Capítulo 2
1E aconteceu naqueles dias que saiu um edito emanado de César Augusto para que fôsse alistado todo o mundo.[1]Edito de César Augusto — Nenhum texto dos Evangelhos oferece tantas dificuldades como êste e o versículo segundo. Strauss negava a realidade dêste edito promulgado por César Augusto. Reuss vai mais além: "Está assente que no reinado de Augusto não houve recenseamento geral de todo o império". Não obstante estas afirmações categóricas da escola racionalista, nós podemos dizer, em face de documentos, que Augusto publicou um edito para recensear todo o império, não só os habitantes da Itália, mas todos os das províncias incorporadas e todos os reinos aliados dos romanos, como a Judéia.
2Êste primeiro recenseamento foi feito por Cirino, governador da Síria:[2]Cirino — É o outro ponto de que se servem os adversários quando querem atacar a veracidade do Evangelho de S. Lucas. Resolvem a objeção que os racionalistas aduzem do fato de Quirino ter sido procurador da Síria no ano 6 ou 7 da era vulgar, os exegetas, apresentando dois sistemas de interpretação: um gramatical, procurando no texto original a interpretação; o segundo sistema distingue dois recenseamentos, terminado o último no tempo de Cirino.
3E iam todos a alistar-se cada um à sua cidade.
4E subiu também José de Galiléia, da cidade de Nazaré à Judéia, à cidade de Davi, que se chamava Belém: Porque era da casa e família de Davi,
5para se alistar com a sua espôsa Maria, que estava pejada.
6E estando ali aconteceu completarem-se os dias em que havia de dar à luz.
7E deu à luz a seu filho primogénito, e o enfaixou e o reclinou em uma mangedoura: Porque não havia lugar para êles na estalagem.[3]Primogénito — Os hebreus davam esta denominação ao primeiro filho.
ESTALAGEM — Esta palavra não deve ser entendida no sentido moderno e vulgar, mas sim na acepção de abrigo. Na Palestina eram frequentes as grutas naturais, por causa dos acidentes de terreno calcáreo, onde se abrigavam homens e animais.
8Ora, naquela mesma comarca havia uns pastores que vigiavam e revesavam entre si as vigílias da noite para guardarem o seu rebanho.
9E eis que se apresentou junto deles um anjo do Senhor, e com uma luz divina os cercou de refulgente luz, e tiveram grande temor.
10Porém o anjo lhes disse: Não temais: Porque eis aqui vos venho anunciar um grande gôzo, que o será para todo o povo:
11E é que hoje vos nasceu na cidade de Davi o Salvador, que é o Cristo Senhor.
12E êste é o sinal que vo-lo fará conhecer: Achareis um menino envolto em panos, e posto em uma mangedoura.
13E sùbitamente apareceu com o anjo uma multidão numerosa da milícia celestial, que louvavam a Deus, e diziam:
14Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na terra aos homens de boa vontade.
15E aconteceu que depois que os anjos se retiraram deles para o Céu: Falaram entre si os pastores, dizendo: Passemos até Belém, e vejamos que é isto que sucedeu, que é o que o Senhor nos mostrou.
16E foram com grande pressa: E acharam a Maria, e a José, e ao menino posto em uma mangedoura.
17E vendo isto conheceram a verdade do que se lhes havia dito acerca dêste menino.
18E todos os que o ouviram se admiraram: E também do que lhes haviam referido os pastores.
19Entretanto Maria conservava tôdas estas coisas, conferindo lá no fundo do seu coração umas com outras.
20E os pastores voltaram glorificando, e louvando a Deus, por tudo o que tinham ouvido e visto, que era conforme ao que se lhes tinha dito.
21E depois que foram cumpridos os oito dias para ser circuncidado o menino: Foi-lhe pôsto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes que fôsse concebido no ventre de sua mãe.[4]Para ser circuncidado — A circuncisão foi naturalmente feita por S. José. No côro da basílica da Natividade, em Belém, ao sul do altar-mor, onde está a gruta em que nasceu Jesus Cristo, está o altar da circuncisão no sítio onde a tradição, mencionada já por S. Epifânio, localiza esta cerimónia.
22E depois que foram concluídos os dias da purificação de Maria, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor,[5]Segundo a lei de Moisés — A mesma razão que obrigou ao Senhor a mostrar-se em traje de pecador, sujeitando-se à lei da circuncisão, obrigou também a Maria a que parecesse impura, ao sujeitar-se à da purificação, abatendo com êste raro exemplo de humildade a soberba dos que, sendo pecadores, impuros e rebeldes, querem ganhar o conceito de bons, limpos e irrepreensíveis. As cerimónias que nesta ocasião se observam, se podem ler no Lev 12, 2. 15.
23segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o filho macho, que fôr primogénito, será consagrado ao Senhor:[6]Que fôr primogénito — Isto quer dizer precisamente a frase hebraica, ada periens vulvam, que S. Lucas alegou do livro do Êxodo.
