Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Resumo do que aconteceu aos israelitas desde a sua partida de Sinai até à sua segunda chegada a Cades.

1Estas são as palavras, que Moisés disse a todo o Israel na banda de aquém do Jordão na planície do deserto, defronte do mar Vermelho, entre Faran, Tofel, Laban, e Haserot, onde há muitíssimo ouro:[1]TOFELNaturalmente o' atual Tabileh. LABAN — E’ o Lebna a que se refere o e. 33, 22 dos Núm: Isto até ao v. 6, é o título geral do Deuteronômlo, anunciando os três discursos que Moisés proferiu ao povo no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo.

2a onze jornadas de Horeb pelo caminho do monte Seir até Cadesbarne.

3No ano quadragésimo, no undécimo mês, no primeiro dia do mês, disse Moisés aos filhos de Israel tudo o que o Senhor lhe tinha ordenado que lhes dissesse:

4Depois de ter derrotado a Seon rei dos amorreus, que habitava em Hesebon: e a Og rei de Basan, que morava em Astarot, e em Edrai,

5da banda de aquém do Jordão, no país de Moab. Começou pois a explicar a Lei, e a dizer:

6O Senhor nosso Deus nos falou em Horeb, dizendo: Assaz vos tendes demorado neste monte:[2]O SENHORMoisés lembra aos hebreus os principais acontecimentos que revelam a Bondade de Deus e a sua Infinita Jus tiça,: encaminhando o auditório para a conclusão a que pretende chegar.

7Voltai, e vinde ao monte dos amorreus, e a todos os mais lugares vizinhos, às campinas, aos montes e aos vales, que ficam para o Meio-Dia, e ao longo da costa do mar, à terra dos cananeus, e do Líbano até ao grande rio Eufrates.

8Eis-aí, disse êle, vo-la entreguei eu: Entrai e metei-vos de posse duma terra, que o Senhor tinha prometido com juramento dar a vossos pais Abraão, Isaac, e Jacó, e à sua descendência depois dêles.

9E eu nesse mesmo tempo vos disse:

10Eu só não posso reger-vos: Porque o Senhor vosso Deus vos multiplicou, e sois hoje tão numerosos, como as estrelas do céu.

11(O Senhor Deus dc vossos pais ajunte a êste número muitos milhares, e vos abençoe como prome teu.)[3]E VOS ABENÇOEVê-se nestas palavras um velho a falar, reportando-se com saudade ao passado, e esta nota é bastante frizante neste livro para que passe despercebida, pois o distingue dos outros do Pentateuco. E’ o mesmo fundo de idéias, a mesma linguagem dos precedentes; há apenas a notar o modo dé dizer pró prio dum ancião prestes a descer à sepultura, o que é mais. uma prova da autenticidade dêste livro; porque se confirma o que sabe mos da pessoa do autor.

12Eu só não posso aturar o pêso dos vossos negó cios, e diferença.

13Dai dentre vós homens sábios e capazes, e cuja

14Vós me respondestes então: E ’ uma boa coisa, a que tu queres fazer.

15E eu tirei das vossas tribos homens'sábios e no bres, e os constituí príncipes, e tribunos, e centuriões, e comandantes de cinquenta e de dez, que vos instruíssem, de cada coisa.

16E lhes mandei, dizendo: Ouvi-os, e julgai o que fôr justo: Ou êle seja cidadão, ou estrangeiro.[4]OUVI-OSÊete preceito foi escrupulosamente seguido entre o povo hebreu.

17Nenhuma distinção haverá de pessoas, do mes mo modo ouvireis o pequeno que o grande: Nem tereis acepção de pessoa alguma, porque este é o juízo de Deus. Mas se achardes dificuldades em alguma coisa, dai-me parte, e ouvir-vos-ei.

18E eu vos ordenei tudo o que devíeis fazer.

19E tendo partido de Horeb, passamos pelo grande e medonho deserto, que vistes, pelo caminho do monte do arnorreu, conforme o Senhor nosso Deus no-lo tinha mandado. E tendo chegado a Cadesbarne,

20eu vos disse: Chegastes ao monte do arnorreu, que o Senhor nosso Deus nos há de dar.

21Olha a terra, que o Senhor teu Deus te dá: So be e faze-te senhor dela, como o Senhor nosso Deus o prometeu a teus pais: Não temas, nem te atemorizes nada.

22Então vos chegastes vós todos a mim, e dis sestes: Enviemos homens que considerem o país: e que nos ensinem por que caminho devemos entrar, e as ci dades a que devemos ir.

23E como me tivesse parecido bem esta lembran ça, enviei doze homens dentre vós, um de cada tribo.

