Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 33

Abençoa Moisés as doze tribos de Israel e prediz o que há de suceder a cada uma.

1Esta é a bênção, que deu Moisés homem de Deus, aos filhos de Israel, antes d.a sua morte.

2E disse: O Senhor veio de Sinai, e nasceu de Seir para nós: Apareceu sôbre o monte Faran, e milhares de santos com êle. Na sua direita vinha a lei do fogo.[1]SEIR... FARAN ■— O monte Selr estava na Zoloméia eo de Faran numa região do país dos ismaelltas, à qual dava o nome. Deve-se notar que Moisés cita o Sinai, Seir e Faran, não em relação à. sua situação geográfica, visto que Faran está mais perto do Sinai do que Seir, mas relatlvamente ao caminho que os israe litas tomaram quando se dirigiam para a Terra Santa. Moisés reúne estes três lugares, porque foram todos três notabilizados pelas ma ravilhas que o Senhor aí operou. A LEI DO FOGOOs intérpretes têm dado vários sentidos a esta expressão, uns dizem que Moisés empregou esta frase, porque a lei foi dada no meio do fogo, ígnea dicitur Lex quia ex igne pro fecia Dt 5, 22. Pérsico. Menochio diz De médio lgnls legem dedit eis: etc. Outros dizem que Moisés chama à Lei ígnea porque é semelhante ao fogo, e citam Jer 23, 29, porque incendeia o nosso coração inflamnunis cor noslnun (Tiriuo).

3Ele amou os povos; todos os santos estão na sua mão: E os que se chegam a seus pés, receberão da sua doutrina.[2]OS POVOSDeve entender-se aqui esta frase em sen tido amplo, todos os povos, referindo-se, segundo os melhores in-

4Moisés nos prescreveu a lei para ser a herança de todos os filhos de Jacó.[3]A HERANÇAIsto é, que a Lei passe por direito he reditário a todos os filhos de Israel, para que aí permaneça e se conserve inalterável. Chama Moisés à Lei herança: l.° porque seria transmitida pelos presentes aos futuros; 2.° porque é dada com a herança; 3.° pela sua excelência e suprema importância que valia mais do que todos os tesouros que pudessem ser legados. Lex hereditas dicitur. I quia presentibus futurls dabatur, etc. Cornélio a Lapide.

5Será junto do retíssimo o rei, estando congrega dos os príncipes do povo com as tribos de Israel.[4]O REITodos os intérpretes entendem que esta ex pressão se aplica a Moisés, o qual, embora nunca usasse o título de. Rei, desfrutou a autoridade é as prerrogativas régias. Rex fuit (Moyses) non quidem nominc ct pompa sed jure regis populo gubernabit (Menochio.)

6Viva Rúben, e não morra, mas êle seja em pe queno número. (.5)[5]VIVA RÚBENMoisés imita a Jacó; abençoou 6m geral todo o povo de Deus, e vai conferir uma bênção particular para cada tribo, excetuada a de Simeão, porque esta, segundo a profecia de Jacó, estava em parte dispersa em Israel (Vigouroux, ob. d t.)..................

7Esta é a bênção de Judá. Ouve, Senhor, a voz de Judá, e introduze-a no seu povo: As suas mãos peleja rão por êle e êle será o seu protetor contra os seus ad versários.

8Disse também a Levi: A tua perfeição, e a tua doutrina é para o teu santo varão, que tu provaste na tentação, e julgaste. nas águas da contradição.[6]A LEVIOs Levitas constituíam a tribo sacerdotal, e permaneceram fiéis ao verdadeiro Deus, quando as outras tribos caíram na idolatria, adorando o bezerro de ouro.

9Os que disseram a seu pai, é a sua mãe: Eu não vos conheço: E a seus irmãos: Eu não sei quem vós sois: E que não conheceram seus próprios filhos. Êstes são os que executaram a tua palavra, e os que guardaram o teu pacto,

10os teus juízos, ó Jacó, e a tua lei, ó Israel: Êstes oferecerão incenso no tempo do teu furor, e porão o holocausto sôbre o teu altar.

11Abençoa, Senhor, a sua fortaleza, e aceita as obras das suas mãos. Fere as costas dos seus inimigos: E os que o aborrecem, não se levantem.

