Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

O feitor, que se valeu da sua administração para adquirir amigos. Não se pode servir a Deus e ao dinheiro. O matrimônio indissolúvel. A parábola do rico avarento e de Lázaro mendigo. Quem não crê a Escritura, também não crerá a um morto ressuscitado.

1E dizia também Jesus a seus discípulos: Havia um homem rico que tinha um feitor: E êste foi acusado diante dêle como quem havia dissipado os seus bens.

2E êle o chamou, e lhe disse: Que é isto que ouço dizer de ti? Dá conta da tua administração: Porque já não poderás ser meu feitor.

3Então o feitor disse entre si: Que farei, visto que meu amo me tira a administração? Cavar não posso, de mendigar tenho vergonha.

4Mas já sei o que hei de fazer, para que quando for removido da administração, ache quem me recolha em sua casa.

5Tendo chamado pois cada um dos devedores de seu amo, disse ao primeiro: Quanto deves tu a meu amo?

6E êste lhe respondeu: Cem cados de azeite. Êle então lhe disse: Toma a tua obrigação: E senta-te depressa, escreve outra de cinqüenta.

7Depois disse a outro: E tu quanto deves? Respondeu êle: Cem côros de trigo. Disse-lhe o feitor: Toma o teu escrito, e escreve oitenta.

8E o amo louvou êste feitor iníquo, por haver obrado como homem de juízo: Porque os filhos dêste século são mais sábios na sua geração que os filhos da luz.[1]E o amo louvouNão louvou a iniqüidade mas sim o documento a que ela deu ocasião. O qual documento consiste em que assim como êste feitor fez amigos, que o recolhessem nas moradas terrenas dos bens de seu amo, assim dos bens que possuem, que não são pròpriamente seus, mas de Deus, devem os Cristãos, por meio da esmola, fazer amigos, que os recebam no Céu. As expressões filhos do século e da luz são meros hebraísmos.

9Também eu vos digo: Que grangeeis amigos com as riquezas da iniqüidade: Para que quando vós vierdes a faltar, vos recebam êles, nos tabernáculos eternos.

10O que é fiel no menos, também é fiel no mais: E o que é injusto no pouco, também é injusto no muito.

11Se pois vós não fostes fiéis nas riquezas injustas: Quem haverá que confie de vós as verdadeiras?

12E se vós não fostes fiéis no alheio: Quem vos dará o que é vosso?

13Nenhum servo pode servir a dois senhores: Porque ou há de ter aborrecimento a um, e amor a outro: Ou há de entregar-se a um, e não fazer caso do outro: Vós não podeis servir a Deus e às riquezas.

14Ora, os fariseus, que eram avarentos, ouviam tôdas estas coisas: E zombavam dêle.

15E Jesus lhes disse: Vós outros sois os que vos dais por justificados diante dos homens: Mas Deus conhece os vossos corações: Porque o que é elevado aos olhos dos homens, é abominação diante de Deus.

16A lei e os profetas duraram até à vinda de João: Desde êste tempo é o reino de Deus anunciado, e cada um faz fôrça por entrar nêle.

17É porém mais fácil passar o Céu e a terra, do que perder-se um til da lei.

