Capítulo 10
1E depois disto designou o Senhor ainda outros setenta e dois: E mandou-os de dois em dois adiante de si por tôdas as cidades, e lugares, para onde êle tinha de ir.[1]Setenta e dois — A lista dos setenta e dois discípulos não é conhecida, apenas sabemos dalguns com certeza. Sabe-se que a escolha recaiu naqueles que com mais assiduidade acompanhavam o Salvador, e que o divino Mestre os associou aos Apóstolos na qualidade de coadjutores. É certo que eram inferiores aos doze, pois um dêstes discípulos, Matias, foi promovido ao apostolado em substituição de Judas. S. Inácio mártir compara-os aos diáconos, e S. Jerônimo aos presbíteros. O seu ministério foi transitório e puramente pessoal, não se transmitindo os poderes em que estavam investidos. Em lugar de setenta e dois discípulos os manuscritos gregos falam de setenta, mas pode supor-se que é um arredondamento de números, como sucede em várias outras partes da Escritura.
2E dizia-lhes: Grande é na verdade a messe, e poucos os trabalhadores. Rogai pois ao dono da messe, que mande trabalhadores para a sua messe.
3Ide: Olhai que eu vos mando como cordeiros entre os lobos.
4Não leveis bôlsa, nem alforge, nem calçado, e a ninguém saudeis pelo caminho.[2]E a ninguém — Isto é, não vos embaraceis, nem ainda em saudar a alguém. Era costume entre os povos orientais saudarem-se com muitas cerimônias, e com muitas perguntas e respostas. E o Senhor lhes encarrega, que quando forem a um negócio da maior importância, como é o anunciar aos povos o reino de Deus, não percam o tempo em semelhantes cerimônias inúteis. Mt 10, 10. — Pereira.
5Em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro que tudo: Paz seja nesta casa:
6E se ali houver algum filho da paz, repousará sôbre êle a vossa paz, e senão, ela tornará para vós.
7E permanecei na mesma casa, comendo e bebendo do que êles tiverem: Porque o trabalhador é digno do seu jornal. Não andeis de casa em casa.
8E em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei o que se vos apresentar.
9E curai os enfermos que nela houver, e dir-lhes-eis: Está a chegar a vós outros o Reino de Deus.
10Mas se vós entrardes nalguma cidade, e vos não receberem, saindo pelas suas praças, dizei:
11Vêde que até o pó, que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós: Não obstante isto, sabei que está a chegar a vós outros o Reino de Deus.
12Digo-vos, que naquele dia haverá menos rigor para Sodoma, que para a tal cidade.
13Ai de ti, Corozain; ai de ti, Betsaida: Que se em Tiro e Sidônia se tivessem obrado as maravilhas que se obraram em vós, há muito tempo que elas teriam feito penitência, cobrindo-se de cilício e de cinza.
14Por isso haverá sem dúvida no dia do Juízo para Tiro e Sidônia menos rigor que para vós.
15E tu, Cafarnaum, que te elevaste até o Céu, serás submergida até o inferno.
16O que a vós ouve, a mim ouve: E o que a vós despreza, a mim despreza. E quem a mim despreza, despreza aquêle que me enviou.
17Voltaram depois os setenta e dois muito alegres, dizendo: Senhor, até os mesmos demônios se nos submetem em virtude do teu nome.
18E o Senhor lhes respondeu: Eu via cair do céu a satanás, como um relâmpago.[3]Eu via cair do céu — Como se lhe dissera: Tende presente a queda de satanás, e guardai-vos bem da vanglória, e soberba, que um momento o derribaram do Céu, e da maior felicidade à maior miséria. — Santo Ambrósio. Outros intérpretes justificam aos discípulos, e querem que tôda a glória de lançar fora os demônios a atribuíssem à virtude do Nome de Jesus Cristo, e neste sentido explicam êste verso deste modo: Não creiais que me dizeis uma coisa nova: Porque desde o momento mesmo da minha encarnação, via eu, que ia a cair, e ser destruído todo o poder de satanás, e a estabelecer-se o reino de Deus, pela pregação do meu Evangelho.
19Eis aí vos dei eu poder de pisardes as serpentes, e os escorpiões, e tôda a fôrça do inimigo: E nada vos fará dano.
20E contudo, o sujeitarem-se-vos os espíritos, não é o de que vós vos deveis alegrar: Mas sim deveis alegrar-vos de que os vossos nomes estão escritos nos Céus.
21Naquela mesma hora exultou Jesus a impulsos do Espírito Santo, e disse: Graças te dou, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Padre: Porque assim foi do teu agrado.
22Tôdas as coisas me têm sido entregues por meu Pai. E ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai: Nem quem é o Pai, senão o Filho, e aquêle a quem o Filho o quiser revelar.
23E tendo-se voltado para seus discípulos disse: Ditosos olhos aquêles que vêem o que vós vêdes.
