Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Exortação a observar os divinos preceitos nada alterando. Lei dada no Horeb. Deus é espírito. Ameaças contra os que os violarem. Três cidades de refúgio da banda de aquém do Jordão.

1E agora, ó Israel, ouve os preceitos e os juízos, que eu te ensino: Para que observando-os, vivas, e en trando possuas a terra, que o Senhor Deus de vossos pais vos há de dar.[1]E AGORAAqui coiuoça a segunda parte do discurso de Moisés, e que termina exortando a ser fiel com o Salvador.

2Vós não ajuntareis, nem tirareis nada às pala vras, que eu vos digo: Guardai os mandamentos do Se nhor vosso Deus que eu vos intimo.[2]NÃO AJUNTAREIS NEM TIRAREISQuer dizer que a lei devia ser observada tal qual tinha sido promulgada, de sorte que a ninguém era lícito praticar o que Deus tinha proibido, ou omitir o que estava ordenado. Mais tarde Jesus Cristo disse que não vinha destruir a lei, mas completá-la. Non vent solvcre legem. Mt» 5. 27.

3Os vossos olhos viram tudo o que o Senhor íêz contra Beelfegor, como êlc exterminou do meio de vós todos os seus adoradores.

4Mas vós que vos tendes unidos ao Senhor vosso Deus, todos estais vivos até ao presente dia.

5Sabeis que eu vos tenho ensinado os preceitos e os juízos, conforme o Senhor meu Deus me mandou: assim os praticareis pois na terra, que haveis de possuir:

6e os observareis e cumprireis efetivamente. Por que-nisto mostrareis a vossa sabedoria e inteligência aos povos, para que ouvindo todos êstes preceitos, digam: Eis-aqui um povo sábio e entendido, uma nação grande.

7Com efeito nenhuma outra nação há tão grande, que tenha deuses tão próximos a si, como o nosso Deus está presente a tôdas as nossas deprecações.

8Porque onde há outro povo tão célebre, que te nha cerimónias, e ordenações cheias de justiça, e tôda uma lei, como a que eu hoje proporei diante dos vossos olhos?

9Guarda-te pois a ti mesmo, e a tua alma com grande cuidado. Não te esqueças das coisas, que teus olhos viram, e elas se não apaguem do teu coração por todos os dias da vida. Tu as ensinarás a teus filhos e a teus netos.

10Desde o dia que te apresentaste ao Senhor teu Deus em Horeb, quando o Senhor me falou dizendo: Faze ajuntar todo o povo diante de mim, para que ou çam as minhas palavras, e aprendam a temer-me por todo o tempo que viverem na terra, e ensinem a seus filhos.[3]HOREBO monte Sinal.

11Então vos chegastes às raízes do monte, que ardia até o céu: e havia nêle trevas, e nuvens, e escu ridão.

12E o Senhor vos falou do meio da chama. Vós ouvistes a voz das suas palavras, mas não vistes figura alguma.[4]NÃO VISTES FIGURA ALGUMAí a prova clara quo aos hebreus se n&o Inculca o antropomorfismo, mas se ensina ser Deus puro espírito.

13E êle vos mostrou o seu pacto, que ordenou que observásseis, e as dez palavras, que escreveu em duas tábuas de pedra.

14E me mandou naquele tempo que vos ensinasse

15Guardai portanto cuidadosamente as vossas al mas. Vós não vistes figura alguma no dia que o Se nhor vos falou cm Horeb no meio do fogo:

16Por não suceder que enganados façais para vós alguma imagem de escultura, ou alguma figura de ho mem ou de mulher,[5]ALGUMA IMAGEM DE ESCULTURAJá vimos a ex tensão desta proibição no Êx 20, 4, que de nenhum modo se refere às suas imagens, mas às representações idolátricas, sondo abusiva e injustificada qualquer outra interpretação.

17nem semelhança de qualquer animal que há so bre a terra, ou das aves que voam debaixo do céu,

18ou dos répteis, que se movem na terra, ou dos pei xes que debaixo da terra moram nas águas:

19Não seja que levantando os olhos ao céu, vejam o sol e a lua, e todos os astros do céu, e caindo no êrro adores e dês culto a essas coisas que o Senhor teu Deus criou para serviço de tôdas as gentes, que vivem debaixo do céu.

20Mas o Senhor vos tirou, e íêz sair da fornalha de ferro do Egito, para ter um povo, que fôsse a sua he rança, como hoje se está vendo.

21E o Senhor se irou contra mim por causa dos vossos discursos, e jurou que eu não passaria o Jordão, e que não entraria na excelente terra, que êle está para vos dar.

22Eis-aí morro eu nesta terra, não passarei o Jor dão: Passa-lo-eis vós, e possuireis este belo país.

23Vê não te esqueças jamais do pacto do Senhor teu Deus, que êle fêz contigo: e não faças de escultura algu-

24Porque o Senhor teu Deus é um fogo devorante, um Deus zeloso.

