Capítulo 18
1E propôs-lhes também Jesus esta parábola, para mostrar que importa orar sempre, e não cessar de o fazer,
2dizendo: Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava os homens.
3Havia também na mesma cidade uma viúva, que costumava vir buscá-lo, dizendo: Sustenta o meu direito contra o que contende comigo.
4E êle por muito tempo lhe não quis deferir. Mas por último disse lá consigo: Ainda que eu não temo a Deus, nem respeito os homens,
5todavia como esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, para que por fim não suceda que vindo ela muitas vezes me carregue de afrontas.[1]Me carregue de afrontas — O verbo, que o texto grego aqui põe, significa propriamente, dar na cara. E esta era a afronta, que o juiz temia. — Sacy e Duhamel.
6Então disse o Senhor: Ouvi o que diz êste juiz iníquo:
7E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que estão clamando a êle de dia e de noite, e sofrerá êle que os oprimam?
8Digo-vos que êle os vingará bem depressa. Mas quando vier o Filho do homem, julgais vós que achará êle alguma fé na terra?[2]Que achará êle alguma fé na terra? — A saber, entre os judeus incrédulos. Santo Agostinho e o Venerável Beda.
9E propôs também esta parábola a uns, que confiavam em si mesmos, como se fôssem justos, e desprezavam aos outros:
10Subiram dois homens ao templo a fazer oração: Um fariseu, e outro publicano.
11O fariseu pôsto em pé, orava lá no seu interior desta forma: Graças te dou, meu Deus, porque não sou como os mais homens: Que são ladrões, uns injustos, uns adúlteros: Como é também êste publicano.[3]Como é também êste publicano — Esta ação de graças vai acompanhada de uma muito refinada soberba: porque olhando a todos os outros como pecadores, parece que só a si se tem pelo mais justo de todos os homens. — Santo Agostinho.
12Jejuo duas vezes na semana: Pago o dízimo de tudo o que tenho.[4]Jejuo — Isto é, segundas e quintas-feiras, como atesta Santo Epifânio. Êstes jejuns se guardam ainda hoje pelos judeus mais observantes. Os rabinos tinham ordenado êste jejum por três razões: pela ruína do Templo; por haver sido queimada a Lei; e pelas injúrias que se faziam ao nome Santo de Deus. — Pereira.
13O publicano, pelo contrário, pôsto lá de longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao Céu: Mas batia nos peitos, dizendo: Meu Deus, sê propício a mim pecador.[5]O publicano — No publicano se vê um caráter todo diferente: metido em um canto do Templo, cheio de confusão, de sentimentos da sua própria indignidade, e longe do lugar Santo, onde habitava Deus entre os homens, sem atrever-se a levantar os olhos ao Céu, a quem considerava ofendido, e ferindo o seu peito com mostras de grande dor, arrependimento, e compunção, se contentava com dizer a Deus: Senhor, tende misericórdia de um pecador, tal como eu sou. Vejamos, diz Santo Agostinho, como êsses dois homens representam a sua causa antes o Juiz Soberano das consciências. Um se louva como justo, e acusa com orgulho a todos os outros pecadores; o outro se reconhece réu, e confessa com uma profunda humildade a sua miséria. Ouçamos agora a sentença que se pronuncia: Declaro-vos, diz Jesus Cristo, que o publicano voltou justificado para sua casa, e ao contrário o fariseu, e daqui aprendamos a merecer ser justificados aos olhos de Deus por uma humilde confissão dos nossos pecados.
Pôsto lá de longe — Em algum canto do primeiro átrio do Templo, onde tôda a sorte de pessoas, ainda que fôssem profanas, podiam entrar. 3 Rs 8, 41. E isto por verdadeira humildade, e sentimento da sua indignidade.
14Digo-vos que êste voltou justificado para sua casa, e não o outro: Porque todo o que se exalta, será humilhado: E todo o que se humilha, será exaltado.