18Todo o que larga a sua mulher, e casa com outra, comete adultério: E o que casa com a que foi repudiada de seu marido, comete adultério.[2]Todo o que larga a sua mulherNo Evangelho de S. Mateus assentou Jesus Cristo os seguintes princípios: Recordou a instituição do matrimônio naquela parte em que disse que Deus tinha criado um só homem e uma só mulher. Impôs o mútuo amor, dizendo que deviam estar unidos de maneira que fôsse duo in carne una. Estabeleceu a indissolubilidade do matrimônio, referindo que, visto ter Deus formado assim o homem e a mulher unidos, o homem não os devia separar, Quod ergo Deus conjunxit, homo non separet, e assim indicou que o divórcio é contrário à natureza, do mesmo modo que é contra a natureza, que uma só carne ou um só homem se dividam em dois, e contra a instituição divina, porque o divórcio separa o que Deus quis que estivesse sempre unido. Aqui Jesus Cristo insiste na indissolubilidade matrimonial, cujos fundamentos podemos reduzir a três. O matrimônio é indissolúvel: 1.º Para se assemelhar ao matrimônio dos proto-parentes, 2.º Para fortificar o mútuo amor dos cônjuges. 3.º Para corresponder à sua instituição divina. A igreja tem-se mostrado inflexível sôbre a doutrina da indissolubilidade matrimonial, inculcada no Evangelho com tanto afinco. De resto todos sabem os inconvenientes sociais do divórcio. É bem conhecido o trecho de Bonald, que merece sempre ser transcrito: “Si la dissolution du lien conjugal est permise, même, pour cause d'adultère, toutes les femmes qui voudront divorcer, se rendront coupables d'adultères, les femmes seront une marchandise en circulation, et l'accusation d'adultère sera la monnaie courante, et le moyen convenu de tous les échanges. E a França tem visto o marido, a mulher e o sedutor combinarem-se a fim de poderem provar o adultério perante os tribunais, para dêste modo conseguirem divorciar-se judicialmente. Madame Stael, em um livro sôbre a Alemanha, escreveu: L'amour est une religion en Allemagne, mais une religion poétique, qui tolère trop volontiers tout ce que la sensibilité, peut excuser; on ne saurait le nier, la facilité du divorce dans les provinces protestantes qui porte atteinte à la sainteté du mariage. On y change passiblement d'épouse que s'il agissait d'arranger les incidents d'un drame. Jesus Cristo, modêlo de todos os legisladores, e legislador divino, instituindo as suas leis, não condescende com as paixões humanas, visou a máxima perfeição do indivíduo, da família e da sociedade; e a indissolubilidade matrimonial, em que pese aos sectários do divórcio, concorre poderosamente para o progresso da sociedade e civilização do povo.

19Havia um homem muito rico, que se vestia de púrpura, e de holanda: E que todos os dias se banqueteava esplendidamente.

20Havia também um pobre mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à sua porta.[3]Por nome LázaroDaqui colheram alguns Padres, como Tertuliano, e com êles os Mestres das Sentenças, livro IV, dist. ult., ser esta uma verdadeira história, e não simples parábola. Outros com Teofilacto, e Eutímio sentem o contrário, o que hoje é aceito.

21E que desejava fartar-se das migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava: E os cães vinham lamber-lhe as úlceras.

22Ora sucedeu morrer êste mendigo, que foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. E morreu também o rico, e foi sepultado no inferno.[4]Ao seio de AbraãoLugar que havia destinado para o descanso das almas dos justos, até que Jesus Cristo, triunfando da morte, os levou consigo a gozar da terra bem-aventurada. Abraão é proposto como pai de todos os viventes. Rom 11, 12. Os que imitam a sua fé, e a sua piedade, são seus filhos espirituais, e se diz que descansam no seio de Abraão, à maneira de uns filhos ternos, e mui amados, que lhos levam, para que repousem no seio, ou regaço, de seus pais. — Pereira.

23E quando êle estava nos tormentos, levantando seus olhos, viu ao longe a Abraão, e a Lázaro no seu seio.

24E gritando, êle disse: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda cá a Lázaro, para que molhe em água a ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou atormentado nesta chama.

25E Abraão lhe respondeu: Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em tua vida, e que Lázaro não teve senão males: Por isso está êle agora consolado, e tu em tormentos:

26E demais que entre nós e vós está firmado um grande abismo: De maneira que os que querem passar daqui para vós, não podem, nem os de lá passar para cá.[5]Um grande abismoAssim vertem todos os que costumam alegar aquêle caos da Vulgata, que o grego chama: chasma. — Pereira.

27E disse o rico: Pois eu te rogo, pai, que o mandes à casa de meu pai:

28Pois que tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, que não suceda virem também êles parar a êste lugar de tormentos.

29E Abraão lhe disse: Êles lá têm a Moisés, e aos profetas: Ouçam-nos.[6]Ouçam-nosNote-se, que aconselha Jesus Cristo a lição dos livros de Moisés, e dos profetas, ao povo judaico, e conseqüentemente ao povo Cristão.

30Disse pois o rico: Não, pai Abraão: Mas se fôr a êles algum dos mortos, hão de fazer penitência.

31Porém Abraão lhe respondeu: Se êles não dão ouvidos a Moisés, e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda quando haja de ressuscitar algum dos mortos.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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