25Se gerardes filhos e netos, e morardes na terra, e enganados formardes para vós alguma figura, come tendo a maldade diante cio Senhor vosso Deus, de modo que o provoqueis à ira:

26Eu chamo hoje por testemunhas o céu e a terra, que vós sereis bem cedo exterminados da terra, que, pas sado o Jordão estais para possuir: Não habitareis nela muito tempo, mas o Senhor vos destruirá,

27e vos espalhará por todos os povos, e vós fica reis poucos entre as nações, a que o Senhor vos levará.

28E lá servireis a deuses; que foram fabricados por mão de homens, de pau, e de pedra: Os quais não vêem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram.

29E quando ali buscares ao Senhor teu Deus, achá- lo-ás. Contanto porém que o busques de todo o coração e em tôda a amargura da tua alma.

30Depois que te tiverem achado tôdas as coisas que foram preditas, tu te tornarás enfim para o Senhor teu Deus, e ouvirás a sua voz.

31Porque o Senhor teu Deus é um Deus miseri cordioso; não te deixará, nem te extinguirá inteiramente, nem se esquecerá do pacto que jurou a teus pais.[6]NÃO SE ESQUECERA DO PACTOAs alianças na an tiguidade eram ordinàriamente acompanhadas de juramentos, e por isso Deus condescende com o uso, e jura aliança com o povo da su^ predileção, para revestir êste pacto da maior solenidade.

32Pergunta aos séculos os mais atrasados, que te precederam desde o dia que Deus criou o homem sôbre

33que um povo ouvisse a voz de Deus, que lhe falava do meio das chamas, como tu o ouviste sem per deres a vida.

34que Deus viesse escolher para si um povo do meio das nações, por meio de provas, sinais e porten tos, por meio de batalhas, e mão poderosa, o braço es tendido, e por visões horríveis: Segundo tôdas as coisas que por vós fêz o Senhor vosso Deus no Egito à vista de teus olhos:

35Para que soubesses que o Senhor é que é o Deus, e que não há outro senão êle.[7]O SENHOR É QUE É DEUSEsta passagem é a pro fissão do fé dos judeus, que por ela.têm tanto respeito, que ainda hoje a copiam em um pergaminho, a que dão o nome de schenior, justamente porque é essa a palavra hebraica por que começa,

36Do céu te fêz ouvir a sua voz para te instruir, e sôbre a terra te mostrou o seu grandíssimo fogo, e tu ouviste as suas palavras do meio do fogo,

37porque amou a teus pais, e escolheu depois deles a sua posteridade. E te tirou do Egito, caminhando dian te de ti com o seu grande poder,

38para exterminar na tua entrada nações grandís simas e mais fortes do que tu: e para te introduzir, e te dar em possessão a sua terra, como tu o estás vendo hoje.

39Reconhece pois neste dia, e considera no teu coração que o Senhor êle mesmo é o Deus, que há desde o alto do Céu até ao mais profundo da terra, e que não há outro.

40Guarda os seus preceitos e os seus mandamentos, que eu te prescrevo: Para que te suceda bem a ti.

41Então destinou Moisés três cidades na banda de aquém do Jordão para o Oriente,

42para que se refugie a elas aquele que sem que rer tiver morto a seú próximo, e sem que tivesse sido seu inimigo um ou dois dias antes, e possa acolher-se a qualquer destas cidades:

43Foram estas: Bosor no deserto, situada na cam pina da tribo de Rúben: e Ramot em Galaad, que é a tribo de Gad: e Golan em Basan, que é a tribo de Manassés.[8]BOSORHoje Kesur-el-Bescheir, a sudoeste de Dibon, conquistada aos rubenitas pelos moabitas. GOLAN — Cidade principal da região dêste nome; parece que estava situada em Sahen-el-Djolan, a trinta quilOmetros a este do lago Tiberíades.

44Esta é a lei, que Moisés propôs perante os fi lhos de Israel,

45e estes são os preceitos e as cerimónias e os juí zos, que êle prescreveu aos filhos de Israel, quando êles saíram do Egito,

46estando da banda de aquém do Jordão no vale que fica defronte do templo de Fogor na terra de Seon, rei dos amorreus, que habitou em Hesebon, a quem Moi sés derrotou. E os filhos de Israel que saíram do Egito[9]Templo de FogorEm hebreu Belt Fogor, cidade de Moab, depois de Rúben, perto do Jordão, à face de Jericd,

47possuíram a sua terra, e a terra de Og rei de Basan, que eram os dois reis dos amorreus, que reina vam da banda de aquém do Jordão para a parte do Nas cente:

48Desde Aroer, que está* situada sôbre a ribanceira

49tôda a campina de aquém do Jordão para o Orien te, até o mar do deserto, e até as faldas do monte Fasga.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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