Capítulo 13
1Ora neste mesmo tempo estavam ali uns que lhe davam notícia de certos galileus, cujo sangue misturara Pilatos com o dos sacrifícios deles.[1]Dêles — Isto é, dêles mesmos galileus. Supõe-se que Pilatos os mandara matar no mesmo ato dos seus sacrifícios; ou por quererem impedir que se oferecessem vítimas pela saúde do imperador, ou por serem daqueles que diziam não estarem sujeitos a César, para lhe reconhecerem domínio, e pagarem tributo. At 5, 37. — Pereira.
2E Jesus respondendo lhes disse: Vós cuidais que aquêles galileus eram maiores pecadores que todos os outros de Galiléia, por haverem padecido tão cruel morte?
3Não eram, eu vo-lo declaro: Mas se vós outros não fizerdes penitência, todos assim mesmo haveis de acabar.
4Assim como também no tocante àqueles dezoito homens, sôbre os quais caiu a tôrre de Siloé, e os matou: Cuidais vós que êles também foram mais devedores que tôdas as pessoas moradoras em Jerusalém?
5Não, vo-lo declaro: Mas se vós outros não fizerdes penitência, todos acabareis da mesma sorte.
6E dizia também esta semelhança: Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi a buscar fruto nela, e não o achou.[2]Um homem — Esta figueira representa a nação dos judeus, na qual buscou o Senhor largo tempo o fruto das suas obras, sem havê-lo jamais achado. Jesus Cristo representado pelo que cuidava da vinha, não deixou meio de cultivá-la com o maior esmêro durante a sua vida mortal, exortando-os e pregando-lhes continuamente, e obrando em benefício seu infinitas maravilhas; porém como não se aproveitaram destas instruções e avisos, foram últimamente arrojados da terra em que Deus os havia estabelecido. Esta parábola se aplica também aos pecadores.
7Pelo que disse ao que cultivava a vinha: Olha, três anos há que venho buscar fruto a esta figueira, e não o acho: Corta-a pois pelo pé: Para que está ela ainda ocupando a terra?
8Mas êle respondendo, lhe disse: Senhor, deixa-a ainda êste ano, enquanto eu a escavo em roda, e lhe lanço estêrco:
9E se com isto der fruto, bem está: E se não, virás a cortá-la depois.
10E estava Jesus ensinando na Sinagoga deles nos sábados.
11E eis que veio ali uma mulher, que estava possessa dum espírito, que a tinha doente havia dezoito anos: E andava ela encurvada, e não podia absolutamente olhar para cima.
12Vendo-a Jesus, chamou-a a si, e disse-lhe: Mulher, estás livre do teu mal.
13E pôs sôbre ela as mãos, e no mesmo instante ficou direita, e glorificava a Deus.
14Mas entrando a falar o príncipe da Sinagoga, indignado de ver que Jesus fazia curas em dia de sábado, disse para o povo: Seis dias estão destinados para trabalhar: Vinde pois nestes a ser curados, e não em dia de sábado.
15Mas o Senhor respondendo, lhe disse: Hipócritas, não desprende cada um de vós nos sábados o seu boi, ou o seu jumento, e não os tira da estrebaria, para os levar a beber?
16Por que razão logo se não devia livrar dêste cativeiro em dia de sábado esta filha de Abraão, que satanás tinha assim presa do modo que vêdes havia dezoito anos?
17E dizendo êle estas palavras, se envergonhavam todos os seus adversários: Mas alegrava-se todo o povo, de tôdas as ações que por êle eram obradas com tanta glória.
18Dizia pois: A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei eu?
19É semelhante ao grão de mostarda, que um homem tomou e semeou na sua horta, e que cresceu até se fazer uma grande árvore: E as aves do Céu repousaram nos seus ramos.
20E disse outra vez: A que direi que o reino de Deus é semelhante?
21Semelhante é ao fermento, que tomou uma mulher, e o escondeu dentro de três medidas de farinha, até que ficasse lêveda tôda a massa.
22E ia pelas cidades, e aldeias ensinando, e caminhando para Jerusalém.
23E perguntou-lhe um: Senhor, é assim que são poucos os que se salvam? E êle lhes disse:[3]E êle lhes disse — Deve notar-se que a pergunta foi de um só quidam, e o Senhor dirige a resposta a muitos: Dixit ad illos. Quiçá para mostrar que a pergunta feita por vã curiosidade, não merecia resposta; porém quis dela tomar ocasião o Senhor para dar a todos uma lição importante.
24Porfiai a entrar pela porta estreita: Porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão.[4]Porfiai a entrar — O Senhor não responde diretamente à sua curiosa e inútil pergunta, sòmente lhes dá a entender que são poucos, e que êles deviam procurar com o maior esfôrço ser do número dêstes poucos. — Bossuet.
Muitos procurarão entrar — Terão um cego e estéril desejo de bem-aventurança, porém não a constância e firmeza que convém para andar por um caminho tão estreito. Jo 7, 54; 8, 21; 13, 33; Rom 9, 31.
25E quando o pai de família tiver entrado, e fechado a porta, vós outros estareis de fora, e começareis a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos: E êle vos responderá, dizendo: Não sei donde vós sois:
26Então começareis vós a dizer: Nós somos aqueles que em tua presença comemos, e bebemos, e a quem tu ensinaste nas nossas praças.
27E êle vos responderá: Não sei donde vós sois: Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniqüidade.
28Ali será o chôro, e o ranger dos dentes: Quando virdes que Abraão, Isaac, e Jacó, e todos os profetas estão no Reino de Deus, e que vós ficais fora dêle excluídos.
29E virão do oriente, e do ocidente, e do setentrião, e do meio-dia muitos que se sentarão à mesa no Reino de Deus.
30E então os que são os últimos, serão os primeiros, e os que são os primeiros, serão os últimos.
31No mesmo dia chegaram alguns dos fariseus a Jesus, dizendo-lhe: Sai, e vai-te daqui: Porque Herodes te quer matar.
32E êle lhes respondeu: Ide, e dizei a êsse raposo: Que bem se vê que eu lanço fora demônios, e faço perfeitas curas, hoje, e amanhã, e que ao terceiro dia vou a ser consumado.[5]Vou a ser consumado — Dizei-lhe: Que forme contra a minha vida os desígnios que quiser, porque eu devo empregar ainda algum tempo no meu ministério, que é dar saúde espiritual e temporal, e fazer bem a todo o mundo, e pregar o Reino de Deus, e, passado êste tempo, consumarei ou acabarei o meu sacrifício com a morte.
33Importa contudo caminhar eu ainda hoje e amanhã, e depois de amanhã: Porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém.[6]Porque não convém — O grego tem: "Não é possível". Assim lança Jesus Cristo em rosto a Jerusalém a crueldade e ingratidão que ela usara com quase todos os profetas, dando-lhes a morte. Não é bem, diz o Senhor para a motejar, que o profeta por excelência morra fora de Jerusalém, onde morreram pela maior parte todos os mais profetas.
34Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que a ti são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, bem como uma ave recolhe os do seu ninho debaixo das asas, e tu não quiseste?
35Eis aí vos será deixada deserta a vossa casa. E digo-vos, que não me vereis até que venha o tempo em que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor.