Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Prefação do evangelista. Promete Gabriel um filho a Zacarias. Fica êste mudo em castigo de sua incredulidade. Anunciação de Maria Santíssima para ser Mãe de Deus. Visita a Isabel. Cântico da Senhora. Nascimento do Batista. Recobra Zacarias a fala. O seu cântico.

1Pois que foram na verdade muitos os que empreenderam pôr em ordem a narração das coisas, que entre nós se viram cumpridas:[1]EmpreenderamOrígenes, Santo Ambrósio, S. Jerônimo e outros Padres, entendem por êstes escritores de que fala S. Lucas, os que sem ordem de Deus ou dos Apóstolos, se ingeriram a escrever diversos Evangelhos; que por isso saíram cheios de fábulas de inépcias, e como tais foram sempre reputados por apócrifos na igreja como os Evangelhos segundo S. Matias, segundo os hebreus, segundo Nicodemos, etc. Alguns doutos modernos, porém, entre êles Duhamel e Calmet, julgam que a mente de S. Lucas não é reprovar de incúria, ou de algum outro defeito, os escritores de que fala, mas somente dizer, que à sua imitação se resolvera êle também a escrever êste Evangelho. E êste é o sentido, que eu propus no corpo da versão.

2Como no-las referiram os que desde o princípio as viram com seus próprios olhos, e que foram ministros da palavra:

3Pareceu-me também a mim, excelentíssimo Teófilo, depois de me haver diligentemente informado de como tôdas elas passaram desde o princípio, dar-te por escrito a série delas,[2]Excelentíssimo TeófiloAssim expõem algumas versões, de que uso, aquêle óptimo Teófilo da Vulgata. Teófilo quer dizer, Amador de Deus. Porém a opinião comum dos intérpretes crê que êste Teófilo, como já se disse na prefação, era algum homem de qualidade, conhecido e amigo de S. Lucas.

4para que conheças a verdade daquelas coisas, em que tens sido instruído.

5Houve, em tempos de Herodes, rei de Judéia, um sacerdote por nome Zacarias, da turma de Abias, e sua mulher era da família de Aarão, e tinha por nome Isabel.[3]Da turma de AbiasQue era a oitava das vinte e quatro que Davi escolhera por sortes, para cada uma por seu turno servir no templo. Par 24, 10. — Calmet.

6E ambos eram justos diante de Deus, caminhando irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor.

7E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos se achavam em idade avançada.

8Sucedeu pois que exercendo Zacarias diante de Deus o cargo do sacerdócio na ordem da sua turma,

9caiu-lhe por sorte, segundo o costume que havia entre os sacerdotes, entrar no templo do Senhor a oferecer o incenso:

10E estava tôda a multidão do povo fazendo oração da parte de fora, a tempo que se oferecia o incenso.

11E apareceu a Zacarias um anjo do Senhor, pôsto em pé da parte direita do altar do incenso.[4]Altar do incensoO altar dos perfumes, a que se refere o Êx 37, 27.

12O que vendo Zacarias, ficou todo turbado, e foi grande o temor que o assaltou.

13Mas o anjo lhe disse: Não temas Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: E Isabel, tua mulher, te parirá um filho, e pôr-lhe-ás o nome João:

14E te encherás de gôsto, e de alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento:

15Porque êle será grande diante do Senhor: E não beberá vinho nem outra alguma bebida que possa embriagar, e já desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo:[5]Nem outra alguma bebidaA palavra Sicera significa não só a cerveja, mas tudo o que pode embriagar. Esta abstinência era parte da consagração dos Nazarenos. Núm 6, 3.

16E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus.

17E o mesmo irá adiante dêle no espírito e virtude de Elias: Para reunir os corações dos pais aos filhos e reduzir os incrédulos à prudência dos justos, para preparar ao Senhor um povo perfeito.

18E disse Zacarias ao anjo: Por donde conhecerei eu a verdade dessas coisas? Porque eu sou velho, e a minha mulher está avançada em anos.

19E respondendo, o anjo lhe disse: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus: E que fui enviado para te falar, e te dar esta boa nova.[6]Eu sou GabrielCujo nome indica o homem de Deus, um dos principais anjos que estão na conta de Deus e que é o mesmo que anunciara a Daniel a época da vinda do Messias. Dan 9, 21.

