Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Em que tempo foi enviado por Deus João Batista a pregar o batismo de penitência. As suas instruções ao povo, aos publicanos, e aos soldados. Vem Jesus a ser batizado por João. Abre-se o Céu e o Espírito Santo desce sôbre Jesus. Voz do Pai declarando-o seu Filho. Genealogia de Jesus Cristo desde José até Adão.

1E no ano décimo quinto do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, e Herodes tetrarca da Galiléia, e seu irmão Filipe tetrarca de Ituréia, e da província de Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilina,[1]De Tibério CésarCláudio Tibério Nero, filho de Tibério Cláudio Nero e de Lívia Drusila, segundo imperador romano, nasceu em Roma no ano 42 A. C. No ano 13 da era cristã foi associado ao govêrno, e encarregado da administração das províncias. No ano seguinte morre Augusto, e Tibério encontra-se só à frente do govêrno. O décimo quinto ano de Tibério vai de 19 de agosto do ano 28, até igual dia do ano 29.

HERODES TETRARCA — Herodes Antipas. Cfr. Mt 14, 1.

FILIPE TETRARCA DE ITURÉIA — Era Herodes Filipe, filho de Herodes Magno e de sua quinta mulher, Cleópatra de Jerusalém.

LISÂNIAS — Strauss, no seu persistente intento de encontrar S. Lucas em êrro, diz a propósito dêste Lisânias que Lucas faz reinar, trinta anos depois do nascimento de Cristo, um Lisânias que foi morto trinta anos antes do seu nascimento. A epigrafia moderna porém vinga por completo a S. Lucas, pois demonstra até à saciedade, com monumentos irrefutáveis a existência de dois Lisânias.

2sendo príncipes dos sacerdotes Anás e Caifás, veio a palavra do Senhor sôbre João, filho de Zacarias, no deserto.[2]AnásFilho de Set, chamado por Josefo Anano, foi eleito sumo sacerdote por Cirino e governador da Síria, no ano 7 da nossa era. No princípio do reinado de Tibério, no ano 14, foi deposto por Valério Grato, sucedendo-lhe Ismael, filho de Fabi, depois Eleazar, filho de Anás, que o cedeu a Simão, filho de Camit, que veio a ser substituído pelo genro de Anás, José Caifás, que conservou esta dignidade desde o ano 27 ou 28 até 36 ou 37.

3E êle foi discorrendo por tôda a terra do Jordão, pregando o batismo de penitência para remissão de pecados.[3]Tôda a terra do JordãoO Ghor atual.

4Como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Aparelhai o caminho do Senhor: Fazei direitas as suas veredas.

5Todo o vale será cheio: E todo o monte e cabeço será arrazado, e os maus caminhos tornar-se-ão direitos, e os escabrosos planos.

6E todo o homem verá o Salvador enviado por Deus.

7Dizia pois João ao povo, que vinha para ser por êle batizado: Raça de víboras, quem vos advertiu que fugísseis da ira que vos está ameaçada?

8Fazei portanto frutos dignos de penitência, e não comeceis a dizer: Nós temos por pai a Abraão. Porque eu vos declaro que poderoso é Deus para fazer que destas pedras nasçam filhos a Abraão.

9Porque já o machado está pôsto à raiz das árvores. E assim tôda a árvore que não dá bom fruto, será cortada e lançada no fogo.

10E lhe perguntavam as gentes, dizendo: Pois que faremos?

11E respondendo, lhes dizia: O que tem duas túnicas dê uma ao que a não tem, e o que tem que comer, faça o mesmo.[4]Dê uma ao que a não temLogo há preceitos de dar esmola do que nos não é necessário, porque o Batista assim o dizia, a quem lhe perguntava que devia fazer para escapar da ira de Deus. — Duhamel.

12E vieram também a êle publicanos, para que os batizasse, e lhe disseram: Mestre, que faremos nós?

13E êle lhes respondeu: Não façais mais que o que vos foi ordenado.

