Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 20

Querem os sacerdotes e doutores da Lei saber donde tem Jesus Cristo a autoridade. Êle os faz emudecer com outra pergunta. A parábola dos que tomaram uma vinha de renda. Deve-se pagar o tributo a César. Êrro dos saduceus refutado. Chama Davi seu Senhor ao Messias. O orgulho dos doutores da Lei. Quer Jesus que haja dêles cautela.

1E aconteceu um daqueles dias que, estando Jesus no templo ensinando ao povo, e anunciando o Evangelho, se ajuntaram os príncipes dos sacerdotes, e os escribas com os anciãos.

2E falaram-lhe nestes têrmos: Dize-nos, com que autoridade fazes tu estas coisas? ou: Quem é que te deu êste poder?

3E respondendo Jesus, lhes disse: Também eu vos farei uma pergunta. Respondei-me:

4O batismo de João era do Céu ou era dos homens?

5Mas êles discorriam dentro de si, dizendo: Se dissermos que era do Céu, dirá: Por que razão logo não crestes nele?

6E se dissermos que era dos homens, todo o povo nos apedrejará: Porque êles têm por certo que João era um profeta.

7Responderam pois que não sabiam donde era.

8Disse-lhes então Jesus: Pois nem eu vos direi com que autoridade faço estas coisas.

9E começou a dizer ao povo esta parábola: Um homem plantou uma vinha, e arrendou-a a uns fazendeiros: E êle estêve ausente por muitos tempos.

10E em uma ocasião enviou um dos seus servos aos fazendeiros, para que lhe dessem do fruto da vinha. Êles, depois de o ferirem, recambiaram-no sem coisa alguma.

11E tornou a enviar outro servo. Mas êles, ferindo também a êste, e carregando-o de afrontas, o despediram vazio.

12Tornou a enviar ainda terceiro: êles, ferindo também a êste, o deitaram fora.

13Disse então o senhor da vinha: Que hei de fazer? Mandarei meu filho amado: Sem dúvida que quando o virem, lhe guardarão respeito.

14Quando os fazendeiros o viram, discorreram entre si, dizendo: Êste é o herdeiro, matemo-lo, para fazer nossa a herança.

15E lançando-o fora da vinha, o mataram. Que lhes fará pois o senhor da vinha?

16Virá e acabará de todo com aqueles fazendeiros, e dará a vinha a outros. O que ouvindo êles, lhe disseram: Deus tal não permita.[1]Deus tal não permitaIsto é, que nós sejamos como foram os da vinha. Em S. Mateus, 21, 41, depois dos judeus ouvirem a parábola, perguntou-lhes Jesus, que devia fazer o Senhor àqueles péssimos rendeiros? Responderam, que devia acabar com êles, e dar a vinha a outros. Parece agora de S. Lucas, que Jesus aprovara a resposta dos judeus, mas que ao mesmo tempo lhes dera a entender, com algum gesto, que êles eram os mesmos, de quem se verificava a parábola. Ao que êles disseram: Deus tal não permita. E o Senhor os convenceu, alegando a profecia de Davi, que lemos no verso 17. — Duhamel.

17E êle olhando para êles, disse: Pois que quer dizer isto que está escrito: A pedra, que desprezaram os edificadores, esta veio a ser a principal do ângulo?

18Todo o que cair sôbre aquela pedra, ficará quebrantado: E sôbre quem ela cair, será feito em migalhas.

19E os príncipes dos sacerdotes, e os escribas lhe desejavam lançar as mãos naquela hora: Mas temeram ao povo: E isto porque entenderam que contra êles havia proposto esta parábola.

20Com o ôlho pois nele mandaram espias, que se disfarçassem em homens de bem, para o apanharem no que dizia, a fim de o entregarem à jurisdição e poder do governador.

21Êstes pois lhe fizeram uma pergunta, dizendo: Mestre, sabemos que falas e ensinas retamente: E que não fazes acepção de pessoas, mas que ensinas o caminho de Deus em verdade:

22É-nos permitido dar o tributo a César, ou não?

23E entendendo Jesus a astúcia dêles, lhes disse: Por que me tentais?

24Mostrai-me cá um dinheiro: De quem é a imagem e a inscrição que tem? Respondendo êles, lhe disseram: De César.

25Então lhes disse o Senhor: Pagai logo a César o que é de César: E a Deus o que é de Deus.

26E não puderam repreender as suas palavras diante do povo: Antes, admirados da sua resposta, se calaram.

27Chegaram depois alguns dos saduceus, que dizem que não há ressurreição, e lhe fizeram esta pergunta,

28dizendo: Mestre, Moisés nos deixou escrito: Se morrer o irmão de algum, tendo mulher, e êste não deixar filhos, que se case com ela o irmão do tal, e dê sucessão a seu irmão.

29Havia pois sete irmãos: O primeiro dos quais casou, e morreu sem filhos.

30Casou também o segundo com a viúva, e morreu sem filho.

31Casou depois com ela o terceiro. E assim sucessivamente todos os sete, os quais também morreram sem deixar sucessão.

32Morreu enfim também a mulher depois de todos êles.

33Quando fôr pois a ressurreição, de qual dêles será ela mulher? Pois que o foi de todos os sete.

34E Jesus lhes disse: Os filhos dêste século casam homens com mulheres, e mulheres com homens:

35Mas os que forem julgados dignos daquele século, e da ressurreição dos mortos, nem os homens desposarão mulheres, nem as mulheres homens:[2]Os que forem julgadosDignos da outra vida, e de uma ressurreição gloriosa, a qual nas Escrituras se compara a um segundo nascimento. Que por isso S. Paulo nos Atos dos Apóstolos, 13, 33, entendeu da Ressurreição de Jesus Cristo aquêle verso de Davi: Ex utero ante luciferum genui te: Eu te gerei antes da aurora. — Calmet.

36Porque não poderão jamais morrer: Porquanto são iguais aos Anjos, e são filhos de Deus: Visto serem filhos da ressurreição.

37E que os mortos hajam de ressuscitar, o mostrou também Moisés ao pé da sarça, quando chamou ao Senhor o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó.

38Ora, Deus não o é de mortos, mas de vivos: Porque todos vivem para êle.

39E respondendo alguns dos escribas, lhe disseram: Mestre, disseste bem.

40E dali em diante não se atreveram mais a fazer-lhe pergunta alguma.

41Mas Jesus lhes disse: Como dizem que o Cristo é filho de Davi?

42Porque Davi mesmo no livro dos Salmos diz: Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha mão direita,

43até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés.

44Logo Davi lhe chama Senhor: Pois como é êle seu filho?

45Estando-o porém ouvindo todo o povo, disse Jesus a seus discípulos:

46Guardai-vos dos escribas, que querem andar com roupas talares, e gostam de ser saudados nas praças, e das primeiras cadeiras nas Sinagogas, e dos primeiros assentos nos banquetes:

47Que devoram as casas das viúvas, fingindo largas orações. Êstes tais receberão maior condenação.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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