Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 18

A parábola do juiz iníquo. Importa ser perseverante em orar. Parábola do fariseu, e do publicano. Acolhe Jesus os meninos. Só Deus é bom. O que guarda os seus mandamentos, salva-se. Entristece-se um rico, por lhe aconselhar o Senhor que deixe tudo. Quão dificultoso seja entrar um rico no Céu. Prémio dos que tudo deixam por amor de Deus. Prediz o Senhor a sua morte. Cura um cego perto de Jericó.

1E propôs-lhes também Jesus esta parábola, para mostrar que importa orar sempre, e não cessar de o fazer,

2dizendo: Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava os homens.

3Havia também na mesma cidade uma viúva, que costumava vir buscá-lo, dizendo: Sustenta o meu direito contra o que contende comigo.

4E êle por muito tempo lhe não quis deferir. Mas por último disse lá consigo: Ainda que eu não temo a Deus, nem respeito os homens,

5todavia como esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, para que por fim não suceda que vindo ela muitas vezes me carregue de afrontas.[1]Me carregue de afrontasO verbo, que o texto grego aqui põe, significa propriamente, dar na cara. E esta era a afronta, que o juiz temia. — Sacy e Duhamel.

6Então disse o Senhor: Ouvi o que diz êste juiz iníquo:

7E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que estão clamando a êle de dia e de noite, e sofrerá êle que os oprimam?

8Digo-vos que êle os vingará bem depressa. Mas quando vier o Filho do homem, julgais vós que achará êle alguma fé na terra?[2]Que achará êle alguma fé na terra?A saber, entre os judeus incrédulos. Santo Agostinho e o Venerável Beda.

9E propôs também esta parábola a uns, que confiavam em si mesmos, como se fôssem justos, e desprezavam aos outros:

10Subiram dois homens ao templo a fazer oração: Um fariseu, e outro publicano.

11O fariseu pôsto em pé, orava lá no seu interior desta forma: Graças te dou, meu Deus, porque não sou como os mais homens: Que são ladrões, uns injustos, uns adúlteros: Como é também êste publicano.[3]Como é também êste publicanoEsta ação de graças vai acompanhada de uma muito refinada soberba: porque olhando a todos os outros como pecadores, parece que só a si se tem pelo mais justo de todos os homens. — Santo Agostinho.

12Jejuo duas vezes na semana: Pago o dízimo de tudo o que tenho.[4]JejuoIsto é, segundas e quintas-feiras, como atesta Santo Epifânio. Êstes jejuns se guardam ainda hoje pelos judeus mais observantes. Os rabinos tinham ordenado êste jejum por três razões: pela ruína do Templo; por haver sido queimada a Lei; e pelas injúrias que se faziam ao nome Santo de Deus. — Pereira.

13O publicano, pelo contrário, pôsto lá de longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao Céu: Mas batia nos peitos, dizendo: Meu Deus, sê propício a mim pecador.[5]O publicanoNo publicano se vê um caráter todo diferente: metido em um canto do Templo, cheio de confusão, de sentimentos da sua própria indignidade, e longe do lugar Santo, onde habitava Deus entre os homens, sem atrever-se a levantar os olhos ao Céu, a quem considerava ofendido, e ferindo o seu peito com mostras de grande dor, arrependimento, e compunção, se contentava com dizer a Deus: Senhor, tende misericórdia de um pecador, tal como eu sou. Vejamos, diz Santo Agostinho, como êsses dois homens representam a sua causa antes o Juiz Soberano das consciências. Um se louva como justo, e acusa com orgulho a todos os outros pecadores; o outro se reconhece réu, e confessa com uma profunda humildade a sua miséria. Ouçamos agora a sentença que se pronuncia: Declaro-vos, diz Jesus Cristo, que o publicano voltou justificado para sua casa, e ao contrário o fariseu, e daqui aprendamos a merecer ser justificados aos olhos de Deus por uma humilde confissão dos nossos pecados.

Pôsto lá de longe — Em algum canto do primeiro átrio do Templo, onde tôda a sorte de pessoas, ainda que fôssem profanas, podiam entrar. 3 Rs 8, 41. E isto por verdadeira humildade, e sentimento da sua indignidade.