14Da mesma sorte perguntavam-lhe também os soldados, dizendo: E nós outros que faremos? E João lhes respondeu: Não trateis mal, nem oprimais com calúnias pessoa alguma: E dai-vos por contentes com o vosso sôldo.

15E como o povo entendesse, e todos assentassem nos seus corações, que talvez João seria o Cristo,

16respondeu João, dizendo a todos: Eu na verdade vos batizo em água, mas virá outro mais forte do que eu, a quem eu não sou digno de desatar a correia dos seus sapatos; êle vos batizará em virtude do Espírito Santo, e no fogo:

17Cuja pá está na sua mão, e êle limpará a sua eira, e recolherá o trigo no seu celeiro, e queimará as palhas em um fogo, que nunca se apaga.

18E assim anunciava outras muitas coisas ao povo nas suas exortações.

19Mas Herodes tetrarca, sendo por êle repreendido por causa de Herodíades, mulher de seu irmão, e de todos os males que Herodes havia feito,

20acrescentou sôbre todos os mais crimes também êste, de mandar meter em um cárcere a João.

21E aconteceu que, como recebesse o batismo todo o povo, depois de batizado também Jesus, e estando em oração, abriu-se o Céu.

22E desceu sôbre êle o Espírito Santo em forma corpórea como uma pomba, e soou do Céu uma voz que dizia: Tu és aquêle meu Filho especialmente amado; em ti é que tenho pôsto tôda a minha complacência.

23E o mesmo Jesus começava a ser, quase de trinta anos, filho, como se julgava, de José, que o foi de Heli, que o foi de Matat.[5]De JoséSegundo muitos intérpretes, S. José, que, segundo a natureza, era filho de Jacó, era, segundo a lei, filho de Heli. Porque Heli e Jacó eram irmãos uterinos; Heli, o primogénito, morreu sem posteridade, Jacó, segundo a lei, esposou a viúva e por consequência dêsse casamento, seu filho José foi reputado filho de Heli segundo a lei. Outros dizem que José, filho de Jacó por natureza, era-o de Heli por aliança.

24Que o foi de Levi, que o foi de Melqui, que o foi de Jane, que o foi de José.

25Que o foi de Matatias, que o foi de Amós, que o foi de Naum, que o foi de Hesli, que o foi de Nage.

26Que o foi de Maat, que o foi de Matatias, que o foi de Semei, que o foi de José, que o foi de Judá.

27Que o foi de Joana, que o foi de Resa, que o foi de Zorobabel, que o foi de Salatiel, que o foi de Neri.

28Que o foi de Melqui, que o foi de Adi, que o foi de Cosan, que o foi de Elmadã, que o foi de Her.

29Que o foi de Jesus, que o foi de Eliezer, que o foi de Jorim, que o foi de Matat, que o foi de Levi.

30Que o foi de Simeão, que o foi de Judá, que o foi de José, que o foi de Jona, que o foi de Eliaquim.

31Que o foi de Meléia, que o foi de Mena, que o foi de Matatá, que o foi de Natã, que o foi de Davi.

32Que o foi de Jessé, que o foi de Obed, que o foi de Booz, que o foi de Salmão, que o foi de Naassão.

33Que o foi de Aminadab, que o foi de Arão, que o foi de Esrom, que o foi de Farés, que o foi de Judá.

34Que o foi de Jacó, que o foi de Isaac, que o foi de Abraão, que o foi de Taré, que o foi de Nacor.

35Que o foi de Sarug, que o foi de Ragau, que o foi de Fale, que o foi de Heber, que o foi de Sale.

36Que o foi de Cainã, que o foi de Arfaxad, que o foi de Sem, que o foi de Noé, que o foi de Lamec.

37Que o foi de Matusalém, que o foi de Henoc, que o foi de Jared, que o foi de Malaleel, que o foi de Cainã.

38Que o foi de Henos, que o foi de Set, que o foi de Adão, que foi criado por Deus.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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