Capítulo 6
1E aconteceu um dia de sábado, chamado segundo primeiro, que como passasse pelas searas, os seus discípulos cortavam espigas, e machucando-as nas mãos as comiam.[1]Chamado segundo primeiro — O primeiro sábado depois do segundo dia da Páscoa.
2E alguns dos fariseus lhes diziam: Por que fazeis o que não é lícito nos sábados?
3E respondendo-lhes Jesus, disse: Vós não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome êle, e os que com êle estavam?
4Como entrou na casa de Deus, e tomou os pães da proposição, e comeu dêles, e deu aos que vinham com êle: Sendo assim que não podiam comer dêles, senão só os sacerdotes?
5Disse-lhes mais: O Filho do homem é Senhor também do sábado mesmo.
6E aconteceu que também outro sábado entrou Jesus na Sinagoga, e ensinava. E achava-se ali um homem que tinha ressecada a mão direita.[2]Que também outro sábado — Que se chamava "sábado segundo", pela mesma razão que há pouco explicamos.
7E os escribas, e os fariseus o estavam observando, para ver se curava em sábado: A fim de terem de que o acusar.
8Mas Jesus sabia os pensamentos dêles: E disse para o homem que tinha a mão ressecada: Levanta-te e põe-te em pé no meio. E levantando-se êle, ficou em pé.
9E Jesus lhes disse: Pergunto-vos, se é lícito nos sábados fazer bem, ou mal: Salvar a vida, ou tirá-la?
10Depois correndo a todos com os olhos, disse ao homem: Estende a tua mão. E estendeu-a êle, e foi-lhe restituída a mão.
11E êles se encheram de furor e falavam uns com os outros, para ver que fariam de Jesus.
12E aconteceu naqueles dias, que saiu ao monte a orar, e passou tôda a noite em oração a Deus.[3]Em oração a Deus — Jesus Cristo ensinou com êste exemplo à sua Igreja, que devia preceder uma oração perseverante e fervorosíssima, que isto quer dizer “oração de Deus”, à eleição dos que deviam ocupar os primeiros postos do seu reino sôbre a terra. Sôbe a um monte, como apartando-se da terra e avisinhando-se ao Céu, e dando a entender com isto que devem cessar tôdas as atenções temporais e todos os sentimentos da carne e do sangue, quando se trata de dar ministros à igreja para a conduta espiritual dos povos.
13E quando foi dia, chamou os seus discípulos: E escolheu dentre êles doze que chamou Apóstolos,[4]Que chamou Apóstolos — Nome que significa “Enviados”, para entendermos ser tão necessária “a missão em que há de exercer o ministério evangélico, sem ela não pode haver na igreja autoridade legítima, e que na igreja não pode haver “missão” legítima, senão a que vem dos sucessores dos Apóstolos. — Duhamel.
14a saber: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro, e André seu irmão, Tiago, e João, Filipe, e Bartolomeu,
15Mateus, e Tomé, Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelador.
16E Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor.
17Descendo depois com êles, parou numa planície, acompanhado da comitiva de seus discípulos e de grande multidão de povo de tôda a Judéia e de Jerusalém e das terras marítimas, assim de Tiro, como de Sidónia.
18Que tinham concorrido a ouví-lo e para que os sarasse das suas enfermidades. E os que eram vexados dos espíritos imundos ficavam sãos.
19E todo o povo fazia diligência por tocá-lo: Pois saía dêle uma virtude, que os curava a todos.
20E levantando êle os olhos para seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós os pobres: Porque vosso é o reino de Deus.
21Bem-aventurados os que agora tendes fome: Porque vós sereis fartos. Bem-aventurados os que agora chorais: Porque vós vos rireis.
22Bem-aventurados sereis quando os homens vos aborrecerem, e quando vos separarem, e carregarem de injúrias, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem.
23Folgai naquele dia, e exultai: Porque olhai, grande é o vosso galardão no Céu: Porque desta maneira tratavam aos profetas os pais dêles.
