Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 2

Jornada dos israelitas de Cadesbarne a Seon. Deus lhes proíbe guerrear com os idumeus, moabitas e amonitas. Desfeita de Seon.

1E partindo dali viemos ao deserto, que leva ao mar Vermelho, como o Senhor mo tinha dito: e andamos •muito tempo à roda do monte Seir.

2Então me disse o Senhor:

3Basta cie andares à rocia déste monte: ide para o setentrião:

4e ordena ao povo, dizenclo: Vós passareis pelos confins dos filhos de Esaú vossos irmãos, que habitam em Seir, e cies vos temerão.

5Guardai-vos pois de os atacar: Porque eu vos não darei da terra dêles nem quanto um pé pode calcar, visto ter eu ciado em possessão a Esaú o monte Seir.

6Comprar-lhes-eis por dinheiro tudo o que houver des de comer: e também lhes comprareis a água que tirar des e que beberdes.

7O Senhor teu Deus te abençoou em tôdas as obras das tuas mãos: Êle conheceu o teu caminho, como passas te este grande deserto, habitando contigo o Senhor teu Deus por espaço de quarenta anos, e não te tem faltado nada.

8Depois que passamos as terras dos filhos de Esaú nossos irmãos, que habitavam em Seir, pelo caminho da planície de Elat, e de Asiongaber, viemos ao caminho, que guia para o deserto de Moab.[1]ELAT E ASIONGABERCidades situadas sôbro o mar Vermelho, na extremidade 'setentrional do gôlfo Elanitico, que to mou êste nome duma destas cidades. Na época do Êxodo pertenciam aos idumeus, mais tarde, porém, caíram sob o poder de Davi com o resto da iduméia, partindo dos seus portos para Oíir as naus de Salomão, 3 Rs 9, 26, voltando aos seus antigos possuidores no rei nado de Acaz, 4 Rs 16, 6.

9Então me disse o Senhor: Não pelejes contra os moabitas, e não lhes faças guerra: Porque eu te não darei nada da sua terra, visto que dei A r em possessão aos filhos de Ló.

10Os Emins foram os seus primeiros habitadores.[2]EMINSRaça de gigantes venerados por Codorlaomor e seus aliados; habitavam a este do mar Morto. No original hebraico está Refaim, gigantes.

11se tinham por gigantes, e eram semelhantes aos filhos dos Enacins. Enfim os moabitas os chamam Emins.

12Em Seir porém habitaram primeiro os horreus: Os quais expulsos e destruídos, habitaram ali os filhos de Esaú, assim como o povo de Israel se estabeleceu na terra da sua possessão, que o Senhor lhe deu.[3]XA TERRA DA SUA POSSESSÃOAlude Moisés à terra de Galaad e à de Basan, que havia conquistado; é claro que não se refere à Terra da Promissão, porque nessa não tinham entrado ainda os hebreus.

13Movendo-nos pois para passar a torrente de Zareb, chegamos a ela.

14Ora o tempo, que nos pusemos cm marcha des de Cadesbarne até à passagem da torrente de Zared, fo ram trinta e oito anos: Até que se extinguiu do campo tôda a geração dos homens de guerra, como o Senhor tinha jurado:

15Cuja mão foi sôbre êles, para os fazer perecer do meio do campo.

16Depois da morte porém de todos estes homens de guerra,

17me falou o Senhor, dizendo:

18Tu passarás hòje os confins de Moab, uma cida de que se chama por nome A r:

19E chegando às vizinhanças dos filhos de Amon, vê lá não pelejes contra êles, nem lhes faças guerra: Por que eu te não darei nada da terra dos filhos de Amon, visto tê-la dado em possessão aos filhos de Ló.

20Êste país foi reputado o país dos gigantes: Por-

21povo grande, e numeroso, e de alta estatura, como os Enacins, que o Senhor exterminou de diante dêles: e os fêz habitar em seu lugar,

22como êle fizera a respeito dos filhos de Esaú, que habitam em Scir, exterminando os horreus, e dan do-lhes o seu país, que possuem até ao presente.

23Da mesma sorte aos heveus, que habitavam des de Haserim até Gaza, os lançaram fora os capadócios: Os quais tendo saído da Capadócia, os destruíram, e se estabeleceram em seu lugar.[4]GAZAEra uma das principais cidades dos filisteus, situada na extremidade sudoeste da planície de Sefela. OS CAPADÓCIOS — No original hebraico está CaphtorJu», isto é, saídos de Caftor, que naturnlmente é Creta. Alguns historiadores sustentam que os filisteus emigraram de Sidônia.

24Levantai-vos, e passai a torrente de Arnon: Eis- -aí te entreguei eu nas tuas mãos a Seon amorreu rei de Hesebon, e entra a possuir a sua terra, e peleja contra êlc.

25Hoje começarei a meter o terror e o medo das tuas armas nos povos, que habitam debaixo de todo o céu; para que ao ouvir o teu nome fiquem espavoridos, e à maneira das que estão para parir tremam, e sintam dores.[5]QUE HABITAM DEBAIXO DE TODO O CÉUE’ uma hipérbole, que se deve aplicar t&o sòmenle aos povos conhecidos de Moisés e dos israelitas.

26Eu pois da solidão de Cademot enviei embaixa dores a Seon rei de Hesebon com palavras de paz, dizendo-lhe:

27Passaremos pela tua terra, iremos pela estrada

28Vende-nos tudo o que houvermos mister para comer: dá-nos também pelo nosso dinheiro a água. que bebermos. Permite-nos somente a passagem.

29como fizeram os filhos de Esaii, que habitam cm Seir, e os moabitas, que habitam em A r: até que che guemos ao Jordão, e passemos à terra, que o Senhor nosso Deus está para nos dar.

30Mas Seon rei de Hesebon não nos quis dar pas sagem: porque o Senhor teu Deus ihe tinha obdurado o espírito, e empedernido o seu coração, para êle te ser en tregue às mãos, como tu agora vês.

31Então me disse o Senhor: Eis comecei eu a te entregar Seon com o seu país, começa a possuí-lo.

32E Seon saiu em nosso encontro com todo o seu povo, para nos dar batalha em Jasa.[6]JASAEntre Dibon e Medaba.

33E o Senhor nosso Deus no-lo entregou: E nós o derrotamos com seus filhos c com todo o seu povo.

34Tomamos-lhe ao mesmo tempo tôdas as suas ci dades: Mortos os seus habitantes, homens e mulheres e meninos, e nelas não deixamos nada:

35Exceto os animais, que vieram a ser presa dos saqueadores: e os despojos das cidades, que tomamos

36desde Aroer, que está sôbre a ribanceira da tor rente de Arnon, cidade situada no vale, até Galaad. Não houve aldeia nem cidade, que escapasse às nossas mãos: Tôdas no-las entregou o Senhor nosso Deus:[7]QUÉ ESCAPASSE AS NOSSAS MAOSNo original he braico está: Não houve cidade demasiado alta para nós.

37Tirando o país dos filhos de Amon, a que não chegamos: e tudo o que está nos arredores da torrente

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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