Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 24

Vão as mulheres ao sepulcro com aromas para embalsamar o corpo do Senhor. Um anjo lhes diz que êle já ressurgira. Vão dizê-lo aos Apóstolos, e êstes as não crêem. Recorre Pedro ao sepulcro, e não acha o corpo de Jesus. Aparece o Senhor a dois discípulos, que iam para Emaús. Aparece também a todos os Apóstolos, e manda-lhes que o toquem. Come com êles. Promete-lhes o Espírito Santo, e sobe aos Céus.

1Mas no primeiro dia da semana, vieram muito cedo ao sepulcro, trazendo os aromas que haviam preparado.[1]Mas no primeiro dia da semanaNo domingo.

2E acharam que a pedra estava revolvida do sepulcro.[2]A pedraA porta do sepulcro.

3Entrando depois dentro, não acharam o corpo do Senhor Jesus.

4E aconteceu que estando por isso consternadas, eis que apareceram junto delas dois homens vestidos de brilhantes roupas.

5E como estivessem medrosas, e com os olhos no chão, disseram para elas: Por que buscais entre os mortos ao que vive?

6Êle não está aqui, mas ressuscitou; lembrai-vos do que êle vos declarou, quando ainda estava em Galiléia,

7dizendo: Importa que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e que seja crucificado, e que ressuscite ao terceiro dia.

8Então se lembraram elas das suas palavras.

9E tendo voltado do sepulcro, contaram tôdas estas coisas aos onze, e a todos os mais.[3]E a todos os maisQue haviam recebido a doutrina de Jesus, e elas sabiam que eram seus discípulos. — Pereira.

10E as que referiam aos Apóstolos estas coisas eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as demais que estavam com elas.

11Mas o que as mulheres lhes diziam, pareceu-lhes um como desvario, e não lhes deram crédito.[4]E não lhes deram créditoA morte do Senhor, e tôdas as mais aflições, que haviam acompanhado esta morte, fizeram tal impressão nos espíritos dos Apóstolos, que pareceram mais incrédulos, que as mesmas mulheres. Mas como êste grande mistério devia ser o principal fundamento da religião cristã, esta mesma incredulidade dos Apóstolos contribuiu muito mais para que ficasse estabelecido, e assentado com provas mais evidentes, e infalíveis êste mistério excluindo a dúvida, a hipótese da sugestão e da alucinação.

12Ainda levantando-se Pedro, correu ao sepulcro, e abaixando-se viu só os lençóis ali postos, e retirou-se admirando consigo mesmo o que sucedera.[5]O que sucederaPorque nem êles nem S. João, que o acompanhou, tinham ainda sôbre êste mistério a inteligência que só a fé lhes podia dar. — Jo 19, 40.

13E eis que no mesmo dia caminhavam dois dêles para uma aldeia, chamada Emaús, que estava em distância de Jerusalém sessenta estádios.[6]Dois dêlesIsto é dois dos discípulos, aos quais as santas mulheres contaram o que tinham visto no sepulcro. Um dêles é Cléofas, citado adiante, o outro querem alguns críticos que fôsse o próprio S. Lucas.

Para uma aldeia — Esta aldeia ou castelo, se chamou depois Nicópolis, hoje Amonas. — S. Jerônimo. Alguns querem que êste castelo seja diferente da cidade do mesmo nome, que depois foi chamada Nicópolis, e que distava de Jerusalém cento e setenta e seis estádios, ou vinte e duas milhas romanas; segundo outros é Kolonieh.

Sessenta estádios — Um estádio constava de cento e vinte e cinco passos geométricos; sessenta estádios equivalem a sete milhas e meia romanas, e duas léguas das nossas, com pouca diferença.

14E êles iam falando um com o outro em tudo o que se tinha passado.

15E sucedeu que quando êles iam conversando, e conferindo entre si, chegou-se também o mesmo Jesus, e ia com êles.

16Mas os olhos dos dois estavam como fechados, para o não conhecerem.[7]Estavam como fechadosIsto é, Jesus suspendia a impressão que o seu santíssimo corpo devia fazer naturalmente sôbre os olhos dêles, aliás o conheceriam logo em um momento, Mc 16, 12. — Pereira.

