Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 19

Conversão de Zaqueu. A parábola dos dez marcos de prata. Predição da ruína dos judeus. Entrada de Jesus em Jerusalém, cuja futura destruição o faz chorar. Vai ao templo, e lança fora dêle os negociantes.

1E tendo entrado em Jericó, atravessava Jesus a cidade.

2E vivia nela um homem chamado Zaqueu: E era êle um dos principais entre os publicanos, e pessoa rica:[1]Entre os publicanosAssim eram chamados os que arrendavam os tributos e rendas que se pagavam ao povo romano. Além dos que iam pelos povos para os cobrar e recolher, havia outros que os exigiam nos portos e nas pontes. Não é fácil determinar a qual classe dêstes pertencia Zaqueu; porém, pode presumir-se que aos da primeira ou da segunda, porque em qualquer das duas lhe era mais fácil defraudar, como êle confessa de si mesmo, vers. 8, que na última. — Bossuet.

3E procurava ver a Jesus, para saber quem era: E não o podia conseguir por causa da muita gente, porque era pequeno de estatura.

4E correndo adiante, subiu a um sicômoro para o ver: Porque por ali havia de passar.[2]A um sicômoroÉ figueira silvestre, a que Santo Agostinho e Dioscórides chamam figueira egipcíaca, a qual participa da figueira e da amoreira. Ainda hoje se vê no vale do Jordão e no Egito.

5E quando Jesus chegou àquele lugar, levantando os olhos, ali o viu, e lhe disse: Zaqueu, desce depressa: Porque importa que eu fique hoje em tua casa.[3]Ali o viuViu, diz Santo Agostinho, com os olhos da sua admirável misericórdia. Viu-o como a Natanael, quando estava debaixo da figueira, antes que Filipe o chamasse, Jo 1, 48: viu-o como viu a S. Pedro, depois da sua queda.

6E desceu êle a tôda a pressa, e recebeu-o gostoso.

7E vendo isto todos, murmuravam, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um homem pecador.

8Entretanto Zaqueu, pôsto na presença do Senhor, disse-lhe: Senhor: Eu estou para dar aos pobres a metade dos meus bens: E naquilo em que eu tiver defraudado a alguém, pagar-lho-ei quadruplicado.[4]Eu estou para darComo as ações, que Zaqueu se resolveu a fazer, em virtude e por efeito da sua conversão, eram ainda sem dúvida futuras, por isso o que a Vulgata diz: ecce do etc., traduzi eu: "Eu estou para dar etc.", seguindo as versões de Mons de Sacy, de Huré e outras. — Pereira. Glaire traduz: Senhor, eis que eu dou.

E naquilo — Pôsto que na realidade tenho defraudado ao meu próximo, como o confesso hoje diante de ti. Esta é a linguagem daquele a quem o Senhor havia olhado, e que havia já recebido a Jesus Cristo, não sòmente em sua casa, senão dentro no seu coração. Era o Senhor o que falava nele, ou que o fazia falar desta sorte. Santo Agostinho. O voltar quatro tantos mais, era pena que impunham as Leis Romanas aos publicanos que houvessem defraudado a algum, e também a de Moisés pelos frutos. Êx 22, 1; Núm 5, 7.

9Sôbre o que lhe disse Jesus: Hoje entrou a salvação nesta casa: Porque êste também é filho de Abraão.

10Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que tinha perecido.

11Ouvindo êles isto, continuando Jesus a falar, lhes propôs uma parábola, por ocasião de estar êle perto de Jerusalém: E porque cuidavam que o Reino de Deus se havia de manifestar cedo.

12Disse pois: Um homem de grande nascimento foi para um país muito distante a tomar posse de um reino, para depois voltar.

13E chamando dez servos seus, deu-lhes dez marcos de prata, e disse-lhes: Negociai até eu vir.

14Mas os do seu país o aborreciam, e enviaram nas suas costas deputados que fizessem êste protesto: Não queremos que êste seja nosso rei.[5]Não queremosÊstes foram os judeus, que mostraram maior obstinação em não receber a Jesus Cristo por seu rei, e que foram os primeiros em opor-se ao estabelecimento do seu Evangelho. "Ao seu veio, e os seus o não receberam." Jo 1, 2.

15E com efeito voltou êle com a posse do reino tomada: E mandou chamar aqueles servos, a quem dera o seu dinheiro, a fim de saber quanto cada um tinha negociado.

16Veio pois o primeiro dizendo: Senhor, o teu marco adquiriu dez.

17E o Senhor lhe respondeu: Está bem, servo bom, porque foste fiel no pouco, serás governador de dez cidades.

18Veio depois o segundo dizendo: Senhor, o teu marco rendeu cinco.

19E o Senhor lhe respondeu: Sê tu também governador de cinco cidades.

20Veio também o terceiro dizendo: Senhor, aqui tens o teu marco, que eu guardei embrulhado num lenço:

21Porque tive mêdo de ti, que és um homem rígido: Que tiras donde não puseste, e que recolhes o que não semeaste.