14Digo-vos que êste voltou justificado para sua casa, e não o outro: Porque todo o que se exalta, será humilhado: E todo o que se humilha, será exaltado.

15E algumas pessoas lhe traziam também os seus meninos, para êle os tocar; o que vendo os discípulos, repeliram-nos com palavras desabridas.

16Porém Jesus, chamando a si os meninos, disse: Deixai vir a mim os meninos, e não lho embaraceis: Porque dos tais é o reino de Deus.

17Em verdade vos digo: Todo o que não receber o Reino de Deus, como um menino, não entrará nêle.

18Então lhe fez esta pergunta um homem de qualidade, dizendo: Bom Mestre, que devo eu fazer para possuir a vida eterna?

19E Jesus lhe respondeu: Por que me chamas tu bom? ninguém é bom, senão só Deus.

20Tu sabes os mandamentos: Não matarás: Não cometerás adultério: Não furtarás: Não dirás falso testemunho: Honrarás a teu pai e a tua mãe.

21Disse o homem: Todos êstes mandamentos tenho eu guardado desde a minha mocidade.

22O que tendo ouvido Jesus, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa: Vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu, e depois vem, e segue-me.

23Quando êle ouviu isto, se entristeceu, porque era mui rico.

24E Jesus vendo que êle ficara triste, disse: Que dificultosa coisa é entrarem no Reino de Deus os que têm cabedais.[6]Os que têm cabedaisTendo nas riquezas todo o seu coração, e tôda a sua confiança. A regra pois que devemos todos observar, para que os bens temporais nos não sirvam de embaraço para a vida eterna, é a que aponta Santo Agostinho, quando no Livro dos Costumes da Igreja Católica, cap. 21, diz assim: "A regra de usar bem das coisas dêste mundo, que um e outro Testamento nos ensina, consiste em que o homem não ame, nem apeteça algumas delas, pelo que é em si; mas em que as desfrute precisamente, quanto basta para acudir às necessidades e obrigações da vida, e que as desfrute com a parcimônia de quem usa, e não com afeto de quem ama".

25Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus.

26E disseram os que o ouviam: Visto isso, quem é que pode salvar-se?

27Respondeu-lhes Jesus: O que é impossível aos homens, é possível a Deus.

28Então disse Pedro: Eis aqui estamos nós, que deixamos tudo, e te seguimos.

29Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo: Que ninguém há que, uma vez que deixou pelo reino de Deus a casa, ou os pais, ou os irmãos, ou a mulher, ou os filhos,

30logo neste mundo não receba muito mais, e no século futuro a vida eterna.

31Depois tomou Jesus à parte os doze Apóstolos, e lhes disse: Eis aqui vamos para Jerusalém, e tudo o que está escrito pelos profetas tocante ao Filho do homem será cumprido:

32Porque êle será entregue aos gentios, e será escarnecido, e açoitado, e cuspido:

33E depois de o açoitarem, tirar-lhe-ão a vida, e êle ressurgirá ao terceiro dia.

34Mas os Apóstolos nada disto compreenderam, e era para êles êste discurso um segrêdo, e não penetravam coisa alguma do que se lhes dizia.

35Sucedeu, porém, que quando Jesus ia chegando a Jericó, estava sentado à borda da estrada um cego pedindo esmola.

36E ouvindo o tropel da gente que passava, perguntou que era aquilo.

37E responderam-lhe que era Jesus Nazareno que passava.

38No mesmo tempo se pôs êle a bradar, dizendo: Jesus, filho de Davi, tem de mim piedade.

39E os que iam adiante repreendiam-no para que se calasse. Porém êle cada vez gritava mais: Filho de Davi, tem de mim piedade.

40Então Jesus, parando, mandou que lho trouxessem. E quando êle chegou, fez-lhe esta pergunta,

41dizendo: Que queres que te faça? E êle respondeu: Senhor, que eu veja.

42Jesus lhe disse: Vê, a tua fé te salvou.

43E logo imediatamente viu, e o foi seguindo, engrandecendo a Deus. E todo o povo, assim que isto presenciou, deu louvor a Deus.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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