17E êle lhes disse: Que é isso que vós ides praticando e conferindo um com outro, e por que estais tristes?

18E respondendo um dêles chamado Cléofas, lhe disse: Tu só és forasteiro em Jerusalém e não sabes o que ali se tem passado êstes dias?[8]Chamado CléofasQue Eusébio, no Livro 3 da sua história, cap. 11, e Santo Epifânio na Heresia 66, núm. 19, crêem que era irmão de José; Espôso da Virgem, e pai de S. Simeão, bispo de Jerusalém. Outros, que sim era cunhado da mesma Virgem, mas pai de Tiago Menor. Tillemont, Nota 2 sôbre S. Tiago Menor. Cléofas é uma contração de Cleópatras, e que é diferente daquele a que se refere Jo 19, 25.

19Êle lhes disse: Que? E responderam os dois: Sôbre Jesus Nazareno, que foi um varão profeta, poderoso em obras, e em palavras diante de Deus, e de todo o povo:

20E de que maneira os sumos sacerdotes, e os nossos magistrados, o entregaram a ser condenado à morte, e o crucificaram:

21Ora, nós esperávamos que êle fôsse o que resgatasse a Israel: E agora sôbre tudo isto, é já hoje o terceiro dia, depois que sucederam estas coisas.[9]O que resgatasse a IsraelÊstes discípulos eram ainda carnais, e não esperavam de Jesus Cristo, como Messias, mais do que sacudir pelo seu meio o jugo da dominação romana e o estabelecimento de um reino temporal. E vendo que haviam passado três dias depois da sua morte, criam que não lhes ficava já mais que esperar. A isto alude a repreensão que depois lhes dá o Salvador.

22É verdade também que certas mulheres, das que conosco estavam, nos espantaram, as quais na alvorada foram ao sepulcro.

23E não tendo achado o seu corpo, voltaram, dizendo que elas também tinham tido uma visão de anjos, os quais dizem que êle vive.

24E alguns dos nossos foram ao sepulcro: E acharam que era assim como tinham dito as mulheres, mas a êle não o acharam.

25Então lhes disse Jesus: Ó estultos, e tardos de coração para crer tudo o que anunciaram os profetas!

26Porventura não importava que o Cristo sofresse estas coisas, e que assim entrasse na sua glória?

27E começando por Moisés, e discorrendo por todos os outros profetas, lhes explicava o que dêle se achava dito em tôdas as Escrituras.

28E quando êles estavam perto da aldeia, para onde caminhavam, fingiu então Jesus que ia para mais longe.

29Mas êles o constrangeram, dizendo: Fica em nossa companhia, porque é já tarde, e está o dia na sua declinação. E êle entrou com os dois.

30Mas o caso foi que, estando sentado com êles à mesa, tomou o pão, e o abençoou, e tendo-o partido lho dava.

31No mesmo tempo se lhes abriram os olhos, e o conheceram: Mas êle desapareceu-lhes de diante dos olhos.

32Então disseram um para o outro: Não é verdade que nós sentíamos abrasar-se-nos o coração, quando êle nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?

33E levantando-se na mesma hora voltaram para Jerusalém: E acharam juntos os onze, e os que com êles estavam,

34que diziam: Na verdade que o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão.[10]A SimãoPedro.

35E êles os dois contaram também o que lhes havia acontecido no caminho: E como conheceram a Jesus ao partir do pão.[11]Ao partir do pãoMuitos Santos Padres, entre êles S. Jerônimo no Epitáfio de Paula, e Santo Agostinho no Livro 3 da Concórdia dos Evangelistas, cap. 15, são de parecer que o Senhor consagrara êste pão. — Calmet.

36E estando ainda falando nisto, apresentou-se Jesus no meio dêles, e disse-lhes: Paz seja convosco: Sou eu, não temais.[12]Apresentou-se Jesus no meio dêlesImprovisamente, e quando por temor dos judeus tinham as portas fechadas.

