Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 21

Uma pobre viúva lança no gazofilácio mais do que as pessoas ricas. Prediz Jesus Cristo a ruína do templo. Dispõe a seus discípulos para o tempo das guerras, e tribulações. Sinais que hão de preceder a segunda vinda. É necessário preparar-se cada um com a abstinência, com o desprêzo do mundo, com as vigílias, e com a oração.

1E estando Jesus olhando, viu os ricos que lançavam as suas oferendas no gazofilácio.

2E viu também uma pobrezinha viúva, que lançava duas pequenas moedas.

3E disse: Na verdade vos digo, que esta pobre viúva lançou mais que todos os outros.

4Porque todos êsses fizeram a Deus ofertas daquilo que tinham em abundância: Mas ela deu da sua mesma indigência tudo o que lhe restava para o seu sustento.

5E dizendo-lhe alguns a respeito do templo, que estava ornado de belas pedras, e de magníficos donativos, Jesus lhes respondeu:[1]E de magníficos donativosO texto grego chama-lhes anatemata, como se disséramos, coisas separadas e suspensas. Tais eram o painel de ouro, que ofereceu o rei Ptolomeu, quando mandou pedir a pereira de ouro oferecida por Herodes o Grande; a qual José chama um prodígio na grandeza e no artifício. — Amelote.

6No tocante a estas coisas que vêdes, virão dias em que não ficará pedra sôbre pedra, que não seja demolida.

7Então lhe fizeram esta pergunta, dizendo: Mestre, quando será isto, e que sinal haverá quando assim começar a cumprir-se?

8Respondeu-lhes Jesus: Vêde não sejais enganados: Porque muitos hão de vir debaixo do meu Nome, dizendo, eu sou: E êste tempo está próximo: Mas guardai-vos de ir após êles.

9E quando ouvirdes falar de guerras, e de tumultos, não vos assusteis: Estas coisas sim devem suceder primeiro, mas não será logo o fim.

10Então lhes dizia: Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra reino.

11E haverá grandes terremotos por várias partes, e epidemias, e fomes, e aparecerão coisas espantosas e grandes sinais do Céu.

12Mas antes de tudo isto lançar-vos-ão êles as mãos, e perseguir-vos-ão entregando-vos às Sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis, e dos governadores, por causa do meu Nome:

13E isto vos será ocasião de dardes testemunho.[2]De dardes testemunhoDa vossa fé e amor para comigo, ou de testemunho contra os judeus. — Duhamel.

14Gravai pois nos vossos corações, o não premeditar como haveis de responder:

15Porque eu vos darei uma bôca, e uma sabedoria, à qual não poderão resistir, nem contradizer todos os vossos inimigos:

16E sereis entregues por vossos pais, e irmãos, e parentes, e amigos, e farão morrer a alguns de vós outros:

17E sereis aborrecidos de todos por causa do meu Nome:

18Entretanto não se perderá um cabelo da vossa cabeça.

19Na vossa paciência possuireis as vossas almas.

20Quando virdes pois que Jerusalém é sitiada de um exército, então sabei que está próxima a sua desolação:

21Os que nesse tempo se acharem em Judéia, fujam para os montes: E os que dentro da cidade, retirem-se: E os que nos campos, não entrem nela:

22Porque êstes são dias de vingança, para que se cumpram tôdas as coisas que estão escritas.

23Mas ai das que estiverem prenhes, e das que então criarem naqueles dias! Porque haverá grande apêrto sôbre a terra, e ira contra êste povo.

24E cairão ao fio da espada: E serão levados cativos a tôdas as nações, e Jerusalém será pisada dos gentios: Até se completarem os tempos das nações.[3]Será pisada dos gentiosPorque arrazada por Tito a primeira Jerusalém, será fundada sôbre as suas ruínas outra por Adriano, que do seu nome se chamará Elias Capitolina, como consta da História de Eusébio, livro 4, cap. 6. — Calmet.

Até se completarem os tempos das nações — Até que tenha passado o tempo do reino da Idolatria. Êste tempo em que profanaram a Jerusalém os gentios, durou até o império de Constantino. Êste príncipe, havendo abraçado a religião Cristã, principiou com Santa Helena sua mãe a purificar a Jerusalém, fazendo edificar igrejas, em lugar dos templos que os idólatras haviam levantado em honra dos seus falsos deuses. Euseb. Vit. Constant. Lib. 3, cap. 25. Pode também explicar-se de todo o tempo da infidelidade dos judeus, que deu lugar, como diz S. Paulo aos Rom 11, 25, à conversão dos gentios, que o Filho de Deus chama aqui o tempo das nações.

25E haverá sinais no sol, e na lua, e nas estrêlas, e na terra consternações das gentes pela confusão em que as porá o bramido do mar, e das ondas:

26Mirrando-se os homens de susto, e na expectação do que virá sôbre todo o mundo, porque as virtudes dos Céus se abalarão:

27E então verão o Filho do homem, que virá sôbre uma nuvem com grande poder, e majestade.

28Quando começarem pois a cumprir-se estas coisas, olhai, e levantai as vossas cabeças: Porque está perto a vossa redenção.

29Propôs-lhes depois êste símile: Olhai para a figueira, e para as mais árvores.

30Quando elas começam já a produzir de si fruto, conheceis vós que está perto o estio.

31Assim também quando vós virdes que vão sucedendo estas coisas, sabeis que está perto o Reino de Deus.

32Em verdade vos afirmo, que esta geração não passará, enquanto se não cumprirem tôdas estas coisas.[4]Que esta geração não passaráTudo isto se verificou, pelo que respeita à ruína de Jerusalém, antes que se houvessem cumprido cinquenta anos da morte do Salvador: e se cumprirá pelo que respeita aos sinais que hão de preceder ao Juízo final, antes que haja passado a dos homens que habitarem na terra. — Pereira.

33Passará o Céu e a terra: Mas as minhas palavras não passarão.

34Velai pois sôbre vós, para que não suceda que os vossos corações se façam pesados com as demasias do comer, e do beber, e com os cuidados desta vida: E para que aquele dia vos não apanhe de repente.

35Porque êle, assim como um laço, prenderá a todos os que habitam sôbre a face de tôda a terra.

36Vigiai pois, orando em todo o tempo, a fim de que vos façais dignos de evitar todos êstes males, que têm de suceder, e de vos apresentardes com confiança diante do Filho do homem.[5]Vigiai poisEstas palavras dizem respeito em geral a todos os cristãos. Porque ainda que nem todos podem ser testemunhas dêstes sinais e prodígios que hão de suceder no fim do mundo, todavia será êste para êles a hora da sua morte, e a disposição em que os ache, esta será a que decida por uma eternidade da sua dita, ou da sua desgraça. Quanto nos importa que êste último momento não nos surpreenda, e tome como um laço ou uma rêde, em que um pássaro repentinamente se acha prêso sem havê-lo antes previsto! Por isso nos encarrega o Senhor, que estejamos alerta, que vigiemos e oremos sem cessar, mortificando as nossas paixões, fugindo dos excessos no comer e no beber, seguros de que se tivermos em todo o tempo os olhos levantados ao Senhor, êle mesmo desviará os nossos pés dos laços dos nossos inimigos. Sl 24, 15.

37Ora, Jesus de dia ensinava no templo: E de noite saía a ficar no monte, que se chama das Oliveiras.

38E todo o povo ia ter com êle de madrugada para o ouvir no templo.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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