20E desde agora ficarás mudo e não poderás falar até o dia que estas coisas sucedam, visto que não deste crédito às minhas palavras, que se hão de cumprir a seu tempo.

21E o povo estava esperando a Zacarias: E maravilhava-se de ver que êle se demorava no templo.

22E quando saiu não lhes podia falar, e entenderam que havia tido no templo alguma visão. E êle lho significava por acenos e ficou mudo.

23E aconteceu que depois de se terem acabado os dias do seu ministério, retirou-se Zacarias para sua casa:

24E algum tempo depois concebeu Isabel, sua mulher, que por cinco meses se deixou estar escondida, dizendo:

25Isto é a graça que o Senhor me fez nos dias em que atendeu tirar o meu opróbrio dentre os homens.

26E estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade de Galiléia, chamada Nazaré.

27A uma virgem desposada com um varão que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria.[7]Da casa de DaviDescendente de Davi. Ainda não havia sido conduzida a sua casa, segundo o antigo costume de levarem a espôsa à casa do espôso, e de a deixarem em seu poder. Mas nem por isso deixava de ser "mulher de José, e José marido de Maria". Mt 1, 20.

28Entrando pois o anjo onde ela estava, disse-lhe: Deus te salve, cheia de graça: O Senhor é contigo: Benta és tu entre as mulheres.

29Ela quando o ouviu, turbou-se do seu falar, e discorria pensativa que saudação seria esta.

30Então o anjo lhe disse: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus:

31Eis conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de JESUS:

32Êste será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi: E reinará eternamente na casa de Jacó,

33e seu reino não terá fim.

34E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, pois eu não conheço varão?

35E respondendo, o anjo lhe disse: O Espírito Santo descerá sôbre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá da sua sombra. E por isso mesmo o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus.

36Que aí tens tu a Isabel, tua parenta, que até concebeu um filho na sua velhice: E êste é o sexto mês da que se diz estéril.

37Porque a Deus nada é impossível.

38Então disse Maria: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo se apartou dela.

39E naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas a uma cidade de Judá.[8]A uma cidade de JudáQue alguns discorrem seria Hebron, da qual consta por Josué, cap. 21, que era cidade sacerdotal.

40E entrou na casa de Zacarias, e saudou a Isabel.

41E aconteceu que tanto que Isabel ouviu a saudação de Maria, deu o menino saltos no seu ventre: E Isabel ficou cheia do Espírito Santo.

42E bradou em alta voz, e disse: Benta és tu entre as mulheres, e bento é o fruto do teu ventre.

43E donde a mim esta dita, que venha visitar-me a que é mãe de meu Senhor?

44Porque assim que chegou a voz da tua saudação aos meus ouvidos, logo o menino deu saltos de prazer no meu ventre.

45E bem-aventurada tu, que creste, porque se hão de cumprir as coisas, que da parte do Senhor te foram ditas.

46Então disse Maria: A minha alma glorifica o Senhor.[9]Glorifica o SenhorO conhecido cântico Magnificat, o primeiro do Novo Testamento, que bem pode servir de conclusão ao Antigo. A Virgem, entoando êste cântico, descreve o estabelecimento da Lei da Graça, a rejeição da sinagoga, a fundação da Igreja, a aniquilação dos gentios e a sua própria glorificação por tôda a eternidade. Êste cântico mostra ao mesmo tempo a erudição religiosa da Mãe de Jesus Cristo, pois não emprega uma só expressão que não esteja consagrada no Salmista ou nos Profetas, aos quais sobreleva pela superioridade dos pensamentos e pela sublimidade dos seus sentimentos. A Igreja recita quotidiàriamente êste cântico em Vésperas, e os fiéis repetem-no nas ocasiões de grandes perigos, mormente nas grandes tempestades.

47E o meu espírito se alegrou por extremo em Deus, meu Salvador.

48Por êle ter pôsto os olhos na baixeza da sua escrava: Porque eis aí de hoje em diante me chamarão bem-aventurada tôdas as gerações.

49Porque me fez grandes coisas o que é Poderoso: E Santo o seu nome.

50E a sua misericórdia se estende de geração a geração sôbre os que o temem.

51Êle manifestou o poder do seu braço: Dissipou os que no fundo do seu coração formavam altivos pensamentos.

