Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Os Apóstolos colhendo espigas em dia de sábado. Jesus os desculpa. No seguinte sábado cura o homem da mão ressecada. Passa a noite em oração por escolher os Apóstolos. Prega no meio do campo as bem-aventuranças. Diversos conselhos e preceitos da Lei Nova. A aresta e a trave no ôlho. A boa e a má árvore. O que ouve e pratica. O que ouve, levanta edifício sólido.

1E aconteceu um dia de sábado, chamado segundo primeiro, que como passasse pelas searas, os seus discípulos cortavam espigas, e machucando-as nas mãos as comiam.[1]Chamado segundo primeiroO primeiro sábado depois do segundo dia da Páscoa.

2E alguns dos fariseus lhes diziam: Por que fazeis o que não é lícito nos sábados?

3E respondendo-lhes Jesus, disse: Vós não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome êle, e os que com êle estavam?

4Como entrou na casa de Deus, e tomou os pães da proposição, e comeu dêles, e deu aos que vinham com êle: Sendo assim que não podiam comer dêles, senão só os sacerdotes?

5Disse-lhes mais: O Filho do homem é Senhor também do sábado mesmo.

6E aconteceu que também outro sábado entrou Jesus na Sinagoga, e ensinava. E achava-se ali um homem que tinha ressecada a mão direita.[2]Que também outro sábadoQue se chamava "sábado segundo", pela mesma razão que há pouco explicamos.

7E os escribas, e os fariseus o estavam observando, para ver se curava em sábado: A fim de terem de que o acusar.

8Mas Jesus sabia os pensamentos dêles: E disse para o homem que tinha a mão ressecada: Levanta-te e põe-te em pé no meio. E levantando-se êle, ficou em pé.

9E Jesus lhes disse: Pergunto-vos, se é lícito nos sábados fazer bem, ou mal: Salvar a vida, ou tirá-la?

10Depois correndo a todos com os olhos, disse ao homem: Estende a tua mão. E estendeu-a êle, e foi-lhe restituída a mão.

11E êles se encheram de furor e falavam uns com os outros, para ver que fariam de Jesus.

12E aconteceu naqueles dias, que saiu ao monte a orar, e passou tôda a noite em oração a Deus.[3]Em oração a DeusJesus Cristo ensinou com êste exemplo à sua Igreja, que devia preceder uma oração perseverante e fervorosíssima, que isto quer dizer “oração de Deus”, à eleição dos que deviam ocupar os primeiros postos do seu reino sôbre a terra. Sôbe a um monte, como apartando-se da terra e avisinhando-se ao Céu, e dando a entender com isto que devem cessar tôdas as atenções temporais e todos os sentimentos da carne e do sangue, quando se trata de dar ministros à igreja para a conduta espiritual dos povos.

13E quando foi dia, chamou os seus discípulos: E escolheu dentre êles doze que chamou Apóstolos,[4]Que chamou ApóstolosNome que significa “Enviados”, para entendermos ser tão necessária “a missão em que há de exercer o ministério evangélico, sem ela não pode haver na igreja autoridade legítima, e que na igreja não pode haver “missão” legítima, senão a que vem dos sucessores dos Apóstolos. — Duhamel.

14a saber: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro, e André seu irmão, Tiago, e João, Filipe, e Bartolomeu,

15Mateus, e Tomé, Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelador.

16E Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor.

17Descendo depois com êles, parou numa planície, acompanhado da comitiva de seus discípulos e de grande multidão de povo de tôda a Judéia e de Jerusalém e das terras marítimas, assim de Tiro, como de Sidónia.

18Que tinham concorrido a ouví-lo e para que os sarasse das suas enfermidades. E os que eram vexados dos espíritos imundos ficavam sãos.

19E todo o povo fazia diligência por tocá-lo: Pois saía dêle uma virtude, que os curava a todos.

20E levantando êle os olhos para seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós os pobres: Porque vosso é o reino de Deus.

21Bem-aventurados os que agora tendes fome: Porque vós sereis fartos. Bem-aventurados os que agora chorais: Porque vós vos rireis.

22Bem-aventurados sereis quando os homens vos aborrecerem, e quando vos separarem, e carregarem de injúrias, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem.

23Folgai naquele dia, e exultai: Porque olhai, grande é o vosso galardão no Céu: Porque desta maneira tratavam aos profetas os pais dêles.

