Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Notícia de Basan. Extermínio do seu povo. Partilha feita às tribos de Rúben, de Gad, e à meia tribo de Manassés. Não pode Moisés obter para si a entrada na Terra da Promissão.

1Tendo pois voltado tomamos o caminho de Basan: e Og, rei de Basan, saiu ao nosso encontro com o seu povo para nos dar batalha em Edrai.

2Então me disse o Senhor: Não o tem as: porque êle te foi entregue com todo o seu povo e o seu país: e lhe farás a êle como fizeste a Seon, rei dos amorreus, que habitava em Hesebon.

3O Senhor nosso Deus pois entregou nas nossas mãos a Og, rei de Basan, e a todo seu povo: e os passamos a cutelo sem perdoar a nenhum,

4devastando ao mesmo tempo tôdas as suas cida des: Não houve cidade, que nos escapasse: Tomamos sessenta cidades, e todo o país de Argob que era o reino de Og, em Basan.[1]SESSENTA CIDADESForam mata tarde chamadas Havot Jair, porque vieram a pertencer a Jair, da tribo de Manassés. O PAIS DE ARGOB — Mais tarde, no tempo de Jesus Cristo, a Traconitida. O Argob é um país vulcânico, coberto de rochas basálticas.

5Tôdas as cidades estavam fortificadas com mu ros altíssimos, c portas e trancas, afora inumeráveis po voações, que não tinham muros.

6E os destruímos, como tínhamos feito a Seon rei

7E tomamos-lhes os seus gados com os despojos das cidades.

8Nós pois neste tempo nos fizemos senhores do pais dos dois reis dos amorreus, que estavam na banda de aquém do Jordão, desde a torrente de Arnon até o monte Hermon,[2]’ ARNONRio que vai desaguar no mar Morto. HERMON — Cordilheira ao norte da Palestina, ramificação do Ante-Líbano. *

9o qual os sidônios chamam Sarion, e os amorreus Sanir:

10Tôdas as cidades, que estão situadas na campina, e todo o país de Galaad e de Basan até Selca, e Edrai, cidades do reino de Og em Basan.

11Porque Og, rei de Basan, era o único que tinha” ficado da estirpe dos gigantes. Em Rabat, cidade dos filhos de Amon, se mostra o seu leito de ferro, que tem nove côvados de comprido, quatro de largo, pela medi da de um côvado de mão de homem.[3]SÉU LEITO DE FERROProvàvelmente o sarcófago em que foi colocado depois de morto. Por ferro deve enteude^-se o basalto negro, freqiiente naquela região, onde o ferro entra numa proporção de 20 por cento. Ainda hoje os árabes chamam ao basalto ferro.

12E naquele tempo entramos nós de. posse deste país desde Aroer, que é sôbre a ribanceira da torrente de Arnon, até o meio da serra de Galaad: e dei as cida des situadas nelas às tribos de Rúben e de Gad.

13A outra parte porém de Galaad, e todo o Ba san, que é o reino de Og, e todo o país de Argob, dei-os

14Jair filho de Manasses possuiu todo o país de Argob até os confins de Gessuri, e de Macati. E cha mou do seu nome a Basan, Havot-Jair, isto é, aldeias de Jair, como elas se nomeiam ainda hoje.

15Dei também Galaad a Maquir.

16E às tribos de Rúben e de Gad dei da terra de Galaad até à ' torrente de Arnon a metade da torrente, e dos seus confins até à torrente de Jeboc, que é a fron teira dos filhos de Amon:

17Com a campina do deserto, e o Jordão, e os li mites desde Ceneret até o mar do deserto, que é salga- *díssimo, até às faldas do monte Fasga para o Oriente.[4]SAIX3AD1SS1MOE’ o mar Morto.

18Neste mesmo tempo vos dei eu esta ordem, dizen do: O Senhor vosso Deus vos dá esta terra por herança, marchai pois armados diante dos filhos de Israel vossos irmãos, todos vós os que sois homens de valor:

19Exceto as mulheres, e meninos e animais. Por que eu sei que tendes um grande número de gados, e estes deverão ficar nas cidades, que eu vos dei,

20até que o Senhor dê o descanso a vossos irmãos, assim como vo-lo deu a vós: e êles possuam também a terra, que está para lhes dar na banda de além do Jor dão: Então cada um de vós voltará a gozar das terras que eu vos tenho dado.

21Também então fiz esta advertência a Josué, dizendo: Os teus olhos viram como o Senhor vosso Deus tratou a êstes dois reis: o mesmo fará êle a todos os reinos, a que tu tens de passar.

22Não os temas: Porque o Senhor vosso Deus pelejará por vós.

23E eu roguei ao Senhor naquele tempo, dizendo:

24Senhor Deus, tu começaste amostrar ao teu ser vo a tua grandeza, e a tua mão poderosíssima: Porque não há outro Deus ou no céu, ou na terra, que possa fa zer as tuas obras, ou comparar-se com a tua fortaleza.

25Passarei pois, e verei essa excelente terra além do Jordão, êsse belo monte, e o Líbano.[5]PASSAREI. POISInterpretam alguns estas palavras desta forma: Tranisire milii liceat, e porque ignoravam que isso era contra a vontade de Deus, julgando que a predição não era defini tiva, não passando duma ameaça. Ncscicbat an praedictio illa erat definitiva, an tantum comminatoria. BELO MONTE — Toma-se a parte pelo todo, e designa tôda a terra de Canaã. Menochio pensou que se tratava do monte Moriá, no qual teve lugar o sacrifício de Isaac, ou ainda as montanhas de Betei, mais altas que o Moriá, e mais vizinhas do Jordão, pouco afastadas de Jericó.

26E o Senhor se irou contra mim por causa de vós e não me ouviu, mas disse-me: Basta: Não me fales mais nisto.

27Sobe ao cume do monte Fasga, e lança os teus olhos em roda para o ocidente, e para o setentrião, para o meio-dia e para o oriente, e olha: Porque tu não pas sarás este Jordão.

28Dá as tuas ordens a Josué, e anima-o e forta lece-o: Porque êle é que há de marchar diante dêste po vo, e que há de repartir por êles a terra que tu verás.

29E ficamos no vale defronte do templo de Fogor.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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