Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 17

Judeus idólatras castigados de morte. Consultas dos sacerdotes nas coisas difíceis. Eleição dum rei.

1Não imolarás ao Senhor teu Deus ovelha, ou boi, que tenha qualquer defeito, ou qualquer vício: porque isto é uma abominação para o Senhor teu Deus.

2Quando forem achados na tua cidade, dentro dal guma das tuas portas, que o Senhor teu Deus te tiver dado, homem Ou mulher que cometam o mal diante do Senhor teu Deus, e violem o seu pacto,

3indo a servir a deuses estranhos e a adorá-los, ao sol e à lua, e tôda a milícia do céu, contra o que eu mandei:

4e te derem aviso disto, e tendo ouvido te informa res com exação, se souberes que assim foi, e que esta abo minação se cometeu em Israel: *

5Farás conduzir às portas da tua cidade o homem ou mulher, que cometeram um crime tão detestável, e serão apedrejados.

6Sôbre o depoimento de duas, ou três testemunhas morrerá aquele que houver de ser castigado de morte. E nenhum será morto sôbre o testemunho duma só pessoa.

7As testemunhas serão as primeiras, que lhe ati rem, depois atirar-lhe-á todo o resto do povo: para que tires o mal do meio de ti.

8Se açòntecer que penda d,iante de ti algum negó cio* difícil e escabroso entre sangue e sangue, entre cau sa e causa, e entre lepra e lepra: e vires que dentro das tuas portas, são vários os pareceres dos juízes: levanta- -te, e sobe ao lugar, que o Senhor teu Deus tiver esco lhido.

9e encaminhar-te-ás aos sacerdotes da linhagem de Levi, e ao juiz, que nesse tempo fôr: e consultá-los- -ás, e eles te descobrirão a verdade do juízo.[1]ENCAMINHAR-TE-ÁS AOS SACERDOTES DA LINHA GEM DE LEVIO sacerdócio, sob a presidência do Pontí fice, formava um tribunal superior para dirimir pleitos duyldosoB. Parece que neste lugar há uma faculdade dada aos interessados, que podem ou não usar dela; não há, porém, direito para os sacerdote» de levar estas causas ao seu tribunal. (2). EU CONSTITUIREI UM REI — Moisés conhecendo bem o seu povo, qiie tinha vindo do Egito e de Canaã, previa que êle,

10E farás tudo o que te disserem os que presidem no lugar, que o Senhor tiver escolhido, e tudo o que êles te ensinarem,

11segundo a lei do Senhor; e seguirás seus parece res: sem declinares nem para a direita nem para a es querda.

12Aquele porém que inchado de soberba, não qui ser obedecer ao mandado do sacerdote, que nesse tempo fôr o ministro do Senhor teu Deus, e ao decretodo juiz, esse homem morrerá, e tu tirarás o mal do meio de Israel:

13E todo o povo ouvindo isto temerá, para que daí em diante nenhum se inche de soberba.

14Quando entrares na terra, que o Senhor teu Deus te há de dar, e tiveres tomado posse dela, e nela habitares, e disseres: Eu constituirei um rei para me. governar, como têm tôdas as nações em roda:[2]EU CONSTITUIREI UM REIMoisés conhecendo bem o seu povo, que tinha vindo do Egito e de Canaã, previa que êle, arrastado pelo espírito da imitação, começaria pedindo um rei, porque os egípcios tinham um Faraó, e os cananeus vários príncipes. E' muito acreditável que tivesse por mais duma vez falado nesta autoridade, cuja escolha referia a Deus "aquêle que o Senhor tiver escolhido".

15Elegerás aquêle, que o Senhor teu Deus tiver escolhido do número de teus irmãos. Não poderás fazer rei a homem doutra nação, que não seja teu irmão.

16E quando êsse fôr constituído, não multiplicará os seus cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito, confiado na sua numerosa cavalaria, principalmente tendo-vos o Senhor ordenado, que não torneis mais a voltar pelo mes mo caminho.[3]NEM FARA VOLTAR O POVO AO EGITOÊste receio aó podia ser concebido no deserto, quando os hebreus, desalentados pelas provações, falaram em voltar para a terra de Gessen. Certamente um escritor que tivesse composto êste livro posteriormente, ao tempo de Davi, Salomão, Acab ou Ezequias, como podia alulir a êste abandono da Palestina e à recondução para o Egito? Isto é, uma data precisa inscrita no Dt.

17Não terá muitas mulheres, que lhe atraiam o seu coração, nem imensas somas de prata e ouro.

18E depois que êle estiver sentado no trono do seu reino, fará escrever para seu uso num livro o Deuteronô mio desta lei recebendo o exemplar dos sacerdotes da tri bo de Levi,[4]O DEUTERONÔMIO DESTA LEIIsto é, um duplicado, um segundo exemplar desta lei.

19e tê-lo-á consigo, e o lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o Senhor seu Deus,’ e a guardar as suas palavras e cerimónias, que estão prescri tas na lei.

20Não se eleve o seu coração de soberba sôbre seus irmãos, e não decline nem para a direita nem para a es querda, para assim reinarem muito tempo sôbre Israel, êle, e seus filhos.[5]E SEUS FILHOSEstas palavras são o fundamento do direito hereditário, regulador da transmissão do poder soberano.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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