Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

Continua Moisés a exortar os israelitas à observância dos preceitos do Senhor. Abençoa os que os observarem e amaldiçoa os que os transgredirem.

1Ama pois ao Senhor teu Deus, e guarda em todo o tempo os seus preceitos, e cerimónias, os seus juízos e mandamentos.[1]EM TODO O TEMPOA Vulgata traduziu por omni temporo o hebreu kol-hniamim, que significa todos os dias, ao que corresponde rigorosamente a versão dos Setenta.

2Conhecei hoje o que ignoram os vossos filhos, que não viram os castigos do Senhor vosso Deus, as suas maravilhas e a sua mão poderosa, e o seu braço estendido,[2]O QUE IGNORAM OS VOSSOS FILHOS, QUE NAO VI RAMOs pais de família tinham sido testemunhas presenciais dos milagres por Deus operados à saída do Egito. Moisés invoca êste testemunho para falar aos filhos, que só sabiam de tradição êsses fatos, para lhes fazer ver quanto devem ao Senhor.

3os prodígios e as obras que fêz no meio do Egi to sôbre o rei Faraó, e sôbre todo o seu país,

4e sôbre todo o exército dos egípcios, e sôbre os seus cavalos e carroças: de que modo as águas do mar Vermelho os cobriram, quando vos perseguiam, e como o Senhor os destruiu até o dia presente:

5e o que vos fêz no deserto, até que chegásseis a êste lugar:

6e a Datan e a Abiron filhos de Eliab, que era fi-[3]DATAN E ABIRONNão se faz menção de Coré, o chefe da sedição (Núm 16, 1. 5. 6. 8) certamente por atenção com os seus filhos, que então viviam, e que não tinham sido extermina dos com o pai.

7Os vossos olhos viram tôdas as grandes obras que o Senhor fêz,

8para que guardeis todos os seus mandamentos, que eu hoje vos prescrevo, e possais ocupar e possuir a terra, em que estais a entrar,

9e vivais nela por muito tempo: na terra onde cor rem regatos de leite e de mel, e que o Senhor prometeu com juramento a vossos pais, e à sua posteridade.

10Porque a terra, que tu vais possuir, não é como a terra do Egito, de onde saíste, na qual lançada a semen te se conduz água para regar, como se faz nas hortas:[4]OOMO A TERRA DO EGITOMoisés pretende fazer conhecer o desconhecido pelo conhecido e para isso estabelece o pa ralelo com o Egito, que os filhos de Jacó muito bem conheciam; por aqui se vê quanto estava familiarizado com o Nilo e com o Egito o autor do Pentateuco, o que é outra prova da sua autenticidade. Neste mesmo versículo se faz alusão às inundações do Nilo, cujas águas são distribuídas por canais — se conduz a água para regar — ao passo que na Palestina era preciso chuva. Moisés pretende pôr em relêvo quanto era preciso na Terra Prometida o socorro de Deus.

11mas é montuosa e campestre, que espera as chu vas do céu;

12a qual o Senhor vosso Deus está sempre vendo, e seus olhos estão sôbre ela desde o princípio do ano até ao fim dêle.

13Se vós portanto obedecerdes aos meus preceitos,

14êle dará à vossa terra as chuvas têmporas e se rôdias, para que recolhais pão, e vinho e azeite,[5]AS CHUVAS TEMPORÃS E SERÔDIASAs primeiras são as chuvas do outono, que caem em outubro e novembro, as se gundas são as da primavera, que caem em março e abril. No resto do ano a chuva é excepciònal na Palestina.

15e o feno dos campos para sustentar os vossos gados, e para que vós mesmos tenhais que comer e clc que vos saciar.

16Guardai-vos, não suceda que o vosso coração se deixe seduzir, e que vos aparteis do Senhor, e sirvais a deuses estranhos e os adoreis:

17e que o Senhor irado feche o Céu, e não caiam as chuvas, nem a terra dê os seus frutos; e que vós den tro de pouco tempo sejais exterminados da excelente terra, que o Senhor está para vos dar.

18Ponde nos vossos corações e nos vossos espiri tos estas minhas palavras, e trazei-as suspensas nas vos sas mãos por sinal, e colocai-as entre os vossos olhos.

19Ensina a teus filhos que as meditem, quando estiveres sentado em tua casa, ou caminhares, e quando te deitares ou levantares.

20Escrevê-las-ás sôbre os postes e as portas de tua casa:

21para que os teus dias, e os de teus filhos se mul tipliquem na terra, que o Senhor jurou dar a teus pais, para a possuírem enquanto o céu cobrir a terra.

22Porque se vós observardes os mandamentos que eu vos intimo, e os cumprirdes de modo que ameis o Se nhor vosso Deus, e que andeis em todos os seus caminhos, unidos estreitamente com êle,

23o Senhor destruirá à vossa vista tôdas estas gen tes, e vós as possuireis, sendo que elas são maiores e mais poderosas do que vós.

24Todo lugar, em que vós puserdes os pés, será vosso. Os vossos limites serão desde o deserto, e desde o Líbano, desde o grande rio Eufrates até o mar ociden tal.[6]O MAR OCIDENTALE’ o Mediterrâneo.

25Nenhum se atreverá contra vós: O Senhor vos so Deus espalhará o terror e o espanto do vosso nome sobre tôda terra que haveis de pisar, como êle vo-lo pro meteu.

26Eis-aqui ponho eu hoje diante de vossos olhos a bênção e a maldição:

27a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu hoje vos prescrevo:

28a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, mas vos apartardes do cami nho, que eu hoje vos mostro, e correrdes após os deuses estranhos, que não conheceis.

29Quando porém o Senhor teu Deus te introduzir na terra que vais habitar, porás a bênção sôbre o monte de Garizim, e a maldição sôbre o monte de Hebal:[7]GARIZIM... o monte de HcbnlO monte Garizim é cortado interiormente por uma linha de rochedos; perto de Sique.m, oferece a singular configuração dum triângulo; na parte inferior há cavernas abertas na rocha. Êste rochedo ainda agora se vê per feitamente do presbitério do pároco latino de Naplouse, que 6 a antiga Siquem, situado no vale que separa êstes dois montes. Cf. Stanley, Sinai and Palestine, c. V. 1877, pag. 239, 240. Hebal ó outro monte de Efraim.

30os quais são na banda dc além do Jordão, junto ao caminho que desce para o ocidente, na terra dos cananeus, que habitam nas campinas defronte de Galgala,[8]DE ALÉM DO JORDÃOSignifica aqui, a oeste dêste rio. GALGALA — Há dois locais com êste nome: um ao pé do Jor dão, e o outro, qúe é o presente, fica situado a vinte quilómetros para o sul do Garizim.

31Porque vós passareis o Jordão para possuirdes a terra, que o Senhor vosso Deus vos há de dar, para a terdes e possuirdes.

32Vêde pois que observeis as cerimónias e juízos, que eu hoje porei à vossa vista.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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