Capítulo 1
1Pois que foram na verdade muitos os que empreenderam pôr em ordem a narração das coisas, que entre nós se viram cumpridas:[1]Empreenderam — Orígenes, Santo Ambrósio, S. Jerônimo e outros Padres, entendem por êstes escritores de que fala S. Lucas, os que sem ordem de Deus ou dos Apóstolos, se ingeriram a escrever diversos Evangelhos; que por isso saíram cheios de fábulas de inépcias, e como tais foram sempre reputados por apócrifos na igreja como os Evangelhos segundo S. Matias, segundo os hebreus, segundo Nicodemos, etc. Alguns doutos modernos, porém, entre êles Duhamel e Calmet, julgam que a mente de S. Lucas não é reprovar de incúria, ou de algum outro defeito, os escritores de que fala, mas somente dizer, que à sua imitação se resolvera êle também a escrever êste Evangelho. E êste é o sentido, que eu propus no corpo da versão.
2Como no-las referiram os que desde o princípio as viram com seus próprios olhos, e que foram ministros da palavra:
3Pareceu-me também a mim, excelentíssimo Teófilo, depois de me haver diligentemente informado de como tôdas elas passaram desde o princípio, dar-te por escrito a série delas,[2]Excelentíssimo Teófilo — Assim expõem algumas versões, de que uso, aquêle óptimo Teófilo da Vulgata. Teófilo quer dizer, Amador de Deus. Porém a opinião comum dos intérpretes crê que êste Teófilo, como já se disse na prefação, era algum homem de qualidade, conhecido e amigo de S. Lucas.
4para que conheças a verdade daquelas coisas, em que tens sido instruído.
5Houve, em tempos de Herodes, rei de Judéia, um sacerdote por nome Zacarias, da turma de Abias, e sua mulher era da família de Aarão, e tinha por nome Isabel.[3]Da turma de Abias — Que era a oitava das vinte e quatro que Davi escolhera por sortes, para cada uma por seu turno servir no templo. Par 24, 10. — Calmet.
6E ambos eram justos diante de Deus, caminhando irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor.
7E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos se achavam em idade avançada.
8Sucedeu pois que exercendo Zacarias diante de Deus o cargo do sacerdócio na ordem da sua turma,
9caiu-lhe por sorte, segundo o costume que havia entre os sacerdotes, entrar no templo do Senhor a oferecer o incenso:
10E estava tôda a multidão do povo fazendo oração da parte de fora, a tempo que se oferecia o incenso.
11E apareceu a Zacarias um anjo do Senhor, pôsto em pé da parte direita do altar do incenso.[4]Altar do incenso — O altar dos perfumes, a que se refere o Êx 37, 27.
12O que vendo Zacarias, ficou todo turbado, e foi grande o temor que o assaltou.
13Mas o anjo lhe disse: Não temas Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: E Isabel, tua mulher, te parirá um filho, e pôr-lhe-ás o nome João:
14E te encherás de gôsto, e de alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento:
15Porque êle será grande diante do Senhor: E não beberá vinho nem outra alguma bebida que possa embriagar, e já desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo:[5]Nem outra alguma bebida — A palavra Sicera significa não só a cerveja, mas tudo o que pode embriagar. Esta abstinência era parte da consagração dos Nazarenos. Núm 6, 3.
16E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus.
17E o mesmo irá adiante dêle no espírito e virtude de Elias: Para reunir os corações dos pais aos filhos e reduzir os incrédulos à prudência dos justos, para preparar ao Senhor um povo perfeito.
18E disse Zacarias ao anjo: Por donde conhecerei eu a verdade dessas coisas? Porque eu sou velho, e a minha mulher está avançada em anos.
19E respondendo, o anjo lhe disse: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus: E que fui enviado para te falar, e te dar esta boa nova.[6]Eu sou Gabriel — Cujo nome indica o homem de Deus, um dos principais anjos que estão na conta de Deus e que é o mesmo que anunciara a Daniel a época da vinda do Messias. Dan 9, 21.
20E desde agora ficarás mudo e não poderás falar até o dia que estas coisas sucedam, visto que não deste crédito às minhas palavras, que se hão de cumprir a seu tempo.