24E para oferecerem em sacrifício, conforme ao que está mandado na lei do Senhor: Um par de rôlas ou dois pombinhos.
25E havia então em Jerusalém um homem chamado Simeão, e êste homem justo e timorato esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele.[7]Simeão — Conjetura-se que era filho do famoso doutor judaico Hilel, e pai de Gamaliel, de quem se fala nos At 22, 3.
26E havia recebido resposta do Espírito Santo, que êle não veria a morte sem ver primeiro ao Cristo do Senhor.
27E veio por espírito ao templo. E trazendo os pais ao menino Jesus, para cumprirem com o preceito, segundo o costume da lei por êle:
28Então o tomou em seus braços Simeão, e louvou a Deus, e disse:
29Agora é, Senhor, que tu despedes ao teu servo em paz, segundo a tua palavra:[8]Despedes ao teu servo — Como se dissera: Agora não me fica já que ver, nem que esperar neste mundo: agora podeis já desatar ao vosso servo, e romper os laços que o detêm aqui, para que livremente possa ir a gozar da paz e repouso dos justos.
30Porque já os meus olhos viram o Salvador que tu nos deste.
31O qual aparelhaste ante a face de todos os povos:
32Como lume para ser revelado aos gentios, e para glória do teu povo de Israel.
33E seu pai e mãe estavam admirados daquelas coisas que dêle diziam.
34E Simeão os abençoou, e disse para Maria sua mãe: Eis aqui está pôsto êste menino para ruína, e para salvação de muitos em Israel: E para ser o alvo a que atire a contradição:[9]Para ruína — S. Pedro na sua primeira carta, cap. II, decifra belamente o sentido desta profecia, quando, falando de Jesus Cristo, diz assim: Para vós, que crêdes, será êle honra, mas para os que não crêem, será pedra de escândalo. — Pereira.
35E será esta uma espada que traspassará a tua mesma alma, a fim de se descobrirem os pensamentos que muitos terão escondidos nos corações.
36E havia uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser: Esta havia já chegado a uma idade muito avançada, e tinha vivido sete anos com seu marido, desde a sua virgindade.[10]Desde a sua virgindade — Desde que se casou. É frase hebraica, que significa ter sido casada sete anos. — Pereira.
37Achava-se esta então viúva, de idade de oitenta e quatro anos: Ela não se apartava do templo, onde servia a Deus de dia, e de noite, em jejuns, e orações.
38Ela pois sobrevindo nesta mesma ocasião, dava graças a Deus: E falava dêle a todos os que esperavam a redenção de Israel.
39E depois que êles deram fim a tudo, segundo o que mandava a Lei do Senhor, voltaram a Galiléia para a sua cidade de Nazaré.
40Entretanto o menino crescia, e se fortificava, estando cheio de sabedoria: E a graça de Deus era com êle.
41E seus pais iam todos os anos a Jerusalém no dia solene da Páscoa.
42E quando teve doze anos, subindo êles a Jerusalém, segundo o costume do dia da festa,
43e acabados os dias que ela durava, quando voltaram para casa, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o advertissem.
44E crendo que êle viria com os da comitiva, andaram caminho de um dia, e o buscavam entre os parentes e conhecidos.[11]O buscavam — A tradição cristã refere a localidade moderna El-Bireh (o Beeroth bíblico), o lugar em que Maria deu pela falta de seu divino Filho. Em memória do fato construiu-se uma igreja, de que só resta a abside e um muro setentrional.
45E como o não achassem, voltaram a Jerusalém em busca dêle.
46E aconteceu que três dias depois o acharam no templo, assentado no meio dos doutôres, ouvindo-os, e fazendo-lhes perguntas.
47E todos os que o ouviam, estavam pasmados da sua inteligência, e das suas respostas.
48E quando o viram se admiraram. E sua mãe lhe disse: Filho, por que usaste assim conosco? Sabe que teu pai e eu te andávamos buscando cheios de aflição.
49E êle lhes respondeu: Para que me buscáveis? não sabíeis que importa ocupar-me nas coisas que são do serviço de meu Pai?
50Mas êles não entenderam a palavra que lhes disse.
51E desceu com êles, e veio a Nazaré, e obedecia-lhes. E sua mãe conservava tôdas estas palavras no seu coração.
52E Jesus crescia em sabedoria, e em idade, e em graça diante de Deus e dos homens.[12]Crescia em sabedoria e em idade — Jesus, enquanto homem, tendo as mesmas faculdades e aptidões como nós, e achando-se neste mundo em condições análogas às nossas, via como nós vemos, formava as mesmas idéias e adquiria a mesma ciência, que manifestava gradualmente. Esta ciência era para Jesus a consequência natural da condição em que se encontrava, desde que assumira a natureza humana, dando sinais dela, progredindo, interrogando, admirando-se, etc.