52Depôs do Trono os poderosos, e elevou os humildes.

53Encheu de bens os que tinham fome: E despediu vazios os que eram ricos.

54Tomou debaixo da sua proteção a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia.

55Assim como o tinha prometido a nossos pais, a Abraão, e à sua posteridade para sempre.

56E ficou Maria com Isabel perto de três meses: Depois dos quais voltou para sua casa.

57Mas a Isabel se lhe chegou o tempo de dar à luz e teve um filho.

58E ouviram os seus vizinhos, e parentes, que o Senhor havia assinalado com ela a sua misericórdia, e se congratulavam com ela.

59E aconteceu que ao oitavo dia vieram circuncidar ao menino, e lhe queriam pôr o nome de seu pai Zacarias.

60E respondendo sua mãe, disse: De nenhuma sorte, mas será chamado João.[10]Mas será chamadoIsabel não tinha ouvido o nome com que Deus queria distinguir, e sinalar a seu filho, nem do Anjo, nem de Zacarias; e assim é mui verossímil que o Espírito Santo, de que estava já cheia, lho revelasse. — Santo Ambrósio.

61E responderam-lhe: Ninguém há na tua geração que tenha êste nome.

62E perguntavam por acenos ao pai do menino, como queria que se chamasse.

63E pedindo uma tabuinha escreveu, dizendo: João é o seu nome. E todos se encheram de assombro:[11]TabuinhaEm grego pinakídion, tábua de pinho, coberta de cêra, sôbre a qual se gravavam com o estilete os caracteres escritos.

64E logo foi aberta a sua bôca, e a sua língua, e falava bendizendo a Deus.

65E o temor se apoderou de todos os vizinhos dêles: E se divulgaram tôdas estas maravilhas por tôdas as montanhas da Judéia:

66E todos os que as ouviam as conservavam no seu coração, dizendo: Quem julgais vós que virá a ser êste menino? Porque a mão do Senhor era com êle.

67E Zacarias, seu pai, foi cheio do Espírito Santo: E profetizou, dizendo:

68Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e fez a redenção do seu povo:

69E porque nos suscitou um salvador poderoso: Na casa de seu servo Davi,[12]Um salvador poderosoO cornu salutis é um tropo e frase hebraica: por uma redução vem a ser um salvador poderoso. A haste nos touros e nos outros animais é tôda a sua fôrça para acometer e se defenderem. E assim na Escritura é frequente esta expressão figurada, para significar a fôrça, e também o poder dos reinos, ou Impérios. Davi, Sl 131, 17, falando de Sião ou de Jerusalém, declara profèticamente que o Senhor levantaria nela o côrno do rei Davi, isto é: restabeleceria em Jerusalém, ainda que de uma maneira espiritual, e na pessoa de Jesus Cristo, o cetro e o reino de Davi. — Bossuet.

70segundo o que êle tinha prometido por bôca dos seus santos profetas, que viveram nos séculos passados:

71Que nos havia de livrar de nossos inimigos, e das mãos de todos os que nos tivessem ódio:

72Para exercitar a sua misericórdia a favor de nossos pais: E lembrar-se do seu santo pacto.

73Segundo o juramento, que êle fez a nosso pai Abraão, de que êle nos faria esta graça:

74Para que livres das mãos de nossos inimigos, o sirvamos sem temor:[13]Sem temorA lei antiga era uma lei de temor, a lei nova é uma lei de amor. O efeito pois da Encarnação é fazer-nos servir a Deus, não já por um temor de escravos, mas com um amor de filhos; é fazer-nos servir a Deus, não já por uma religião de cerimónias, mas pelo culto interior do coração.

75Em santidade e justiça diante dêle, por todos os dias da nossa vida.

76E tu, ó menino, tu serás chamado o profeta do Altíssimo: Porque irás ante a face do Senhor a preparar os seus caminhos.

77Para se dar ao seu povo o conhecimento da salvação: A fim de que êle receba o perdão dos seus pecados:

78Pelas entranhas de misericórdia do nosso Deus, com que lá do alto nos visitou êste sol no Oriente:

79Para alumiar os que vivem de assento nas trevas, e na sombra da morte: Para dirigir os nossos pés no caminho da paz.

80Ora o menino crescia, e se fortificava no espírito: E habitava nos desertos até o dia em que se manifestou a Israel.

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Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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