Capítulo 19
1E tendo entrado em Jericó, atravessava Jesus a cidade.
2E vivia nela um homem chamado Zaqueu: E era êle um dos principais entre os publicanos, e pessoa rica:[1]Entre os publicanos — Assim eram chamados os que arrendavam os tributos e rendas que se pagavam ao povo romano. Além dos que iam pelos povos para os cobrar e recolher, havia outros que os exigiam nos portos e nas pontes. Não é fácil determinar a qual classe dêstes pertencia Zaqueu; porém, pode presumir-se que aos da primeira ou da segunda, porque em qualquer das duas lhe era mais fácil defraudar, como êle confessa de si mesmo, vers. 8, que na última. — Bossuet.
3E procurava ver a Jesus, para saber quem era: E não o podia conseguir por causa da muita gente, porque era pequeno de estatura.
4E correndo adiante, subiu a um sicômoro para o ver: Porque por ali havia de passar.[2]A um sicômoro — É figueira silvestre, a que Santo Agostinho e Dioscórides chamam figueira egipcíaca, a qual participa da figueira e da amoreira. Ainda hoje se vê no vale do Jordão e no Egito.
5E quando Jesus chegou àquele lugar, levantando os olhos, ali o viu, e lhe disse: Zaqueu, desce depressa: Porque importa que eu fique hoje em tua casa.[3]Ali o viu — Viu, diz Santo Agostinho, com os olhos da sua admirável misericórdia. Viu-o como a Natanael, quando estava debaixo da figueira, antes que Filipe o chamasse, Jo 1, 48: viu-o como viu a S. Pedro, depois da sua queda.
6E desceu êle a tôda a pressa, e recebeu-o gostoso.
7E vendo isto todos, murmuravam, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um homem pecador.
8Entretanto Zaqueu, pôsto na presença do Senhor, disse-lhe: Senhor: Eu estou para dar aos pobres a metade dos meus bens: E naquilo em que eu tiver defraudado a alguém, pagar-lho-ei quadruplicado.[4]Eu estou para dar — Como as ações, que Zaqueu se resolveu a fazer, em virtude e por efeito da sua conversão, eram ainda sem dúvida futuras, por isso o que a Vulgata diz: ecce do etc., traduzi eu: "Eu estou para dar etc.", seguindo as versões de Mons de Sacy, de Huré e outras. — Pereira. Glaire traduz: Senhor, eis que eu dou.
E naquilo — Pôsto que na realidade tenho defraudado ao meu próximo, como o confesso hoje diante de ti. Esta é a linguagem daquele a quem o Senhor havia olhado, e que havia já recebido a Jesus Cristo, não sòmente em sua casa, senão dentro no seu coração. Era o Senhor o que falava nele, ou que o fazia falar desta sorte. Santo Agostinho. O voltar quatro tantos mais, era pena que impunham as Leis Romanas aos publicanos que houvessem defraudado a algum, e também a de Moisés pelos frutos. Êx 22, 1; Núm 5, 7.
9Sôbre o que lhe disse Jesus: Hoje entrou a salvação nesta casa: Porque êste também é filho de Abraão.
10Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que tinha perecido.
11Ouvindo êles isto, continuando Jesus a falar, lhes propôs uma parábola, por ocasião de estar êle perto de Jerusalém: E porque cuidavam que o Reino de Deus se havia de manifestar cedo.
12Disse pois: Um homem de grande nascimento foi para um país muito distante a tomar posse de um reino, para depois voltar.
13E chamando dez servos seus, deu-lhes dez marcos de prata, e disse-lhes: Negociai até eu vir.
14Mas os do seu país o aborreciam, e enviaram nas suas costas deputados que fizessem êste protesto: Não queremos que êste seja nosso rei.[5]Não queremos — Êstes foram os judeus, que mostraram maior obstinação em não receber a Jesus Cristo por seu rei, e que foram os primeiros em opor-se ao estabelecimento do seu Evangelho. "Ao seu veio, e os seus o não receberam." Jo 1, 2.
15E com efeito voltou êle com a posse do reino tomada: E mandou chamar aqueles servos, a quem dera o seu dinheiro, a fim de saber quanto cada um tinha negociado.
16Veio pois o primeiro dizendo: Senhor, o teu marco adquiriu dez.
17E o Senhor lhe respondeu: Está bem, servo bom, porque foste fiel no pouco, serás governador de dez cidades.
18Veio depois o segundo dizendo: Senhor, o teu marco rendeu cinco.
19E o Senhor lhe respondeu: Sê tu também governador de cinco cidades.
20Veio também o terceiro dizendo: Senhor, aqui tens o teu marco, que eu guardei embrulhado num lenço:
21Porque tive mêdo de ti, que és um homem rígido: Que tiras donde não puseste, e que recolhes o que não semeaste.
