Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 17

Condenação do que dá escândalo aos pequeninos. Deve-se perdoar sete vezes no dia ao que se arrepende. Quão poderosa seja a fé. Por mais que façamos, sempre nos devemos ter em conta de servos inúteis. De dez leprosos, que Jesus curou, só um é agradecido. Segunda vinda do Senhor ao mundo, como um relâmpago.

1E disse Jesus a seus discípulos: É impossível que deixe de haver escândalos, mas ai daquele por quem êles vêm.

2Seria melhor para êle que se lhe atasse ao pescoço uma pedra de moinho, e que fôsse precipitado ao mar, do que ser êle a causa de escandalizar um dêstes pequeninos.

3Estai com cuidado sôbre vós; se teu irmão pecar contra ti, repreende-o, e se êle se arrepender, perdoa-lhe.

4E se êle pecar sete vezes no dia contra ti, e sete vezes no dia te vier buscar, dizendo: Pesa-me, perdoa-lhe.

5E disseram os Apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé.

6E o Senhor lhes disse: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá.

7Qual é pois de vós o que tendo um servo ocupado em lavrar, ou em guardar gado, lhe diga, quando êle se recolhe do campo: Vai já pôr-te à mesa:

8E que antes lhe não diga: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me, enquanto eu como e bebo, e depois disto comerás tu, e beberás?

9E quando o servo tenha feito tudo o que lhe ordenou, porventura fica-lhe o Senhor em obrigação?

10Creio que não. Pois assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: Somos uns servos inúteis: Fizemos o que devíamos fazer.[1]Fizemos o que devíamos fazerCom esta comparação pretende o Senhor curar a vaidade daqueles homens, que quando têm feito alguma cousa boa, querem logo entrar a contas com Deus.

11Sucedeu pois que indo Jesus para Jerusalém, passava pelo meio de Samaria, e de Galiléia.

12E ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, que se puseram de longe,

13e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem compaixão de nós.

14Jesus tanto que os viu, disse-lhes: Ide mostrar-vos aos sacerdotes. E resultou, quando iam no caminho, ficarem limpos.

15E um dêles, quando viu que havia ficado limpo, voltou atrás, engrandecendo a Deus em altas vozes.

16E veio lançar-se a seus pés com o rosto em terra, dando-lhe as graças: E êste era samaritano.[2]E êste era samaritanoOs outros nove eram judeus. — Pereira.

17E respondendo Jesus, disse: Não é assim que todos os dez foram curados? e onde estão os outros nove?

18Não se achou quem voltasse, e viesse dar glória a Deus, senão só êste estrangeiro.

19E disse para êle: Levanta-te, vai: Que a tua fé te salvou.[3]Que a tua fé te salvouDestas palavras parece inferir-se, que além da saúde do corpo, lhe concedeu o Senhor a da alma, com diferença dos outros nove, que sòmente ficaram sãos no corpo.

20Tendo-lhe feito os fariseus esta pergunta: Quando virá o Reino de Deus? Respondendo-lhes Jesus, disse: O Reino de Deus não virá com mostras algumas exteriores:

21Nem dirão: Ei-lo aqui, ou ei-lo acolá. Porque eis aqui está o Reino de Deus dentro de vós.[4]Porque eis aqui está o Reino de DeusQuer dizer, o Messias que esperais já veio, está no meio de vós outros. Os fariseus, que estavam cheios de orgulho, não formavam uma parte dêste Reino, que é um Reino de humildade, e de doçura; mas o Senhor lhes ensinava a buscarem-no, não na pompa exterior de um poder temporal, semelhante aos dos príncipes dos séculos, mas no mesmo fundo do coração do homem, onde Deus devia estabelecer principalmente o seu Reino, pelo seu espírito, e pela sua graça.

22Depois disse a seus discípulos: Lá virá tempo em que vós desejareis ver um dia o Filho do homem, e não o vereis.[5]Lá virá tempoLembrando-vos do tempo em que gozastes da sua presença, e da sua conversação, e comprando por qualquer preço a consolação de o ver, e ouvir, para ter esfôrço com as suas palavras, e conselhos no meio das tribulações, que haveis de padecer: mas não o vereis, porque o Espôso vos terá sido já tirado, e será aquêle para vós outros um tempo de luto, e de tristeza. Mt 9, 15; Mc 2, 20. Mas tôda esta predição de Jesus Cristo, desde o verso 22 até ao fim do capítulo, interpreta Calmet da destruição de Jerusalém, e do castigo da nação judaica, entendendo a vinda do Senhor em sentido metafórico, pelo castigo que êle fará cair sôbre os judeus.

23Então vos dirão: Ei-lo aqui está, e ei-lo acolá. Não queirais ir, nem o sigais.

24Porque assim como o relâmpago, que fuzilando na região inferior do Céu, faz clarão desde uma até à outra parte: Assim será o Filho do homem no seu dia.

25Mas é necessário que êle sofra primeiro muito, e que seja rejeitado dêste povo.

26E o que sucedeu em tempo de Noé, do mesmo modo sucederá também quando vier o Filho do homem.

27Êles comiam e bebiam, casavam os homens com as mulheres, e as mulheres com os homens, até ao dia em que Noé entrou na arca, e então veio o dilúvio e fez perecer a todos.

28E como sucedeu também em tempo de Ló, estavam êles comendo e bebendo, faziam compras e vendas, plantavam e edificavam.

29Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu fogo e enxôfre do Céu, que consumiu a todos.

30Assim mesmo será no dia em que se há de manifestar o Filho do homem.

31Naquela hora quem estiver no telhado, e tiver os seus móveis em casa, não desça a tirá-los, e da mesma sorte quem estiver no campo, não volte atrás.

32Lembrai-vos da mulher de Ló.

33Todo o que procurar livrar a sua vida, perdê-la-á, e todo o que a perder, salvá-la-á.

34Eu vos declaro que naquela noite, de dois homens que estiverem na mesma cama, um será tomado, e deixado o outro:

35E de duas mulheres, que estiverem moendo juntas, uma será tomada, e deixada a outra; de dois, que estiverem no campo, um será tomado, e deixado o outro.

36Replicando, êles lhe disseram: Onde será isso, Senhor?

37Êle lhes respondeu: Onde quer que estiver o corpo, ajuntar-se-ão ali também as águias.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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