Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 5

Repete Moisés ao povo os preceitos do Decálogo, ou os dez mandamentos.

1Convocou pois Moisés a todo o Israel, e lhe disse: Ouve, ó Israel, as cerimónias, e ordenações, que eu hoje te falo aos teus ouvidos: aprende-as e põe-nas por obra.

2O Senhor nosso Deus fêz um concerto conosco em Iioreb.

3Não fêz pacto com nossos pais, mas fê-lo conos co que somos, e vivemos hoje.

4Face a face nos falou no monte do meio do fogo.

5Então eu fui o que intervim como mediador en tre o Senhor e vós, para vos anunciar as suas palavras: porque vós tivestes mêdo do fogo, e não subistes ao mon te, e êle disse:

6Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito da casa da servidão.[1]EU SOU O SENHOR TEU DEUSO Senhor lembra a Moisés que é o seu Deus, o único Deus, a fim de proscreVer a idola tria e o politeísmo. O monoteísmo é o primeiro artigo do credo de Moisés. O Senhor é o ser por excelência. Iahvéh, o que é e será, som limite no tempo e sem limite no espaço, eterno e imenso, criador do céu e da terra, causa necessária de tudo quanto em si não tem razão de ser, juiz de tôda a terra (Gôn 6, 13) autor e senhor da vida. Eu sou o Senhor: esta frase resume os nossos deveres paro com Deus, para com o próximo e para conosco, fazendo consistir em

7Não terás em minha presença deuses estranhos.

8Não farás para ti imagem de escultura, nem fi-

9Não as adorarás nem lhes darás culto. Porque •eu sou o Senhor teu Deus: Deus zeloso, que castigo a iniquidade dos pais sôbre os filhos até a terceira e quar-.ta geração daqueles que me aborrecem,

10e que faço misericórdia por muitos milhares dos

11Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão: Porque não ficará sem castigo aquele que tomar o.seu nome sôbre uma coisa vã.

12Observa o dia de sábado, para o santificardes, como o Senhor teu Deus te mandou.

13Seis dias trabalharás, e farás tôdas as tuas obras.

14Mas o dia sétimo é o sábado, isto é, o dia do «descanso do Senhor teu Deus. Não farás nêle algum tra balho nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu es cravo, nem a tua escrava, nem o teu boi, nem o teu ju mento, nem animal algum teu, nem o forasteiro que vive das tuas portas para dentro; para que descanse o leu escravo, e a tua escrava, como tu também descansas.

15Lembra-te que também tu serviste no Egito, e «que de lá te tirou o Senhor teu Deus com uma mão pode rosa, e com um braço estendido. Por isso te mandei que observasses o dia do sábado.[2]E QUE DE I#A TE TIROUMoisés lembra a escravidão em que viveu o povo escolhido no Egito, e o favor que de Deus receberam os hebreus libertando-os.

16Honra a teu pai e a tua mãe, como te mandou o Senhor teu Deus, para viveres largo tempo, e para

17Não matarás.

18Não fornicarás.

19Não furtarás.

20Não dirás falso testemunho contra o teu pró ximo.

21Não cobiçarás a mulher do teu próximo: Nem a sua casa. nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa‘al guma que lhe pertença.

22Estas palavras pronunciou o Senhor a tôda a vossa multidão no monte do meio do fogo, e da nuvem, e da escuridade, com uma voz forte, sem ajuntar mais nada: e as escreveu em duas tábuas de pedra, que me entregou.

23Mas depois que vós ouvistes a voz desde o meio das trevas, e vistes arder o monte, vós todos os prínci pes das tribos, e os anciãos viestes ter comigo, e me dis sestes:

24Eis-aí nos mostrou o Senhor nosso Deus a sua majestade e grandeza: nós ouvimos a sua voz desde o meio do fogo, e experimentamos hoje que falando Deus ao ho mem, o homem ficou com vida. •

25Por que morreremos nós logo, e seremos' devo rados por êste grandíssimo fogo? Porque se nós tornar mos a ouvir a voz do Senhor nosso Deus, morreremos.

26Que é tôda a carne, para que ouça a voz do Deus vivo, que fala do meio do fogo, como nós o ouvimos, e possa viver?[3]1>EUS■No original hebraico está. Eloiui, forma plural que se designa sob o nome do plural de excelência, pelo respeito devido à divindade, e tanto que ordinàriamente tem o verbo no sln-

27Tu chcga-te mais: e ouve tôdas as coisas que o Senhor nosso Deus te disser: Depois no-las dirás, e nós ouvindo-as as cumpriremos.

28O que tendo ouvido o Senhor, me disse: Eu ouvi as palavras que êste povo te disse: Em tudo fala ram êles bem.

29Quem dera que êles tivessem tal coração, que me temessem, e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que lhes fosse bem c a seus fi lhos para sempre?

30Vai e dize-lhes: Voltai para as vossas tendas.

31Tu porém deixa-te ficar aqui comigo, e eu te direi todos os meus mandamentos, e cerimónias e orde nações: as quais lhes ensinarás, para que as observem na terra, que eu lhes hei de dar em possessão.

32Guardai pois e executai o que o Senhor Deus vos mandou: Não declinareis nem para a direita nem para a esquerda:

33Mas andareis, pelo caminho, que o Senhor vosso Deus vos prescreveu, para que vivais, e vos suceda bem, e pará que os vossos dias se multipliquem na terra da vossa possessão.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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