21E o povo estava esperando a Zacarias: E maravilhava-se de ver que êle se demorava no templo.
22E quando saiu não lhes podia falar, e entenderam que havia tido no templo alguma visão. E êle lho significava por acenos e ficou mudo.
23E aconteceu que depois de se terem acabado os dias do seu ministério, retirou-se Zacarias para sua casa:
24E algum tempo depois concebeu Isabel, sua mulher, que por cinco meses se deixou estar escondida, dizendo:
25Isto é a graça que o Senhor me fez nos dias em que atendeu tirar o meu opróbrio dentre os homens.
26E estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade de Galiléia, chamada Nazaré.
27A uma virgem desposada com um varão que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria.[7]Da casa de Davi — Descendente de Davi. Ainda não havia sido conduzida a sua casa, segundo o antigo costume de levarem a espôsa à casa do espôso, e de a deixarem em seu poder. Mas nem por isso deixava de ser "mulher de José, e José marido de Maria". Mt 1, 20.
28Entrando pois o anjo onde ela estava, disse-lhe: Deus te salve, cheia de graça: O Senhor é contigo: Benta és tu entre as mulheres.
29Ela quando o ouviu, turbou-se do seu falar, e discorria pensativa que saudação seria esta.
30Então o anjo lhe disse: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus:
31Eis conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de JESUS:
32Êste será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi: E reinará eternamente na casa de Jacó,
33e seu reino não terá fim.
34E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, pois eu não conheço varão?
35E respondendo, o anjo lhe disse: O Espírito Santo descerá sôbre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá da sua sombra. E por isso mesmo o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus.
36Que aí tens tu a Isabel, tua parenta, que até concebeu um filho na sua velhice: E êste é o sexto mês da que se diz estéril.
37Porque a Deus nada é impossível.
38Então disse Maria: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo se apartou dela.
39E naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas a uma cidade de Judá.[8]A uma cidade de Judá — Que alguns discorrem seria Hebron, da qual consta por Josué, cap. 21, que era cidade sacerdotal.
40E entrou na casa de Zacarias, e saudou a Isabel.
41E aconteceu que tanto que Isabel ouviu a saudação de Maria, deu o menino saltos no seu ventre: E Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
42E bradou em alta voz, e disse: Benta és tu entre as mulheres, e bento é o fruto do teu ventre.
43E donde a mim esta dita, que venha visitar-me a que é mãe de meu Senhor?
44Porque assim que chegou a voz da tua saudação aos meus ouvidos, logo o menino deu saltos de prazer no meu ventre.
45E bem-aventurada tu, que creste, porque se hão de cumprir as coisas, que da parte do Senhor te foram ditas.
46Então disse Maria: A minha alma glorifica o Senhor.[9]Glorifica o Senhor — O conhecido cântico Magnificat, o primeiro do Novo Testamento, que bem pode servir de conclusão ao Antigo. A Virgem, entoando êste cântico, descreve o estabelecimento da Lei da Graça, a rejeição da sinagoga, a fundação da Igreja, a aniquilação dos gentios e a sua própria glorificação por tôda a eternidade. Êste cântico mostra ao mesmo tempo a erudição religiosa da Mãe de Jesus Cristo, pois não emprega uma só expressão que não esteja consagrada no Salmista ou nos Profetas, aos quais sobreleva pela superioridade dos pensamentos e pela sublimidade dos seus sentimentos. A Igreja recita quotidiàriamente êste cântico em Vésperas, e os fiéis repetem-no nas ocasiões de grandes perigos, mormente nas grandes tempestades.
47E o meu espírito se alegrou por extremo em Deus, meu Salvador.
48Por êle ter pôsto os olhos na baixeza da sua escrava: Porque eis aí de hoje em diante me chamarão bem-aventurada tôdas as gerações.
49Porque me fez grandes coisas o que é Poderoso: E Santo o seu nome.
50E a sua misericórdia se estende de geração a geração sôbre os que o temem.
51Êle manifestou o poder do seu braço: Dissipou os que no fundo do seu coração formavam altivos pensamentos.
52Depôs do Trono os poderosos, e elevou os humildes.
53Encheu de bens os que tinham fome: E despediu vazios os que eram ricos.
