reino de Deus os que confiam nas riquezas!
25Mais fácil é passar um camelo pelo fundo duma agulha, do que entrar no reino de Deus um rico.
26Êles ainda ficaram muito mais cheios de espanto, e diziam uns para os outros: Quem pode logo salvar-se?
27Então Jesus olhando para êles, disse: Para os homens coisa é esta que não pode ser, mas não para Deus: Porque para Deus tôdas as coisas são possíveis.
28E começou Pedro a dizer-lhes: Eis aqui estamos nós que largamos tudo, e te seguimos.
29Respondendo Jesus, disse: Na verdade vos digo: Que não há nenhum que haja deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por amor de mim, e por amor do Evangelho,
30que não venha a receber, já de presente neste mesmo século, a cento por um: Das casas, e dos irmãos, e das irmãs, e das mães, e dos filhos, e das terras, com as perseguições, e no século futuro a vida eterna.[5]Já de presente neste mesmo século — Ainda neste mundo se verifica esta promessa de Cristo; enquanto a consolação e alegria de que Deus enche os corações de seus servos, que por amor dêle desprezaram os bens terrenos, é cem vezes maior, do que a que êles mesmos teriam, se gozassem dêsses bens.
31Porém haverá muitos que, sendo os primeiros, serão os últimos, e muitos que, sendo os últimos, serão os primeiros.
32E estavam no caminho para subir a Jerusalém: E Jesus ia adiante dêles, do que os mesmos se espantavam: E o seguiam com mêdo. E tornando a tomar de parte aos doze, começou a declarar-lhes as coisas que tinham de lhe acontecer.
33Eis aqui está que nós subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e aos anciãos; e sentenciá-lo-ão à morte, e o entregarão aos gentios:
34E o escarnecerão, e lhe cuspirão no rosto, e o açoutarão, e lhe tirarão a vida: E ao terceiro dia ressurgirá:
35Então se chegaram a êle Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos concedas tudo o que te pedirmos.[6]Tiago e João — Mt 20, 20, atribui à mãe a petição, que S. Marcos atribui aos filhos. No que não há contradição alguma. Porque o que a mãe pediu, pediram também os filhos, enquanto a induziram a pedir por êles.
36E êle lhes disse: Que quereis vós que eu vos faça?
37E êles responderam: Concede-nos que nos sentemos na tua glória, um à tua direita e outro à tua esquerda.
38Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis: Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Ou ser batizados no batismo em que eu estou para ser batizado?[7]No batismo — Mais à letra: No batismo em que eu sou batizado. Porquanto desde o princípio de sua vida começou Cristo a beber o cálice de sua paixão, e continuou a bebê-lo sempre enquanto viveu. — Pereira.
39E êles lhe disseram: Podemos. E Jesus lhes disse: Vós com efeito haveis de beber o cálice que eu estou para beber: E haveis de ser batizados no batismo em que eu estou para ser batizado.
40Mas pelo que toca a terdes assento à minha destra, ou à minha esquerda, não me pertence a mim o conceder-vo-lo, porém, essa honra é para aqueles para quem ela está preparada.
41E ouvindo isto os outros dez começaram a indignar-se contra Tiago e João.
42Mas Jesus, chamando-os, lhes disse: Vós sabeis que os que têm autoridade entre os povos, êsses são os que os dominam, e que os seus príncipes têm poder sôbre êles.
43Porém entre vós não deve ser assim, mas todo o que quiser ser o maior, êsse deve ser o que vos ministre:
44E todo o que entre vós quiser ser o primeiro, êsse deve fazer-se servo de todos.
45Porque o mesmo Filho do homem não veio a ser servido, mas a servir, e a dar a sua vida para redenção de muitos.
46Depois foram a Jericó; e ao sair de Jericó êle, e os seus discípulos, e muitíssimo povo com êles, Bartimeu, que era cego, filho de Timeu, estava assentado junto ao caminho pedindo esmola.
47O qual, como ouviu que passava Jesus Nazareno, começou a gritar, e a dizer: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim.
48E ameaçavam-no muitos, para que se calasse. Mas êle cada vez gritava muito mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim.
49Parando então Jesus mandou que lho chamassem. E chamaram o cego, dizendo-lhe: Tem boas esperanças, levanta-te, que êle te chama.
50Êle, deitando fora de si a capa, saltando, veio ter com êle.
51E falando Jesus, lhe disse: Que queres tu que eu te faça? O cego pois lhe respondeu: Mestre, que eu tenha vista.
52Então lhe disse Jesus: Vai, a tua fé te sarou. E no mesmo ponto viu, e o foi seguindo pelo caminho.