Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 2

Apresentam a Jesus um paralítico. Prova, com a sua cura, que Êle tem poder de perdoar pecados. Chama a Mateus, e come em sua casa. Os que estão bons, não necessitam de médico. Dá a razão por que seus discípulos não jejuam. Desculpa-os de haverem colhido umas espigas em dia de sábado.

1E entrou Jesus outra vez em Cafarnaum, depois de alguns dias.

2E tanto que soou que estava ali em uma casa, acudiu logo um tão crescido número de gente, que não cabia, nem ainda à porta, e êle lhes pregava a palavra.

3E vieram a êle trazendo um paralítico, que o conduziam quatro às costas.

4E como não pudessem pôr-lho diante, por causa do tropel da gente, patentearam o telhado da casa onde estava: E tendo feito uma abertura, arriaram o leito em que jazia o paralítico.[1]O telhadoJá dissemos que os telhados das casas judaicas eram planos, subindo-se para êles por uma escada exterior. Ali recebiam as visitas, estudavam e até comiam.

5E quando Jesus viu a fé dêles, disse ao paralítico: Filho, perdoados te são os teus pecados.

6E estavam ali assentados alguns dos escribas, que lá nos seus corações estavam dizendo:

7Como fala assim êste homem? êle diz uma blasfêmia. Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?

8Jesus conhecendo logo no seu espírito que êles pensavam desta maneira dentro de si, lhes disse: Por que estais vós pensando isso dentro de vossos corações?

9Qual é mais fácil, dizer ao paralítico: Os teus pecados te são perdoados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda?

10Ora para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico):

11A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa.

12E no mesmo ponto êle se levantou, e tomando o seu leito, se foi à vista de todos, de maneira que se admiraram todos, e louvaram a Deus, dizendo: Nunca tal vimos.

13E saiu outra vez para a parte do mar, e vinha a êle tôda a gente, e êle os ensinava.

14E indo passando, viu a Levi, filho de Alfeu, assentado no telônio, e lhe disse: Segue-me. E êle, levantando-se, o foi seguindo.[2]Levi, filho de AlfeuA identidade de S. Mateus e de Levi foi posta em dúvida por Grotius, Annot in N., 1, Mt 9, 9, Michaelis Einliet, etc. Citam em favor da sua opinião Orígenes, mas sem fundamento, porque êste claramente diz em resposta a Celso, que no colégio apostólico havia só um publicano. Depois na evocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus.

15E aconteceu que, estando Jesus assentado à mesa em casa dele, estavam também à mesa com Jesus, e com os seus discípulos, muitos publicanos, e pecadores, porque havia muitos que também o seguiam.

16E vendo os escribas, e os fariseus, que Jesus comia com os publicanos e pecadores, diziam a seus discípulos: Por que come e bebe vosso Mestre com os publicanos e pecadores?

17Quando isto ouviu Jesus, lhes disse: Os sãos não têm necessidade de médico, senão os que estão enfermos: Porque eu não vim a chamar justos senão pecadores.

18Ora, os discípulos de João, e os fariseus jejuavam, e êles vão buscar a Jesus, e lhe dizem: Por que jejuam os discípulos de João, e os dos fariseus, e não jejuam os teus discípulos?

19E Jesus lhes disse: Podem porventura jejuar os filhos das bodas, enquanto está com êles o Espôso? Todo o tempo que tem consigo ao Espôso, não podem jejuar.[3]Filhos das bodasOu do espôso.

20Mas lá virão os dias em que lhes será tirado o Espôso: E então naqueles dias êles jejuarão.

21Ninguém cose um remendo de pano novo num vestido velho; doutra sorte o mesmo remendo novo leva parte do velho, e fica maior a ruptura.

22E ninguém lança vinho novo em odres velhos: Doutra sorte fará o vinho arrebentar os odres, e entornar-se-á o vinho, e perder-se-ão os odres: Mas o vinho novo deve-se lançar em odres novos.

23E sucedeu outra vez que caminhando o Senhor por entre os pães, num dia de sábado, começaram então os seus discípulos a ir-se adiantando, e a apanhar espigas.

24E os fariseus lhe diziam: Olha, como fazem no sábado o que não é lícito?

25E êle lhes respondeu: Nunca lestes o que fez Davi, quando se achou em necessidade, e teve fome êle e os que com êle estavam?

26Como entrou na casa de Deus em tempo de Abiatar, príncipe dos sacerdotes, e comeu os Pães da Proposição, dos quais não era lícito comer, senão aos sacerdotes, e ainda deu aos que com êle estavam?[4]AbiatarO pontífice, a quem Davi nesta ocasião se encaminhou, diz o primeiro Livro dos Reis, Cap. 21, que era Aquimelec: Por onde creram alguns que o pontífice Aquimelec se chamava também Abiatar: outros discorrem que Cristo nomeara aqui a Abiatar em lugar de Aquimelec, ou por ser Abiatar muito mais conhecido em tempo de Davi, ou porque fazendo as vezes de Abiatar, é que Aquimelec deu os pães a Davi. — Calmet.

27E lhes dizia: O sábado foi feito em contemplação do homem, e não o homem em contemplação do sábado.

28Assim que o Filho do homem é senhor também do sábado.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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