24Os quais tendo-se pôsto a caminho, e passando as serras, vieram até o Vale do Cacho de U va: e depois de considerada a terra,[5]DO CACHO DE UVAProvàvelmente o vale Hebron.

25tomando dos seus frutos, paramostrarem a sua fertilidade, no-los trouxeram, e disseram: Excelente é a terra, que o Senhor nosso Deus nos há de dar.

26E vós não quisestes subir a ela, mas incrédulos à palavra do Senhor nosso Deus,

27murmurastes nas vossas tendas, e dissestes: O Senhor tem-nos ódio, e por isso nos tirou da terra do JEgito, para nos entregar nas mãos dos amorreus, e pa ra acabar conosco.[6]MURMURASTESE’ um modo freqfiente de falar, atri buindo a uma geraç&o o que outra praticou; é claro que nenbum dos que haviam murmurado existia. Também nós dizemos que vencemos em Ourique e Aljubarrota, sendo os nossos maiores os que alcan çaram essas insignes vitórias, e não nós os que contamos o fato. O SENHOR TEM-XOS ÓDIO — Atribuem a Deus o que partia do seu infinito amor. Odio Dei importantl quod ex a m o r e profectnm eet.

28Para onde subiremos? os que foram mandados aterraram o nosso coração, dizendo: E ’ muita a gente que há, e de estatura mais alta do que a nossa: As cida des são grandes, e fortificadas até ao céu, ali vimos os filhos dos Enacins.

29E eu então vos disse: Não tenhais mêdo e não os temais:

30O Senhor Deus, que é o vosso condutor, êle mesmo pelejará por vós, como o fêz no Egito à vista de todos.

31E na solidão (tu mesmo o viste) te levou o Se is) DO CACHO DE UVA — Provàvelmente o vale Hebron.

32E nem ainda assim destes crédito ao Senhor vos so Deus,

33que foi diante de vós por todo o caminho, e me diu o lugar, onde devíeis assentar as vossas tendas, mostrando-vos o caminho de noite com o fogo, e de dia com a coluna de nuvem.

34Tendo o Senhor pois ouvido as vossas murmurações, irado jurou, e disse:

35Nenhum dos homens desta péssima ralé verá a excelente terra, que eu com juramento prometi a vossos pais:

36Exceto Caleb filho de Jefone: Porque êste a verá, e eu lhe darei a êle, e a seus filhos a terra, que êle calcou, porque seguiu o Senhor.

37Nem há para que alguém se espante desta indignação contra o povo, quando o Senhor irado também contra mim, por causa de vós, disse: Nem tu entra rás lá:

38Mas em teu lugar entrará Josué filho de Nun teu ministro: Exorta-o e anima-o, porque êle é que há de repartir a terra por sorte a Israel.

39As vossas crianças, de quem dissestes que se riam levadas cativas, e os vossos filhos que hoje ainda não sabem discernir entre o bem, e o mal, êstes entra rão: e a êles darei a terra, e a possuirão.

40Mas vós desandai e tornai para o deserto pelo caminho do mar Vermelho.

41E me respondestes: Nós pecamos contra o Se nhor: subiremos e pelejaremos, como o Senhor nosso Deus o mandou. E quando vós armados marcháveis para o monte, Deutcronômio 1, 12-46; 2, 1-2

42o Senhor me disse: Dize-lhes: Não empreendais subir nem pelejeis, porque eu não estou convosco: Para que não caiais mortos diante de vossos inimigos.

43Eu vo-lo disse, e não me ouvistes: Mas opondo- -vos ao mandado do Senhor, e todos inchados de soberba subistes ao monte.

44Tendo pois saído o amorreu, que habitava nas serras, e vindo em vosso encontro, êle vos perseguiu como as abelhas costumam perseguir: e vos foi retalhando desde Seir até Horma.[7]O AMORREUE' necessário notar que esta palavra é empregada na Bíblia em três acepções diferentes. Umas vêzes designa duma maneira geral os habitantes do pais de Canaã, e é neste sentido que está empregada neste lugar e em Jos 24, 15-18; Jz 6, 10. Noutros lugares indica os habitantes da Palestina meridional, Gên 16, 16. Outras vâzes, num sentido mais restrito, refere-se aos dois reinos de Og e de Seon. Dt 3, 8 s. Assim nào há contradição com o que está escrito no c. 14, 45 dos Núm, onde se atribui esta vitória aos amalecitas e cananeus. O nome amorreu significa o que habita no monte, o montanhês, o que Imediatamente confirma o texto.

45E como depois de terdes voltado chorásseis dian te do Senhor, êle vos não ouviu, nem se quis dobrar aos vossos rogos.

46Assim ficastes muito tempo em Cadesbarne.

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DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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