Capítulo 21
1E estando Jesus olhando, viu os ricos que lançavam as suas oferendas no gazofilácio.
2E viu também uma pobrezinha viúva, que lançava duas pequenas moedas.
3E disse: Na verdade vos digo, que esta pobre viúva lançou mais que todos os outros.
4Porque todos êsses fizeram a Deus ofertas daquilo que tinham em abundância: Mas ela deu da sua mesma indigência tudo o que lhe restava para o seu sustento.
5E dizendo-lhe alguns a respeito do templo, que estava ornado de belas pedras, e de magníficos donativos, Jesus lhes respondeu:[1]E de magníficos donativos — O texto grego chama-lhes anatemata, como se disséramos, coisas separadas e suspensas. Tais eram o painel de ouro, que ofereceu o rei Ptolomeu, quando mandou pedir a pereira de ouro oferecida por Herodes o Grande; a qual José chama um prodígio na grandeza e no artifício. — Amelote.
6No tocante a estas coisas que vêdes, virão dias em que não ficará pedra sôbre pedra, que não seja demolida.
7Então lhe fizeram esta pergunta, dizendo: Mestre, quando será isto, e que sinal haverá quando assim começar a cumprir-se?
8Respondeu-lhes Jesus: Vêde não sejais enganados: Porque muitos hão de vir debaixo do meu Nome, dizendo, eu sou: E êste tempo está próximo: Mas guardai-vos de ir após êles.
9E quando ouvirdes falar de guerras, e de tumultos, não vos assusteis: Estas coisas sim devem suceder primeiro, mas não será logo o fim.
10Então lhes dizia: Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra reino.
11E haverá grandes terremotos por várias partes, e epidemias, e fomes, e aparecerão coisas espantosas e grandes sinais do Céu.
12Mas antes de tudo isto lançar-vos-ão êles as mãos, e perseguir-vos-ão entregando-vos às Sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis, e dos governadores, por causa do meu Nome:
13E isto vos será ocasião de dardes testemunho.[2]De dardes testemunho — Da vossa fé e amor para comigo, ou de testemunho contra os judeus. — Duhamel.
14Gravai pois nos vossos corações, o não premeditar como haveis de responder:
15Porque eu vos darei uma bôca, e uma sabedoria, à qual não poderão resistir, nem contradizer todos os vossos inimigos:
16E sereis entregues por vossos pais, e irmãos, e parentes, e amigos, e farão morrer a alguns de vós outros:
17E sereis aborrecidos de todos por causa do meu Nome:
18Entretanto não se perderá um cabelo da vossa cabeça.
19Na vossa paciência possuireis as vossas almas.
20Quando virdes pois que Jerusalém é sitiada de um exército, então sabei que está próxima a sua desolação:
21Os que nesse tempo se acharem em Judéia, fujam para os montes: E os que dentro da cidade, retirem-se: E os que nos campos, não entrem nela:
22Porque êstes são dias de vingança, para que se cumpram tôdas as coisas que estão escritas.
23Mas ai das que estiverem prenhes, e das que então criarem naqueles dias! Porque haverá grande apêrto sôbre a terra, e ira contra êste povo.
24E cairão ao fio da espada: E serão levados cativos a tôdas as nações, e Jerusalém será pisada dos gentios: Até se completarem os tempos das nações.[3]Será pisada dos gentios — Porque arrazada por Tito a primeira Jerusalém, será fundada sôbre as suas ruínas outra por Adriano, que do seu nome se chamará Elias Capitolina, como consta da História de Eusébio, livro 4, cap. 6. — Calmet.
Até se completarem os tempos das nações — Até que tenha passado o tempo do reino da Idolatria. Êste tempo em que profanaram a Jerusalém os gentios, durou até o império de Constantino. Êste príncipe, havendo abraçado a religião Cristã, principiou com Santa Helena sua mãe a purificar a Jerusalém, fazendo edificar igrejas, em lugar dos templos que os idólatras haviam levantado em honra dos seus falsos deuses. Euseb. Vit. Constant. Lib. 3, cap. 25. Pode também explicar-se de todo o tempo da infidelidade dos judeus, que deu lugar, como diz S. Paulo aos Rom 11, 25, à conversão dos gentios, que o Filho de Deus chama aqui o tempo das nações.
25E haverá sinais no sol, e na lua, e nas estrêlas, e na terra consternações das gentes pela confusão em que as porá o bramido do mar, e das ondas:
26Mirrando-se os homens de susto, e na expectação do que virá sôbre todo o mundo, porque as virtudes dos Céus se abalarão:
27E então verão o Filho do homem, que virá sôbre uma nuvem com grande poder, e majestade.
28Quando começarem pois a cumprir-se estas coisas, olhai, e levantai as vossas cabeças: Porque está perto a vossa redenção.
29Propôs-lhes depois êste símile: Olhai para a figueira, e para as mais árvores.
30Quando elas começam já a produzir de si fruto, conheceis vós que está perto o estio.
31Assim também quando vós virdes que vão sucedendo estas coisas, sabeis que está perto o Reino de Deus.
32Em verdade vos afirmo, que esta geração não passará, enquanto se não cumprirem tôdas estas coisas.[4]Que esta geração não passará — Tudo isto se verificou, pelo que respeita à ruína de Jerusalém, antes que se houvessem cumprido cinquenta anos da morte do Salvador: e se cumprirá pelo que respeita aos sinais que hão de preceder ao Juízo final, antes que haja passado a dos homens que habitarem na terra. — Pereira.
33Passará o Céu e a terra: Mas as minhas palavras não passarão.
34Velai pois sôbre vós, para que não suceda que os vossos corações se façam pesados com as demasias do comer, e do beber, e com os cuidados desta vida: E para que aquele dia vos não apanhe de repente.
35Porque êle, assim como um laço, prenderá a todos os que habitam sôbre a face de tôda a terra.
36Vigiai pois, orando em todo o tempo, a fim de que vos façais dignos de evitar todos êstes males, que têm de suceder, e de vos apresentardes com confiança diante do Filho do homem.[5]Vigiai pois — Estas palavras dizem respeito em geral a todos os cristãos. Porque ainda que nem todos podem ser testemunhas dêstes sinais e prodígios que hão de suceder no fim do mundo, todavia será êste para êles a hora da sua morte, e a disposição em que os ache, esta será a que decida por uma eternidade da sua dita, ou da sua desgraça. Quanto nos importa que êste último momento não nos surpreenda, e tome como um laço ou uma rêde, em que um pássaro repentinamente se acha prêso sem havê-lo antes previsto! Por isso nos encarrega o Senhor, que estejamos alerta, que vigiemos e oremos sem cessar, mortificando as nossas paixões, fugindo dos excessos no comer e no beber, seguros de que se tivermos em todo o tempo os olhos levantados ao Senhor, êle mesmo desviará os nossos pés dos laços dos nossos inimigos. Sl 24, 15.
37Ora, Jesus de dia ensinava no templo: E de noite saía a ficar no monte, que se chama das Oliveiras.
38E todo o povo ia ter com êle de madrugada para o ouvir no templo.