Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 13

Os galileus, que Pilatos mandou matar, estando êles oferecendo sacrifícios. A ruína da tôrre de Siloé. A necessidade, que há de fazer penitência. A figueira sem fruto. Cura da mulher acurvada. O reino do Céu comparado ao grão de mostarda, e ao fermento. A porta estreita. Não deixa Jesus por mêdo de Herodes de prosseguir a sua obra. Jerusalém ficará arrasada, por dar a morte aos profetas.

1Ora neste mesmo tempo estavam ali uns que lhe davam notícia de certos galileus, cujo sangue misturara Pilatos com o dos sacrifícios deles.[1]DêlesIsto é, dêles mesmos galileus. Supõe-se que Pilatos os mandara matar no mesmo ato dos seus sacrifícios; ou por quererem impedir que se oferecessem vítimas pela saúde do imperador, ou por serem daqueles que diziam não estarem sujeitos a César, para lhe reconhecerem domínio, e pagarem tributo. At 5, 37. — Pereira.

2E Jesus respondendo lhes disse: Vós cuidais que aquêles galileus eram maiores pecadores que todos os outros de Galiléia, por haverem padecido tão cruel morte?

3Não eram, eu vo-lo declaro: Mas se vós outros não fizerdes penitência, todos assim mesmo haveis de acabar.

4Assim como também no tocante àqueles dezoito homens, sôbre os quais caiu a tôrre de Siloé, e os matou: Cuidais vós que êles também foram mais devedores que tôdas as pessoas moradoras em Jerusalém?

5Não, vo-lo declaro: Mas se vós outros não fizerdes penitência, todos acabareis da mesma sorte.

6E dizia também esta semelhança: Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi a buscar fruto nela, e não o achou.[2]Um homemEsta figueira representa a nação dos judeus, na qual buscou o Senhor largo tempo o fruto das suas obras, sem havê-lo jamais achado. Jesus Cristo representado pelo que cuidava da vinha, não deixou meio de cultivá-la com o maior esmêro durante a sua vida mortal, exortando-os e pregando-lhes continuamente, e obrando em benefício seu infinitas maravilhas; porém como não se aproveitaram destas instruções e avisos, foram últimamente arrojados da terra em que Deus os havia estabelecido. Esta parábola se aplica também aos pecadores.

7Pelo que disse ao que cultivava a vinha: Olha, três anos há que venho buscar fruto a esta figueira, e não o acho: Corta-a pois pelo pé: Para que está ela ainda ocupando a terra?

8Mas êle respondendo, lhe disse: Senhor, deixa-a ainda êste ano, enquanto eu a escavo em roda, e lhe lanço estêrco:

9E se com isto der fruto, bem está: E se não, virás a cortá-la depois.

10E estava Jesus ensinando na Sinagoga deles nos sábados.

11E eis que veio ali uma mulher, que estava possessa dum espírito, que a tinha doente havia dezoito anos: E andava ela encurvada, e não podia absolutamente olhar para cima.

12Vendo-a Jesus, chamou-a a si, e disse-lhe: Mulher, estás livre do teu mal.

13E pôs sôbre ela as mãos, e no mesmo instante ficou direita, e glorificava a Deus.

14Mas entrando a falar o príncipe da Sinagoga, indignado de ver que Jesus fazia curas em dia de sábado, disse para o povo: Seis dias estão destinados para trabalhar: Vinde pois nestes a ser curados, e não em dia de sábado.

15Mas o Senhor respondendo, lhe disse: Hipócritas, não desprende cada um de vós nos sábados o seu boi, ou o seu jumento, e não os tira da estrebaria, para os levar a beber?

16Por que razão logo se não devia livrar dêste cativeiro em dia de sábado esta filha de Abraão, que satanás tinha assim presa do modo que vêdes havia dezoito anos?