15E algumas pessoas lhe traziam também os seus meninos, para êle os tocar; o que vendo os discípulos, repeliram-nos com palavras desabridas.
16Porém Jesus, chamando a si os meninos, disse: Deixai vir a mim os meninos, e não lho embaraceis: Porque dos tais é o reino de Deus.
17Em verdade vos digo: Todo o que não receber o Reino de Deus, como um menino, não entrará nêle.
18Então lhe fez esta pergunta um homem de qualidade, dizendo: Bom Mestre, que devo eu fazer para possuir a vida eterna?
19E Jesus lhe respondeu: Por que me chamas tu bom? ninguém é bom, senão só Deus.
20Tu sabes os mandamentos: Não matarás: Não cometerás adultério: Não furtarás: Não dirás falso testemunho: Honrarás a teu pai e a tua mãe.
21Disse o homem: Todos êstes mandamentos tenho eu guardado desde a minha mocidade.
22O que tendo ouvido Jesus, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa: Vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu, e depois vem, e segue-me.
23Quando êle ouviu isto, se entristeceu, porque era mui rico.
24E Jesus vendo que êle ficara triste, disse: Que dificultosa coisa é entrarem no Reino de Deus os que têm cabedais.[6]Os que têm cabedais — Tendo nas riquezas todo o seu coração, e tôda a sua confiança. A regra pois que devemos todos observar, para que os bens temporais nos não sirvam de embaraço para a vida eterna, é a que aponta Santo Agostinho, quando no Livro dos Costumes da Igreja Católica, cap. 21, diz assim: "A regra de usar bem das coisas dêste mundo, que um e outro Testamento nos ensina, consiste em que o homem não ame, nem apeteça algumas delas, pelo que é em si; mas em que as desfrute precisamente, quanto basta para acudir às necessidades e obrigações da vida, e que as desfrute com a parcimônia de quem usa, e não com afeto de quem ama".
25Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus.
26E disseram os que o ouviam: Visto isso, quem é que pode salvar-se?
27Respondeu-lhes Jesus: O que é impossível aos homens, é possível a Deus.
28Então disse Pedro: Eis aqui estamos nós, que deixamos tudo, e te seguimos.
29Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo: Que ninguém há que, uma vez que deixou pelo reino de Deus a casa, ou os pais, ou os irmãos, ou a mulher, ou os filhos,
30logo neste mundo não receba muito mais, e no século futuro a vida eterna.
31Depois tomou Jesus à parte os doze Apóstolos, e lhes disse: Eis aqui vamos para Jerusalém, e tudo o que está escrito pelos profetas tocante ao Filho do homem será cumprido:
32Porque êle será entregue aos gentios, e será escarnecido, e açoitado, e cuspido:
33E depois de o açoitarem, tirar-lhe-ão a vida, e êle ressurgirá ao terceiro dia.
34Mas os Apóstolos nada disto compreenderam, e era para êles êste discurso um segrêdo, e não penetravam coisa alguma do que se lhes dizia.
35Sucedeu, porém, que quando Jesus ia chegando a Jericó, estava sentado à borda da estrada um cego pedindo esmola.
36E ouvindo o tropel da gente que passava, perguntou que era aquilo.
37E responderam-lhe que era Jesus Nazareno que passava.
38No mesmo tempo se pôs êle a bradar, dizendo: Jesus, filho de Davi, tem de mim piedade.
39E os que iam adiante repreendiam-no para que se calasse. Porém êle cada vez gritava mais: Filho de Davi, tem de mim piedade.
40Então Jesus, parando, mandou que lho trouxessem. E quando êle chegou, fez-lhe esta pergunta,
41dizendo: Que queres que te faça? E êle respondeu: Senhor, que eu veja.
42Jesus lhe disse: Vê, a tua fé te salvou.
43E logo imediatamente viu, e o foi seguindo, engrandecendo a Deus. E todo o povo, assim que isto presenciou, deu louvor a Deus.