24Mas ai de vós os que sois ricos, porque tendes a vossa consolação.[5]Tendes a vossa consolaçãoNeste mundo. Isto foi o que respondeu Abraão ao rico avarento, que lhe pedia lhe enviasse a Lázaro, para que lhe moderasse e refrigerasse a ardente sêde que o atormentava: “Filho, recebeste bens na tua vida”.

Daqui podem aprender os ricos quanto lhes não convém não pôr o seu coração nas riquezas: “As riquezas, se abundarem, não ponhais o coração”. Sl 61, 11. Do contrário se acharão à hora da morte sem merecimentos e sem riquezas: “Dormirão o seu sono, e nada acharão nas suas mãos todos os varões das riquezas.” Sl 75. Cfr. Ecl 31, 1-8; Am 6, 1.

25Ai de vós os que estais fartos: Porque vireis a ter fome. Ai de vós os que agora rides: Porque gemereis e chorareis.[6]Ai de vós os que estais fartosCfr. Is 65, 13.

26Ai de vós, quando vos louvarem os homens: Porque assim faziam os falsos profetas aos pais dêles.

27Mas digo-vos a vós outros, que me ouvis: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio.

28Dizei bem dos que dizem mal de vós, e orai pelos que vos caluniam.

29E ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não defendas levar também a túnica.

30E dá a todo aquêle que te pedir: E ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir.

31E o que quereis que vos façam a vós os homens, isso mesmo fazei vós a êles.

32E se vós amais aos que vos amam, que merecimento é o que vós tereis? porque os pecadores também amam aos que os amam a êles.

33E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que merecimento é o que vós tereis? porque isto mesmo fazem os pecadores.

34E se vós emprestardes àqueles, de quem esperais receber, que merecimento é o que vós tereis? porque também os pecadores emprestam uns aos outros, para que se lhes faça outrotanto.

35Amai pois a vossos inimigos: Fazei bem, e emprestai, sem daí esperardes nada: E tereis muito avultada recompensa, e sereis filhos do Altíssimo, que faz bem aos mesmos que lhe são ingratos e maus.

36Sêde pois misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.

37Não julgueis, e não sereis julgados: Não condeneis, e não sereis condenados. Perdoai, e sereis perdoados.

38Dai, e dar-se-vos-á: No seio vos meterão uma boa medida, e bem cheia, e bem acalcada, e bem acogulada. Porque qual fôr a medida de que vós usardes para os outros, tal será a que se use para vós.[7]No seioCavidade na parte superior e interior da túnica.

39E pôs-lhe também esta comparação: Pode acaso um cego guiar outro cego? não é assim que um e outro cairão no barranco?

40Não é o discípulo sôbre o mestre: Mas todo o discípulo será perfeito, se o fôr como seu mestre.

41E por que vês tu uma aresta no ôlho de teu irmão, e não reparas na trave, que tens no teu ôlho?

42Ou como podes tu dizer a teu irmão: Deixa-me, irmão, tirar-te do teu ôlho uma aresta. Quando tu não vês que tens no teu uma trave? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu ôlho: E depois verás para tirar a aresta do ôlho de teu irmão.

43Porque não é boa árvore, a que dá frutos maus: Nem má árvore, a que dá bons frutos.

44Porquanto cada árvore é conhecida pelo seu fruto. Porque nem os homens colhem figos dos espinheiros: Nem dos abrolhos vindimam uvas.

45O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem: E o homem mau, do mau tesouro tira o mal. Porque do que está cheio o coração, disso é que fala a bôca.

46Mas por que me chamais vós, Senhor, Senhor: E não fazeis o que eu vos digo?

47Todo o que vem a mim, e ouve as minhas palavras e as põe por obra: Eu vos mostrarei a quem êle é semelhante.

48É semelhante a um homem que edifica uma casa, o qual cavou profundamente e pôs o fundamento sôbre uma rocha: E quando veio uma enchente d’águas, deu impetuosamente a inundação sôbre aquela casa, e não pôde movê-la: Porque estava fundada sôbre rocha.

49Mas o que ouve, e não obra: É semelhante a um homem que fabrica a sua casa sôbre terra levadiça: Na qual bateu com violência a corrente do rio, e logo caiu: E foi grande a ruína daquela casa.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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