Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Grande fé do centurião. Cura Jesus o seu criado. Ressuscita o filho de uma viúva de Naim. Envia o Batista seus discípulos a Jesus. Obra Jesus muitos milagres em sua presença. Faz grandes elogios ao Batista, e compara os judeus aos meninos que jogam no terreiro. Uma mulher pecadora banha com as suas lágrimas os pés a Jesus. Êle a defende, e lhe perdoa seus pecados.

1E depois que Jesus acabou de fazer soar todos êstes discursos aos ouvidos do povo, entrou em Cafarnaum.

2E achava-se ali gravemente enfêrmo, já quase às portas da morte, o criado de um centurião, que era muito estimado dêle.

3E quando ouviu falar de Jesus, enviou a êle uns anciãos dos judeus, rogando-lhe que viesse a sarar o seu criado.[1]Uns anciãosOs que estavam à frente da administração da cidade. Única passagem em que o título de ancião não designa os membros do sanedrim.

4E êles logo que chegaram a Jesus, lhe faziam grandes instâncias, dizendo-lhe: É pessoa que merece que tu lhe faças êste favor:

5Porque é amigo da nossa gente: E êle mesmo nos fundou uma Sinagoga.

6Ia pois Jesus com êles. E quando se achava já perto da casa, lhe mandou o centurião dizer por seus amigos êste recado: Senhor, não te fatigues: Porque eu não sou digno de que tu entres em minha casa:

7Por essa razão nem eu me achei digno de te ir buscar: Mas dize tu uma só palavra, e o meu criado será salvo:

8Porque também eu sou oficial subalterno, que tenho soldados às minhas ordens: E digo a um, vai acolá, e êle vai: E a outro, vem cá, e êle vem: E ao meu servo, faze isto, e êle o faz.[2]E êle o fazÊste exemplo que o centurião pôs deixa para suprir o que se segue: Com quanta maior razão logo poderá Jesus Cristo, que tudo pode ainda sem se mover, curar com uma só palavra o meu criado? — Sacy.

9O que ouvindo Jesus, ficou admirado: E voltando-se para o povo que ia seguindo, disse: Em verdade vos afirmo, que nem em Israel tenho achado fé tamanha.

10E voltando para casa os que haviam sido enviados, acharam que estava são o criado que estivera doente.

11E aconteceu isto: No dia seguinte caminhava Jesus para uma cidade chamada Naim: E iam com êle seus discípulos, e muito povo.[3]NaimFica a nordeste do pequeno Hermon (Djebel-el-Duhy) excelente ponto de vista; era fortificada e tinha uma porta aberta nos muros que defendiam a cidade das investidas dos beduínos.

12E quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que já era viúva: E vinha com ela muita gente da cidade.

13Tendo-a visto o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: Não chores.

14E chegou-se, e tocou no esquife. (Pararam logo os que o levavam). Então disse êle: Moço, eu te mando, levanta-te.

15E se sentou o que havia estado morto, e começou a falar. E Jesus o entregou a sua mãe.

16Pelo que se apoderou de todos o temor: E glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta se levantou entre nós: E visitou Deus o seu povo.

17E a fama dêste milagre correu por tôda a Judéia, e por tôda a comarca.

18E referiram a João os seus discípulos tôdas estas coisas.

19E João chamou a dois de seus discípulos, e os enviou a Jesus, dizendo: És tu o que hás de vir, ou é outro o que esperamos?

20E como viessem êstes homens a êle, lhe disseram: João Batista nos enviou a ti, para te perguntar: És tu o que hás de vir, ou é outro o que esperamos?

21(E naquela mesma hora curou Jesus a muitos de enfermidades, e de chagas, e de espíritos malignos, e deu vista a muitos cegos.)

22Depois, dando a sua resposta, lhes disse: Ide referir a João, o que tendes ouvido, e visto: Que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho:

23E que é bem-aventurado todo aquêle que se não escandalizar a meu respeito.

24E partidos que foram os mensageiros de João, começou Jesus a falar dêle ao povo, dizendo: Que fostes vós ver ao deserto? uma cana sacudida do vento?

