Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

Como se devem de haver os israelitas com os cananeus. Que se não ofereçam sacrifícios nos montes nem nos bosques, mas no lugar que o Senhor designar. Que se abstenham inteiramente de comer sangue e outros manjares imundos.

1Êstes são os preceitos e juízos, que vós deveis cumprir na terra, que o Senhor Deus de teus pais te há de dar, para a possuíres todos os dias, que andares sôbre a terra.[1]ÊSTES S'AO OS PRECEITOSÊste versículo é o preâm bulo da segunda parte do discurso de Moisés, 12-26. O legislador vai rememorar resumidamente a lei que Deus o encarregou de dar ao povo, enumerando diversos pontos de direito religioso, público e privado.

2Destruí todos os lugares, em que as nações, que haveis de subjugar, adoraram os seus deuses sôbre os altos montes e outeiros, e debaixo de tôda a árvore frondosa.

3Derribai os seus altares, e quebrai as suas estátuas,[2]DERRIBAI OS SEUS ALTARESA idéia dominante de que cada povo devia ter os seus deuses particulares era uma tenta ção para os israelitas adorarem os falsos deuses da terra de Canaã, confundindo a idolatria com o culto do verdadeiro Deus. Moisés pre vê êsté perigo e por isso promulga esta disposição, tendente a des truir todos os vestígios da idolatria.

4Não fareis porém assim com o Senhor vosso Deus:

5Mas vireis ao lugar, que o Senhor vosso Deus escolher de tôdas as vossas tribos, para aí pôr o seu nome, e habitar nêle:

6e oferecereis naquele lugar os vossos holocaus tos e vítimas, os dízimos e as primícias das vossas mãos, e os votos e ofertas, os primogénitos das vacas e das ovelhas.

7E aí comereis na presença do Senhor vosso Deus: e vos regozijareis vós e as vossas famílias em tôdas as coisas em que meterd.es a mão, nas quais o Senhor vosso Deus vos abençoar.

8Não fareis ali o que nós fazemos hoje aqui, cada um o que bem lhe parece.

9Porque ainda até o presente não entrastes no re pouso, e herança, que o Senhor vosso Deus está para vos dar.

10Passareis o Jordão, e habitareis na terra, que o Senhor vosso Deus vos dará, para estardes seguros de todos os inimigos que vos cercam: e habitardes sem te mor algum

11no lugar, que o Senhor vosso Deus tiver escolhi do, para nêle estar o seu nome: lá levareis tôdas as coisas que eu prescrevo, os holocaustos, e as hóstias, e os dízi mos, e as primícias das vossas mãos: e tudo o melhor que houver dos dons que oferecerdes em voto ao Senhor.

12Aí vos banqueteareis diante do Senhor vosso Deus, vós e vossos filhos e filhas, servos e servas, e o levita que mora nas vossas cidades: Porque êles não têm outra porção nem herança entre vós.[3]VOS BANQUETEAREIS DIANTE DO SENHORHá aqui uma referência às refeições sagradas que acompanhavam um certo número de sacrifícios, e onde o oferente da vítima consumia parte desta.

13Olha, não ofereças os tèus holocaustos em qual quer lugar, que vires:

14Mas oferecerás as hóstias naquele, que o Senhor tiver escolhido, em alguma das tuas tribos, e farás tudo o que te mando.

15Se porém quiseres comer, e gostares de comer carne, mata, e come, segundo a bênção que o Senhor teu Deus te deu nas tuas cidades: tu o comerás ou o animal seja imundo, isto é, defeituoso e estropiado; ou seja lim po, isto é, inteiro e sem defeito para se poder oferecer: como uma cabra e um veado.

16Somente te absterás de sangue, o qual escorrerás sôbre a terra como água.

17Não poderás comer nas tuas cidades o dízimo do teu trigo, e do vinho, e do azeite, nem os primogénitos de vacas, e de ovelhas, nem coisa de que tenhas feito voto', ou que voluntàriamente queiras oferecer, nem as primí cias das tuas mãos:[4]O DÍZIMOAlém do dízimo pago aos levitas e reser vado ao seu uso, os israelitas tinham um outro extraordinário, que se trazia ao lugar das festas, e que devia ser consumido Junto da santuário.

18Mas comerás destas coisas diante do Senhor teu Deus no lugar que o Senhor teu Deus tiver escolhido, tu é teu filho e tua filha, e o servo e serva, e o levita, que mora nas tuas cidades: e te alegrarás e tomarás a tua

19Olha, não desampares nunca o levita por todo tempo que viveres na terra.

20Quando o Senhor teu Deus tiver dilatado os teus limites, como êle te prometeu, e tu quiseres comer das carnes, que a tua alma apetece:

21Se estiver longe o lugar, que o Senhor teu Deus tiver escolhido, para nêle estar o seu nome, matarás das manadas e gados, que tiveres, como eu te ordenei, e co merás nas tuas cidades, como gostares.

22Como sé come a cabra e o veado, assim comerás tu estas carnes: e o limpo e o imundo se comerá indife rentemente.

23Guarda-te somente de lhes comer o sangue: por que o sangue lhes serve de alma e por isso, não deves co mer a alma com a carne:[5]O SANGUE LHES SERVE DE ALMAA Vulgata tra duziu por anima o têrmo hebraico nefeech, que significa sôpro, res piração; e como esta é o sinal da vida, os hebreus acabaram por designar a própria Tida pela mesma palavra nefesch. NAO DEVES COMER A ALMA — Isto é, o sangue, pela mesma razão por que é pelo sangue que se alenta e conserva a vida; escu sado é dizer que se trata da vida animal. Quia sanguine alitur et servatur vita. Por consequência temos que alma é, aqui, sinónimo de sangue, pelo que é proibido comer, carne com sangue. Animam com carnem idest Carnem cum sanguine. Menochlo, Lapide, etc.

24Mas escorrê-lo-ás sôbre a terra como água:

25Para serdes felizes tu e teus filhos depois de ti, tendo feito o que é agradável aos olhos do Senhor.

26Quanto às coisas que tu tiveres santificado, e que tiveres votado ao Senhor tu as tomarás; e virás ao lugar, que o Senhor tiver escolhido:

27E apresentarás as tuas oblações, a carne e o san-

28Observa e ouve tudo o que eu te ordeno, para serdes felizes para sempre tu e teus filhos depois de ti, tendo feito ò que é bom, e agradável ao Senhor teu Deus.

29Quando o Senhor teu Deus tiver exterminado diante de ti as gentes, que entrando vás a possuir, e as possuíres, e habitares nas suas terras:

30Guarda-te, não as imites, depois que elas tive rem sido destruídas na tua entrada, nem te informes das suas cerimónias, dizendo: Assim como estas gentes adoraram os seus deuses, do mesmo modo também eu os adorarei.

31Não o farás assim, com o Senhor teu Deus. Por que elas fizeram pelos seus deuses, tôdas as abominações, que o Senhor aborrece, oferece.ndo-lhes seus filhos e filhas e queimando-os no fogo.[6]OFERECENDO-LHES SEUS FILHOS E FILHASE’ a condenação formal dos sacrifícios humanos que o Senhor aborrece, e que sempre foram proscritos em Israel.

32Faze somente em honra do Senhor, aquilo que eu te ordeno: sem ajuntar, nem tirar nada.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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