22Disse-lhe o Senhor: Servo mau, pela tua mesma bôca te condeno eu: Tu sabias que eu era um homem rígido, que tiro donde não pus, e que recolho o que não semeei:

23Logo por que não meteste tu o meu dinheiro ao banco, para que quando viesse, o recebesse eu então com os seus lucros?

24E disse aos que estavam presentes: Tirai-lhe o marco de prata, e dai-o ao que tem dez.

25E êles lhe responderam: Senhor, êste já tem dez.

26Pois eu vos digo, que a todo aquele que tiver se lhe dará, e terá mais: Mas ao que não tem, se lhe tirará ainda isso mesmo que tem.

27Quanto porém àqueles meus inimigos que não quiseram que eu fôsse seu rei, trazei-mos aqui, e tirai-lhes a vida em minha presença.[6]E tirai-lhes a vidaO grego diz, "e degolai-os." Assim foi executado pelas armas dos romanos, que castigaram aos judeus rebeldes diante do altar e templo. Pode isto entender-se também da sentença contra os réprobos, que não quiseram submeter-se ao império de Jesus Cristo.

28E dito isto, ia Jesus adiante de todos subindo para Jerusalém.

29E aconteceu que quando chegou perto de Betfagé, e de Betânia, no monte que se chama das Oliveiras, enviou dois discípulos seus,

30dizendo: Ide a essa aldeia, que está fronteira: Entrando nela, achareis um jumentinho atado, em que nunca montou pessoa alguma: Desprendei-o e trazei-o.

31E se alguém vos perguntar: Por que o soltais vós? Dir-lhe-eis assim: Porque o Senhor deseja servir-se dêle.

32Partiram pois os que tinham sido enviados: E acharam lá o jumentinho, como o Senhor lhes dissera.

33E quando êles estavam desprendendo o tal jumentinho, lhes disseram seus donos: Por que soltais vós êsse jumentinho?

34E êles responderam: Porque o Senhor tem necessidade dêle.

35Trouxeram-no pois a Jesus. E lançando sôbre o jumentinho os seus vestidos, fizeram-no montar em cima.

36E por onde quer que êle passava, estendiam os seus vestidos no caminho.

37Mas quando já ia chegando à descida do monte das Oliveiras, todos os seus discípulos, transportados de gôsto, começaram de chusma a louvar a Deus em altas vozes por tôdas as maravilhas que tinham visto,

38dizendo: Bendito o rei que vem em nome do Senhor; paz no Céu, e glória nas alturas.[7]E glória nas alturasAqui se vê renovado em parte o Hino, que os Anjos cantaram no Nascimento do Salvador: Que a paz que está no Céu, e vem do Céu, desça sôbre a terra, e que Deus, que habita nas alturas, seja glorificado. A paz em frase hebraica significa a mais perfeita e completa prosperidade. — Bossuet.

39Então alguns dos fariseus, que se achavam entre o povo, disseram-lhe: Mestre, repreende os teus discípulos.

40Aos quais êle respondeu: Asseguro-vos que se êles se calarem, clamarão as mesmas pedras.[8]ClamarãoNão só os gentios, que se comparam às pedras, senão as mesmas pedras, por um efeito maravilhoso da Divina Onipotência. S. Jerônimo. Assim se viu, que na morte do Senhor se rasgou de alto a baixo o véu do Templo, estremeceu a terra, estalaram as pedras, e se abriram as sepulturas, testemunhando com esta espécie de grito público a Divindade e a glória daquele a quem se fazia morrer como a um malfeitor, ainda que verdadeiramente era rei dos judeus, o príncipe de tôdas as nações, e o Deus da natureza.

41E quando chegou perto, ao ver a cidade, chorou Jesus sôbre ela, dizendo:

42Ah! se ao menos neste dia, que agora te foi dado, conhecesses ainda tu o que te pode trazer a paz! mas por ora tudo isto está encoberto aos teus olhos.

43Porque virá um tempo funesto para ti: No qual os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão: E te porão em apêrto de tôdas as partes:[9]No qual os teus inimigosAlude manifestamente ao sítio que Tito pôs a Jerusalém, e à destruição desta Metrópole da Palestina pelo exército romano. — Pereira.

44E te derribarão por terra a ti, e a teus filhos, que estavam dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sôbre pedra: Porquanto não conheceste o tempo da tua visitação.

45E havendo entrado no templo, começou a lançar fora todos os que vendiam e compravam nele,

46dizendo-lhes: Está escrito: Que a minha Casa é Casa de oração. E vós tendes feito dela um covil de ladrões.

47E todos os dias ensinava no templo. Mas os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e os principais do povo andavam vendo como o haviam de perder:

48Mas não achavam meio de lhe fazerem mal. Porque todo o povo estava suspenso quando o ouvia.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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