Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 23

É Jesus levado à presença de Pilatos. Êste o remete a Herodes, donde torna a vir para Pilatos. Quer êste livrá-lo. Pede o povo que solte antes a Barrabás. Instam os judeus pela condenação de Jesus Cristo, e Pilatos o entrega a ser crucificado. É constrangido Simão a levar-lhe a Cruz. Crucificam-no entre dois ladrões. Ora pelos que lhe dão a morte. Iludido de grandes e pequenos. Dão-lhe a beber vinagre. O bom ladrão convertido e premiado. Escurece o sol, e rasga-se o véu do templo. Expira Jesus. O centurião o reconhece Filho de Deus. José o encerra.

1E levantando-se tôda a multidão dos daquele conselho, levaram Jesus a Pilatos.

2E começaram a acusá-lo, dizendo: A êste temos achado pervertendo a nossa nação, e vedando dar o tributo a César, e dizendo que êle é o Cristo Rei.

3E Pilatos lhe perguntou, dizendo: Tu és o rei dos judeus? E êle respondendo, disse: Tu o dizes.[1]Tu o dizesSe o seu orgulho lhes houvera deixado considerar as obras maravilhosas do Senhor e a perfeita correspondência de tôdas as ações da sua vida, contudo o que tinham dito e escrito dêle os profetas, teriam conhecido sem dúvida que êle era o verdadeiro Messias, e que o seu reino, sendo todo espiritual, não podia mover os zelos, ou suspeitas do César, nem de nenhum outro potentado dêste mundo. Mt 21, 22; Mc 12, 17; Jo 18, 36. 37; e por isto Pilatos não fez caso desta ocasião.

4Então disse Pilatos aos príncipes dos sacerdotes, e ao povo: Eu não acho neste homem crime algum.

5Mas êles porfiavam cada vez mais, dizendo: Êle subleva o povo com a doutrina que prega por tôda a Judéia, desde Galiléia, onde começou, até aqui.

6E Pilatos, ouvindo falar de Galiléia, perguntou se era galileu aquele homem.

7E quando soube que era da jurisdição de Herodes, remeteu-o ao mesmo Herodes, o qual naqueles dias pessoalmente se achava também em Jerusalém.

8E Herodes tendo visto a Jesus, folgou muito; porque de longo tempo tinha desejo de o ver, por ter ouvido dizer dêle muitas coisas, e esperava ver-lhe fazer algum milagre.

9Fez-lhe pois muitas perguntas. Mas êle a nenhuma deu resposta.

10E os príncipes dos sacerdotes, e os escribas estavam ali presentes, acusando-o com grande instância.

11Herodes, porém, com os do seu exército desprezou-o, e fez escárneo dêle, tendo-o mandado vestir de uma vestidura branca, e tornou-o a enviar a Pilatos.[2]Uma vestidura brancaHerodes, revestindo Jesus duma túnica branca, quis escarnecer da realeza de Cristo, pois que os reis e imperadores romanos vestiam de branco nas grandes solenidades.

12E naquele dia ficaram amigos Herodes e Pilatos, porque estavam antes inimigos um do outro.

13Pilatos, pois, tendo chamado os príncipes dos sacerdotes, e os magistrados, e o povo,

14lhes disse: Vós apresentastes-me êste homem, como perturbador do povo, e vêde que fazendo-lhe eu perguntas diante de vós outros, não achei neste homem culpa alguma daquelas de que o acusais.

15Nem Herodes tampouco, porque vos remeti a êle e eis que nada se lhe tem provado que mereça morte.

16Soltá-lo-ei logo depois de o castigar.[3]Depois de o castigarCom a pena de açoites, que entre os romanos era ordinária nos crimes que não eram capitais. — Calmet. O Talmude descreve assim a flagelação: As mãos são prêsas à coluna; o carrasco despe o condenado; uma pedra é colocada na parte posterior, sôbre ela o algoz está de pé com o azorrague ou correias com que bate constantemente na vítima.

17Ora, Pilatos estava precisado a soltar-lhes pela festa um criminoso.

18Por isso todo o povo gritou a uma voz dizendo: Faze morrer êste, e solta-nos Barrabás.

19O qual havia sido prêso por causa de uma sedição feita na cidade, e por causa de um homicídio.

20E Pilatos, que desejava livrar a Jesus, falou de novo aos judeus.

21Mas êles tornaram a gritar, dizendo: Crucifica-o, crucifica-o.

22E terceira vez lhes disse Pilatos: Pois que mal fez êle? Eu não acho nele causa alguma de morte; irei logo castigá-lo, e depois soltá-lo-ei.

23Mas êles instavam, pedindo a grandes vozes que fôsse crucificado, e cresciam mais as suas vozes.