17E dizendo êle estas palavras, se envergonhavam todos os seus adversários: Mas alegrava-se todo o povo, de tôdas as ações que por êle eram obradas com tanta glória.

18Dizia pois: A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei eu?

19É semelhante ao grão de mostarda, que um homem tomou e semeou na sua horta, e que cresceu até se fazer uma grande árvore: E as aves do Céu repousaram nos seus ramos.

20E disse outra vez: A que direi que o reino de Deus é semelhante?

21Semelhante é ao fermento, que tomou uma mulher, e o escondeu dentro de três medidas de farinha, até que ficasse lêveda tôda a massa.

22E ia pelas cidades, e aldeias ensinando, e caminhando para Jerusalém.

23E perguntou-lhe um: Senhor, é assim que são poucos os que se salvam? E êle lhes disse:[3]E êle lhes disseDeve notar-se que a pergunta foi de um só quidam, e o Senhor dirige a resposta a muitos: Dixit ad illos. Quiçá para mostrar que a pergunta feita por vã curiosidade, não merecia resposta; porém quis dela tomar ocasião o Senhor para dar a todos uma lição importante.

24Porfiai a entrar pela porta estreita: Porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão.[4]Porfiai a entrarO Senhor não responde diretamente à sua curiosa e inútil pergunta, sòmente lhes dá a entender que são poucos, e que êles deviam procurar com o maior esfôrço ser do número dêstes poucos. — Bossuet.

Muitos procurarão entrar — Terão um cego e estéril desejo de bem-aventurança, porém não a constância e firmeza que convém para andar por um caminho tão estreito. Jo 7, 54; 8, 21; 13, 33; Rom 9, 31.

25E quando o pai de família tiver entrado, e fechado a porta, vós outros estareis de fora, e começareis a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos: E êle vos responderá, dizendo: Não sei donde vós sois:

26Então começareis vós a dizer: Nós somos aqueles que em tua presença comemos, e bebemos, e a quem tu ensinaste nas nossas praças.

27E êle vos responderá: Não sei donde vós sois: Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniqüidade.

28Ali será o chôro, e o ranger dos dentes: Quando virdes que Abraão, Isaac, e Jacó, e todos os profetas estão no Reino de Deus, e que vós ficais fora dêle excluídos.

29E virão do oriente, e do ocidente, e do setentrião, e do meio-dia muitos que se sentarão à mesa no Reino de Deus.

30E então os que são os últimos, serão os primeiros, e os que são os primeiros, serão os últimos.

31No mesmo dia chegaram alguns dos fariseus a Jesus, dizendo-lhe: Sai, e vai-te daqui: Porque Herodes te quer matar.

32E êle lhes respondeu: Ide, e dizei a êsse raposo: Que bem se vê que eu lanço fora demônios, e faço perfeitas curas, hoje, e amanhã, e que ao terceiro dia vou a ser consumado.[5]Vou a ser consumadoDizei-lhe: Que forme contra a minha vida os desígnios que quiser, porque eu devo empregar ainda algum tempo no meu ministério, que é dar saúde espiritual e temporal, e fazer bem a todo o mundo, e pregar o Reino de Deus, e, passado êste tempo, consumarei ou acabarei o meu sacrifício com a morte.

33Importa contudo caminhar eu ainda hoje e amanhã, e depois de amanhã: Porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém.[6]Porque não convémO grego tem: "Não é possível". Assim lança Jesus Cristo em rosto a Jerusalém a crueldade e ingratidão que ela usara com quase todos os profetas, dando-lhes a morte. Não é bem, diz o Senhor para a motejar, que o profeta por excelência morra fora de Jerusalém, onde morreram pela maior parte todos os mais profetas.

34Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que a ti são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, bem como uma ave recolhe os do seu ninho debaixo das asas, e tu não quiseste?

35Eis aí vos será deixada deserta a vossa casa. E digo-vos, que não me vereis até que venha o tempo em que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

📄 PDF
📄 Original