54Tomou debaixo da sua proteção a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia.
55Assim como o tinha prometido a nossos pais, a Abraão, e à sua posteridade para sempre.
56E ficou Maria com Isabel perto de três meses: Depois dos quais voltou para sua casa.
57Mas a Isabel se lhe chegou o tempo de dar à luz e teve um filho.
58E ouviram os seus vizinhos, e parentes, que o Senhor havia assinalado com ela a sua misericórdia, e se congratulavam com ela.
59E aconteceu que ao oitavo dia vieram circuncidar ao menino, e lhe queriam pôr o nome de seu pai Zacarias.
60E respondendo sua mãe, disse: De nenhuma sorte, mas será chamado João.[10]Mas será chamado — Isabel não tinha ouvido o nome com que Deus queria distinguir, e sinalar a seu filho, nem do Anjo, nem de Zacarias; e assim é mui verossímil que o Espírito Santo, de que estava já cheia, lho revelasse. — Santo Ambrósio.
61E responderam-lhe: Ninguém há na tua geração que tenha êste nome.
62E perguntavam por acenos ao pai do menino, como queria que se chamasse.
63E pedindo uma tabuinha escreveu, dizendo: João é o seu nome. E todos se encheram de assombro:[11]Tabuinha — Em grego pinakídion, tábua de pinho, coberta de cêra, sôbre a qual se gravavam com o estilete os caracteres escritos.
64E logo foi aberta a sua bôca, e a sua língua, e falava bendizendo a Deus.
65E o temor se apoderou de todos os vizinhos dêles: E se divulgaram tôdas estas maravilhas por tôdas as montanhas da Judéia:
66E todos os que as ouviam as conservavam no seu coração, dizendo: Quem julgais vós que virá a ser êste menino? Porque a mão do Senhor era com êle.
67E Zacarias, seu pai, foi cheio do Espírito Santo: E profetizou, dizendo:
68Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e fez a redenção do seu povo:
69E porque nos suscitou um salvador poderoso: Na casa de seu servo Davi,[12]Um salvador poderoso — O cornu salutis é um tropo e frase hebraica: por uma redução vem a ser um salvador poderoso. A haste nos touros e nos outros animais é tôda a sua fôrça para acometer e se defenderem. E assim na Escritura é frequente esta expressão figurada, para significar a fôrça, e também o poder dos reinos, ou Impérios. Davi, Sl 131, 17, falando de Sião ou de Jerusalém, declara profèticamente que o Senhor levantaria nela o côrno do rei Davi, isto é: restabeleceria em Jerusalém, ainda que de uma maneira espiritual, e na pessoa de Jesus Cristo, o cetro e o reino de Davi. — Bossuet.
70segundo o que êle tinha prometido por bôca dos seus santos profetas, que viveram nos séculos passados:
71Que nos havia de livrar de nossos inimigos, e das mãos de todos os que nos tivessem ódio:
72Para exercitar a sua misericórdia a favor de nossos pais: E lembrar-se do seu santo pacto.
73Segundo o juramento, que êle fez a nosso pai Abraão, de que êle nos faria esta graça:
74Para que livres das mãos de nossos inimigos, o sirvamos sem temor:[13]Sem temor — A lei antiga era uma lei de temor, a lei nova é uma lei de amor. O efeito pois da Encarnação é fazer-nos servir a Deus, não já por um temor de escravos, mas com um amor de filhos; é fazer-nos servir a Deus, não já por uma religião de cerimónias, mas pelo culto interior do coração.
75Em santidade e justiça diante dêle, por todos os dias da nossa vida.
76E tu, ó menino, tu serás chamado o profeta do Altíssimo: Porque irás ante a face do Senhor a preparar os seus caminhos.
77Para se dar ao seu povo o conhecimento da salvação: A fim de que êle receba o perdão dos seus pecados:
78Pelas entranhas de misericórdia do nosso Deus, com que lá do alto nos visitou êste sol no Oriente:
79Para alumiar os que vivem de assento nas trevas, e na sombra da morte: Para dirigir os nossos pés no caminho da paz.
80Ora o menino crescia, e se fortificava no espírito: E habitava nos desertos até o dia em que se manifestou a Israel.