22Disse-lhe o Senhor: Servo mau, pela tua mesma bôca te condeno eu: Tu sabias que eu era um homem rígido, que tiro donde não pus, e que recolho o que não semeei:
23Logo por que não meteste tu o meu dinheiro ao banco, para que quando viesse, o recebesse eu então com os seus lucros?
24E disse aos que estavam presentes: Tirai-lhe o marco de prata, e dai-o ao que tem dez.
25E êles lhe responderam: Senhor, êste já tem dez.
26Pois eu vos digo, que a todo aquele que tiver se lhe dará, e terá mais: Mas ao que não tem, se lhe tirará ainda isso mesmo que tem.
27Quanto porém àqueles meus inimigos que não quiseram que eu fôsse seu rei, trazei-mos aqui, e tirai-lhes a vida em minha presença.[6]E tirai-lhes a vida — O grego diz, "e degolai-os." Assim foi executado pelas armas dos romanos, que castigaram aos judeus rebeldes diante do altar e templo. Pode isto entender-se também da sentença contra os réprobos, que não quiseram submeter-se ao império de Jesus Cristo.
28E dito isto, ia Jesus adiante de todos subindo para Jerusalém.
29E aconteceu que quando chegou perto de Betfagé, e de Betânia, no monte que se chama das Oliveiras, enviou dois discípulos seus,
30dizendo: Ide a essa aldeia, que está fronteira: Entrando nela, achareis um jumentinho atado, em que nunca montou pessoa alguma: Desprendei-o e trazei-o.
31E se alguém vos perguntar: Por que o soltais vós? Dir-lhe-eis assim: Porque o Senhor deseja servir-se dêle.
32Partiram pois os que tinham sido enviados: E acharam lá o jumentinho, como o Senhor lhes dissera.
33E quando êles estavam desprendendo o tal jumentinho, lhes disseram seus donos: Por que soltais vós êsse jumentinho?
34E êles responderam: Porque o Senhor tem necessidade dêle.
35Trouxeram-no pois a Jesus. E lançando sôbre o jumentinho os seus vestidos, fizeram-no montar em cima.
36E por onde quer que êle passava, estendiam os seus vestidos no caminho.
37Mas quando já ia chegando à descida do monte das Oliveiras, todos os seus discípulos, transportados de gôsto, começaram de chusma a louvar a Deus em altas vozes por tôdas as maravilhas que tinham visto,
38dizendo: Bendito o rei que vem em nome do Senhor; paz no Céu, e glória nas alturas.[7]E glória nas alturas — Aqui se vê renovado em parte o Hino, que os Anjos cantaram no Nascimento do Salvador: Que a paz que está no Céu, e vem do Céu, desça sôbre a terra, e que Deus, que habita nas alturas, seja glorificado. A paz em frase hebraica significa a mais perfeita e completa prosperidade. — Bossuet.
39Então alguns dos fariseus, que se achavam entre o povo, disseram-lhe: Mestre, repreende os teus discípulos.
40Aos quais êle respondeu: Asseguro-vos que se êles se calarem, clamarão as mesmas pedras.[8]Clamarão — Não só os gentios, que se comparam às pedras, senão as mesmas pedras, por um efeito maravilhoso da Divina Onipotência. S. Jerônimo. Assim se viu, que na morte do Senhor se rasgou de alto a baixo o véu do Templo, estremeceu a terra, estalaram as pedras, e se abriram as sepulturas, testemunhando com esta espécie de grito público a Divindade e a glória daquele a quem se fazia morrer como a um malfeitor, ainda que verdadeiramente era rei dos judeus, o príncipe de tôdas as nações, e o Deus da natureza.
41E quando chegou perto, ao ver a cidade, chorou Jesus sôbre ela, dizendo:
42Ah! se ao menos neste dia, que agora te foi dado, conhecesses ainda tu o que te pode trazer a paz! mas por ora tudo isto está encoberto aos teus olhos.
43Porque virá um tempo funesto para ti: No qual os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão: E te porão em apêrto de tôdas as partes:[9]No qual os teus inimigos — Alude manifestamente ao sítio que Tito pôs a Jerusalém, e à destruição desta Metrópole da Palestina pelo exército romano. — Pereira.
44E te derribarão por terra a ti, e a teus filhos, que estavam dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sôbre pedra: Porquanto não conheceste o tempo da tua visitação.
45E havendo entrado no templo, começou a lançar fora todos os que vendiam e compravam nele,
46dizendo-lhes: Está escrito: Que a minha Casa é Casa de oração. E vós tendes feito dela um covil de ladrões.
47E todos os dias ensinava no templo. Mas os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e os principais do povo andavam vendo como o haviam de perder:
48Mas não achavam meio de lhe fazerem mal. Porque todo o povo estava suspenso quando o ouvia.