Paz seja convosco — Êste era o modo ordinário com que os saudava, pois êle mesmo era o autor da verdadeira paz.

37Mas êles achando-se perturbados, e espantados, cuidavam que viam algum espírito.

38E Jesus lhes disse: Por que estais vós turbados, e que pensamentos são êsses que vos sobem aos corações?

39Olhai para as minhas mãos e pés, porque sou eu mesmo: Apalpai e vêde, que um espírito não tem carne nem ossos como vós vêdes que eu tenho.

40E em dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.

41Mas não crendo êles ainda, e estando com admiração transportados de gôsto, lhes disse: Tendes aqui alguma coisa que se coma?

42E êles lhe puseram diante uma posta de peixe assado, e um favo de mel.

43E tendo comido Jesus à vista dêles, tomando os sobejos lhos deu.[13]E tendo comidoComeu, realmente, não por alguma necessidade que tivesse, mas porque podia fazê-lo. Santo Agostinho. O raio ardente do sol, acrescenta o Santo, atrai a água da terra de uma maneira mui diferente daquela que uma terra queimada bebe esta mesma água, quando cai desfeita em chuva. E seria, continua o mesmo Santo, uma felicidade imperfeita, se um corpo ressuscitado não tivesse a faculdade de comer; porém, a sua felicidade seria também imperfeita, se tivesse necessidade de o fazer. — Bossuet.

44Depois disse-lhes: Isto que vós estais vendo, é o que queriam dizer as palavras que eu vos dizia, quando ainda estava convosco, que era necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos.[14]E nos SalmosOs hebreus distinguem o Antigo Testamento nestas três partes, Lei, Profetas, Hagiógrafos, e entre êstes últimos dão o primeiro lugar aos Salmos. — Bossuet.

45Então lhes abriu o entendimento, para alcançarem o sentido das Escrituras.[15]Para alcançaremTirando-lhes um como véu que lhes impedia ver a luz da verdade, que se encerrava nas palavras de Jesus Cristo e da Escritura. Lc 9, 41. Daqui se vê que as Escrituras encerram obscuridade, e que os mesmos Apóstolos não as entenderiam, se Jesus Cristo lhas não explicasse.

46E disse-lhes: Assim é que está escrito, e assim é que importava que o Cristo padecesse, e que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia:[16]Assim é que está escritoComo se lhes dissera: Assim é como o escreveram Isaías, Jeremias, Davi e Jonas, etc.

47E que em seu nome se pregasse penitência, e remissão de pecados em tôdas as nações, começando por Jerusalém.

48Ora, vós sois as testemunhas destas coisas.[17]Vós sois as testemunhasVós outros que haveis visto tudo, dareis testemunho a todo o mundo da minha vida, da minha doutrina, da minha morte, e sobretudo da minha ressurreição.

49E eu vou a mandar sôbre vós o dom que vos está prometido por meu Pai; entretanto ficai vós de assento na cidade, até que sejais revestidos de virtude lá do alto.[18]O dom que vos está prometidoO Espírito Santo; que baixará sôbre vós outros e que meu Pai vos prometeu pela bôca dos Profetas. Is 44, 5; Ez 36, 26 e 39, 26; Jl 2, 28; At 1, 3; 2, 2.

50Depois levou-os fora até Betânia: E levantando as suas mãos, os abençoou.[19]Fora até BetâniaAo monte das Oliveiras, e deixando-se ver, por um novo milagre, sòmente dos seus discípulos.

E levantando as suas mãos — Como um Pai que se ausenta de seus filhos. Esta última bênção do Filho de Deus os dispôs para o retiro e para a oração, e os preparou para receberem a plenitude da graça Apostólica.

51E aconteceu que enquanto os abençoava, se ausentou dêles, e era elevado ao Céu.

52E êles, depois de o adorarem, voltaram para Jerusalém com grande júbilo.[20]Depois de o adoraremProstrados por terra, considerando-o já, não como um mestre ou como um profeta, mas como Rei da glória, e Senhor do Universo.

53E estavam continuamente no Templo louvando e bendizendo a Deus. Amém.

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Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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