24Pois eu vos afirmo, que foram muitos os profetas, e reis, que desejaram ver o que vós vêdes, e não o viram: E que desejaram ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram.
25E eis que se levantou um doutor da lei, e lhe disse para o tentar: Mestre, que hei de eu fazer para entrar na posse da vida eterna?
26Disse-lhe então Jesus: Que é o que está escrito na lei? como lês tu?
27Êle, respondendo, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de tôda a tua alma, e de tôdas as tuas fôrças e de todo o teu entendimento: E ao teu próximo como a ti mesmo.
28E Jesus lhe disse: Respondeste bem: Faze isso, e viverás.[4]Faze isso, e viverás — Logo por sentença de Jesus Cristo, para se alcançar a vida eterna, é necessário amar a Deus de todo o coração, de tôda a alma, de todo o entendimento, e de tôdas as fôrças. Ora quem assim quer ser amado do homem, diz Santo Agostinho, quer para si tôda a vida, e tôdas as ações deliberadas do homem; de sorte, que em nenhuma deve parar o homem na criatura, mas em tôdas ter a Deus por último fim. Dum ait, toto corde, tota anima, tota mente, nullam vitae nostrae partem reliquit, quae vacare debeat, et quasi locum dare, ut alia re velit frui, livro I Da Doutrina Cristã, cap. 20. Eis aqui uma demonstração bem fácil da necessidade e obrigação, que todos temos, de referirmos a Deus tôdas as nossas ações deliberadas, ao menos com uma intenção virtual.
29Mas êle, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?
30E Jesus, prosseguindo no mesmo discurso, disse: Um homem baixava de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos dos ladrões, que logo o despojaram do que levava: E depois de o terem maltratado com muitas feridas, se retiraram deixando-o meio morto.
31Aconteceu pois que passava pelo mesmo caminho um sacerdote: E quando o viu passou de largo.
32E assim mesmo um levita, chegando perto daquele lugar, e vendo-o, passou também de largo.
33Mas um samaritano, que ia seu caminho, chegou perto dêle: E quando o viu, se moveu à compaixão.
34E chegando-se lhe atou as feridas, lançando nelas azeite e vinho, e, pondo-o sôbre a sua cavalgadura, o levou a uma estalagem, e teve cuidado dêle.
35E ao outro dia, tirou dois denários, e deu-os ao estalajadeiro, e lhe disse: Tem-me cuidado dêle, e quanto gastares de mais, eu to satisfarei quando voltar.
36Qual dêstes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?
37Respondeu logo o doutor: Aquêle que usou com o tal de misericórdia. Então lhe disse Jesus: Pois vai, e faze tu o mesmo.
38E aconteceu que como fôssem de caminho, entrou depois Jesus em uma aldeia: Uma mulher, por nome Marta, o hospedou em sua casa.[5]Em uma aldeia — Na parte meridional da Galiléia, perto de Naim, segundo Mgr. Darvy; outros comentadores entendem que era na Betânia.
Por nome Marta — Marta tinha por irmã Maria Madalena e por irmão Lázaro, pertencentes a uma família muito respeitável. Parece que Marta era a mais velha, porque é sempre a primeira nomeada, e também por esta qualidade fazia as honras da casa que administrava. Pensa-se que Lázaro, Marta e Maria Madalena deixaram a Galiléia com Jesus, e fixaram a sua residência perto de Jerusalém, na aldeia de Betânia.
39E esta tinha uma irmã chamada Maria, a qual até sentada aos pés do Senhor ouvia a sua palavra.
40Marta porém andava tôda afadigada na contínua lida da casa, a qual se apresentou diante de Jesus, e disse: Senhor, a ti não se te dá que minha irmã me deixasse andar servindo só? dize-lhe pois que me ajude.
41E respondendo o Senhor, lhe disse: Marta, Marta, tu andas muito inquieta, e te embaraças com o cuidar em muitas coisas.
42Entretanto só uma coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada.[6]Maria escolheu a melhor parte — Não quis o Senhor censurar Marta, pois que também esta teve a sua recompensa, que começou com os dons de fé viva e de veemente caridade, quis contudo pôr em relêvo a ocupação de Maria, que tão singular influência tem nos destinos da alma. A antiguidade eclesiástica personificou em Marta a vida ativa, cheia de boas obras; em Maria a vida contemplativa, com os enlevos da alma por Deus; e a esta chamou Cristo a melhor parte. Mal avisados pois andam os que agridem a vida contemplativa, a maisinam, caluniam e guerreiam, procurando apenas cercar de louvores a vida ativa. Se esta é benemerente, aquela não o é menos; se a vida ativa concita respeitos e aplausos, aquela arrebata pela fé que representa, pelo amor que traduz, pela abnegação que prega. Quantas paixões desenganadas, quantas afeições traídas, quantas amargas decepções não encontraram nos ermos contemplativos o remédio que o mundo não podia dar a essas almas aflitas?