12Disse também a Benjamim: O muito amado do Senhor habitará nêle confiadamente: Morará como em tálamo nupcial todo o dia, e descansará entre os seus braços.[7]ENTRE OS SEUS BRAÇOS---- Segundo os melhores in térpretes, é o próprio Deus que havia de descansar em Benjamim, escolhendo Jerusalém, cidade desta tribo, para ai estabelecer o seu santuário.

13Disse também a José: A tua terra seja cheia das bênçãos do Senhor, dos frutos do céu, e do orvalho, e do abismo que está debaixo.

14Dos frutos produzidos por virtude do sol, e da lua:

15Dos frutos, que crescem sôbre os montes anti gos, e sôbre os outeiros eternos:

16E dos frutos da terra, e de tôda a sua abundân cia. A bênção daquele, que apareceu na sarça, venha sô-

17A sua formosura é como a do primogénito do touro; os seus cornos são como os cornos do rinoceronte: Com êles levantará ao ar tôdas as gentes até às extre midades da terra: Tais são as tropas inumeráveis de Efraim: E tais são os milhares de Manassés.

18Disse também a Zabulon: Alegra-te Zabulon, na tua saída, e tu, Issacar, nas tuas tendas.[8]NAS TUAS TUNDASUma parte da fértil planície de Esdrelon foi encravada no território de Issacar, sendo esta planície teatro de invasões, que obrigavam os filhos de Issacar a fugir, acampando debaixo das tendas.

19Êles chamarão os povos ao monte: aí imolarão vítimas de justiça. Êles chuparão como leite as riquezas do mar, e.os tesouros escondidos nas areias.[9]OS TESOUROS ESCONDIDOS NAS AREIAS DE BELUSE’ uma referência ao vidro fabricado pelos fenícios.

20Disse também a Gad: Bendito Gad na vastidão da sua partilha: Êle repousou como leão, e arrebatou o braço e a cabeça.[10]COMO UM LEÃOGad teve alguma coisa do caráter do leão de Judá. Como o leão, habitou as florestas, ao sul de Jaboc, a este do Jordão, e tornou-se notável pela. sua fôrça e céle bre valentia. 1 Par 12, 8-15.

21Êle conheceu a sua prerrogativa, porquanto na sua partilha estava depositado o doutor: Êle andou com os príncipes do seu povo, e observou as leis do Senhor, e as suas ordens com Israel.

22Disse também a Dan: Dan, cachorro de leão se estenderá largamente desde Basan.

23Disse mais a Neftali: Neftali gozará da abun dância, e será cheio das bênçãos do Senhor: Possuirá o mar e o meio-dia.

24Disse outrossim a Aser: Bendito Aser etltre os filhos, êle caia em graça a seus irmãos e banhe em azei te o seu pé.

25O ferro e o bronze serão seu calçado. Os dias da tua velhice sejam como os da tua mocidade.[11]O PERRO E O BRONZE SERÃO SEU CALÇADOUns querem entender por esta forma: — Tudo o que calcares será ferro e bronze; ou por esta outra: — Na tua ten*a haverá tal abundância de ferro e de bronze, que vos podeis calcar com éstes metais. Tanta copia aerls et ferrl ut pos-vis ex iis calecos conficere (Tirino). Porém, segundo a opinião mais corrente, estas palavras designam a íôrea e o valor nunca desmentido da tribo a quem se referem: Fors sicut acs et femim habitatio tua. Coruélio a Lapide.

26Não há outro Deus, como o Deus do retíssimo: £ teu protetor é aquêle que sobe ao mais alto dos céus. Pelo seu poder correm as nuvens,

27a sua habitação é lá no alto, e cá em baixo seus braços eternos: Êle fará fugir da tua presença o inimigo, e d irá: Sê reduzido a pó.

28Israel habitará em plena segurança, e habitará só. Os olhos de Jacó verão a sua terra cheia de pão e de vinho, ê os céus se escurecerão com o orvalho.

29Bem-aventurado tu, ó Israel: Quem semelhante a ti, ó povo, que és salvo em o Senhor? êle é o escudo do teu socorro, e a espada da tua glória: Os teus inimigos não te reconhecerão, mas tu lhes porás'o pé no pescoço.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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