24Enfim ordenou Pilatos que se executasse o que êles pediam.

25No mesmo tempo soltou-lhes aquele que havia sido prêso por causa do homicídio, e da sedição, que era quem êles pediam, e permitiu-lhes que fizessem de Jesus o que quisessem.

26Indo-o já levando, pegaram num certo homem de Cirene, chamado Simão, que vinha de uma granja, e puseram a Cruz sôbre êle, para que a levasse após de Jesus.

27E seguia-o uma grande multidão de povo, e de mulheres: Que batendo nos peitos o choravam e lamentavam.

28Mas Jesus voltando-se para elas, lhes disse: Filhas de Jerusalém, não choreis sôbre mim, mas chorai sôbre vós mesmas, e sôbre vossos filhos.

29Porque sabei que virá tempo em que se dirá: Ditosas as que são estéreis, e ditosos os ventres que não geraram, e ditosos os peitos que não deram de mamar.

30Então começarão os homens a dizer aos montes: Caí sôbre nós: e aos outeiros: Cobri-nos.

31Porque se isto se faz no lenho verde, que se fará no sêco?

32E eram também levados com Jesus outros dois, que eram malfeitores, para se lhes dar a morte.

33E depois chegaram ao lugar que se chama Calvário; ali o crucificaram a êle, e aos ladrões, um à direita e outro à esquerda.

34E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Dividindo porém os seus vestidos, sortearam-nos.

35Entretanto estava o povo olhando para êle e os príncipes dos sacerdotes com o povo o escarneciam, dizendo: Quem salvou aos outros, que se salve a si, se êste é o Cristo escolhido de Deus.

36E da mesma sorte o escarneciam os soldados, chegando-se a êle, e oferecendo-lhe a beber vinagre,

37e dizendo: Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.

38E estava também sôbre êle um título, escrito em letras gregas, e latinas, e hebraicas, o qual dizia: ÊSTE É O REI DOS JUDEUS.

39E um daqueles ladrões, que estavam dependurados, blasfemava contra êle, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós outros.

40Mas o outro respondendo, o repreendia, dizendo: Nem ainda tu temes a Deus, estando no mesmo suplício.

41E nós outros o estamos na verdade justamente, porque recebemos o castigo que merecem as nossas obras: Mas êste nenhum mal fez.

42E dizia a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino:

43E Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo: Que hoje serás comigo no paraíso.[4]Que hoje serás comigo no paraísoMuitos santos Padres, que alega Calmet, o entendem da visão beata da divindade. Outros com o padre Amelote, dizem que por "Paraíso" se deve entender a vista da alma gloriosa de Jesus Cristo, que no mesmo dia desceu ao seio de Abraão. Dêste ponto escreveu Santo Agostinho uma longa carta a Dárdano, que sôbre isso o consultara.

44Era então quase a hora sexta, e tôda a terra ficou coberta de trevas até à hora nona.[5]Até à hora nonaDesde o meio-dia até às três horas da tarde.

45Escureceu-se também o sol: E rasgou-se pelo meio o véu do templo.

46E Jesus dando um grande brado, disse: Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito. E dizendo estas palavras, expirou.

47O centurião, porém, que tinha visto o que sucedera, deu glória a Deus, dizendo: Na verdade que êste homem era justo.

48E todo o povo que assistia a êste espetáculo, e via o que se passava, retirava-se batendo nos peitos.

49Todos os que eram do conhecimento de Jesus, e as mulheres que o tinham seguido desde Galiléia, estavam da mesma sorte vendo estas coisas lá de parte.[6]As mulheresMaria Madalena, Maria Cléofas, Salomé.

50E eis que um varão por nome José, que era do sanedrim, varão bom, e justo,

51que não tinha consentido com a determinação dos outros nem com o que êles tinham obrado, de Arimatéia, cidade de Judéia, o qual também esperava o reino de Deus:

52Êste homem pois foi ter com Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus:

53E depois que o desceu, amortalhou-o num lençol, e depositou-o num sepulcro aberto em rocha, onde ainda ninguém tinha sido pôsto.

54Era então dia da preparação, e já raiava o sábado.[7]Dia da preparaçãoA tarde de sexta-feira, em que se preparava o comer para o sábado.

E já raiava o sábado — Porque o sábado dos judeus não começava ao nascer do sol do mesmo dia, mas ao pôr do sol do antecedente. — Sacy.

55Ora, as mulheres, que tinham vindo de Galiléia com Jesus, indo atrás de José, observaram o sepulcro, e como o corpo de Jesus fôra nele depositado.

56E voltando, prepararam aromas e bálsamos: E quanto ao dia de sábado, estiveram sem fazer coisa alguma, segundo a lei.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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