25Mas que fostes vós ver? um homem vestido de roupas delicadas? Bem vêdes que os que vestem roupas preciosas, e vivem em delícias, são os que vivem nos palácios dos reis.

26Mas que fostes vós ver? um profeta? Na verdade vos digo, é mais que profeta:

27Êste é aquêle de quem está escrito: Eis aí envio eu o meu anjo diante da tua face, que preparará o teu caminho diante de ti.

28Porque eu vos declaro: Que entre os nascidos de mulheres não há maior profeta que João Batista: Mas o que é menor no reino de Deus é maior do que êle.

29E todo o povo, e os publicanos, que tinham sido batizados com o batismo de João, deram glória a Deus, ouvindo êste discurso.

30Porém os fariseus, e os doutores da lei desprezaram os desígnios de Deus, acharam dano de si mesmos, em não se terem feito batizar por êle.

31Então disse o Senhor: Pois a quem direi que se assemelham os homens desta geração? e a quem se parecem êles?

32São semelhantes aos meninos que estão sentados no terreiro, e que falam uns para os outros, e dizem: Nós temos cantado ao som da gaita para vos divertir, e vós não bailastes; temos cantado em ar de lamentação, e vós não chorastes.

33Porque veio João Batista, que nem comia pão, nem bebia vinho, e dizeis: Êle está possesso do demônio.

34Veio o Filho do homem, que come e bebe, e vós dizeis: Vejam o homem glutão, e amigo de vinho, que acompanha com publicanos e pecadores.

35Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos.

36E lhe rogava um fariseu que fôsse a comer com êle. E havendo entrado em casa do fariseu se assentou à mesa.

37E no mesmo tempo uma mulher pecadora, que havia na cidade, quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, levou uma redoma de alabastro cheia de bálsamo.

38E pondo-se a seus pés por detrás dêle, começou a regar-lhe com lágrimas os pés, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, e lhe beijava os pés, e os ungia com o bálsamo.[4]Começou a regar-lhe com lágrimas os pés e os enxugava, etc.O costume dos Judeus era descalçarem-se para comer, e ter os pés levantados. — Duhamel.

39E quando isto viu o fariseu, que o tinha convidado, disse lá consigo, fazendo êste discurso: Se êste homem fôra profeta, bem saberia quem, e qual é a mulher que o toca, porque é pecadora.

40Então respondendo Jesus, lhe disse: Simão, tenho que te dizer uma coisa. E êle respondeu: Mestre, dize-a.

41Um credor tinha dois devedores: Um lhe devia quinhentos dinheiros e outro cinqüenta.

42Porém não tendo os tais com que pagarem, remitiu-lhes êle a ambos a dívida. Qual pois o ama mais?

43Respondendo Simão, disse: Creio que aquêle a quem o credor perdoou maior quantia. E Jesus lhe disse: Julgaste bem.

44E voltando para a mulher, disse a Simão: Vês essa mulher? Entrei em tua casa, não me deste água para os pés: Mas esta, com as suas lágrimas regou os meus pés, e os enxugou com os seus cabelos.

45Não me deste ósculo: Mas esta, desde que entrou não cessou de me beijar os pés.

46Não ungiste a minha cabeça com bálsamo: E esta com bálsamo ungiu os meus pés.

47Pelo que te digo: Que perdoados lhe são seus muitos pecados, porque amou muito. Mas ao que menos se perdoa, menos ama.

48E disse-lhe a ela: Perdoados te são teus pecados.

49E os que comiam ali começaram a dizer entre si: Quem é êste que até perdoa pecados?

50E Jesus disse para a mulher: A tua fé te salvou: Vai-te em paz.[5]A tua féAqui se atribui à fé a remissão dos pecados, porque a fé em Jesus Cristo é o princípio da salvação, e o primeiro passo que dá o pecador para a justiça. A fé conduziu esta mulher aos pés de Jesus Cristo, porém o seu arrependimento foi o que a reconciliou com Deus; de maneira que, arrependendo-se e começando a amar, bastou para que o Senhor lhe perdoasse; esta mesma graça e perdão do Senhor incendeu no seu coração novas e maiores chamas de amor. A paz da consciência é um fruto da fé.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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