24Mas ai de vós os que sois ricos, porque tendes a vossa consolação.[5]Tendes a vossa consolação — Neste mundo. Isto foi o que respondeu Abraão ao rico avarento, que lhe pedia lhe enviasse a Lázaro, para que lhe moderasse e refrigerasse a ardente sêde que o atormentava: “Filho, recebeste bens na tua vida”.
Daqui podem aprender os ricos quanto lhes não convém não pôr o seu coração nas riquezas: “As riquezas, se abundarem, não ponhais o coração”. Sl 61, 11. Do contrário se acharão à hora da morte sem merecimentos e sem riquezas: “Dormirão o seu sono, e nada acharão nas suas mãos todos os varões das riquezas.” Sl 75. Cfr. Ecl 31, 1-8; Am 6, 1.
25Ai de vós os que estais fartos: Porque vireis a ter fome. Ai de vós os que agora rides: Porque gemereis e chorareis.[6]Ai de vós os que estais fartos — Cfr. Is 65, 13.
26Ai de vós, quando vos louvarem os homens: Porque assim faziam os falsos profetas aos pais dêles.
27Mas digo-vos a vós outros, que me ouvis: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio.
28Dizei bem dos que dizem mal de vós, e orai pelos que vos caluniam.
29E ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não defendas levar também a túnica.
30E dá a todo aquêle que te pedir: E ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir.
31E o que quereis que vos façam a vós os homens, isso mesmo fazei vós a êles.
32E se vós amais aos que vos amam, que merecimento é o que vós tereis? porque os pecadores também amam aos que os amam a êles.
33E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que merecimento é o que vós tereis? porque isto mesmo fazem os pecadores.
34E se vós emprestardes àqueles, de quem esperais receber, que merecimento é o que vós tereis? porque também os pecadores emprestam uns aos outros, para que se lhes faça outrotanto.
35Amai pois a vossos inimigos: Fazei bem, e emprestai, sem daí esperardes nada: E tereis muito avultada recompensa, e sereis filhos do Altíssimo, que faz bem aos mesmos que lhe são ingratos e maus.
36Sêde pois misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.
37Não julgueis, e não sereis julgados: Não condeneis, e não sereis condenados. Perdoai, e sereis perdoados.
38Dai, e dar-se-vos-á: No seio vos meterão uma boa medida, e bem cheia, e bem acalcada, e bem acogulada. Porque qual fôr a medida de que vós usardes para os outros, tal será a que se use para vós.[7]No seio — Cavidade na parte superior e interior da túnica.
39E pôs-lhe também esta comparação: Pode acaso um cego guiar outro cego? não é assim que um e outro cairão no barranco?
40Não é o discípulo sôbre o mestre: Mas todo o discípulo será perfeito, se o fôr como seu mestre.
41E por que vês tu uma aresta no ôlho de teu irmão, e não reparas na trave, que tens no teu ôlho?
42Ou como podes tu dizer a teu irmão: Deixa-me, irmão, tirar-te do teu ôlho uma aresta. Quando tu não vês que tens no teu uma trave? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu ôlho: E depois verás para tirar a aresta do ôlho de teu irmão.
43Porque não é boa árvore, a que dá frutos maus: Nem má árvore, a que dá bons frutos.
44Porquanto cada árvore é conhecida pelo seu fruto. Porque nem os homens colhem figos dos espinheiros: Nem dos abrolhos vindimam uvas.
45O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem: E o homem mau, do mau tesouro tira o mal. Porque do que está cheio o coração, disso é que fala a bôca.
46Mas por que me chamais vós, Senhor, Senhor: E não fazeis o que eu vos digo?
47Todo o que vem a mim, e ouve as minhas palavras e as põe por obra: Eu vos mostrarei a quem êle é semelhante.
48É semelhante a um homem que edifica uma casa, o qual cavou profundamente e pôs o fundamento sôbre uma rocha: E quando veio uma enchente d’águas, deu impetuosamente a inundação sôbre aquela casa, e não pôde movê-la: Porque estava fundada sôbre rocha.
49Mas o que ouve, e não obra: É semelhante a um homem que fabrica a sua casa sôbre terra levadiça: Na qual bateu com violência a corrente do rio, e logo caiu: E foi grande a ruína daquela casa.