Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

Moisés traz à memória aos israelitas as suas murmurações e as suas infidelidades passadas.

1Ouve, ó Israel: Tu passarás hoje o Jordão, para te senhoreares de nações mui populosas e mais possan tes do que tu, de grandes cidades, e muradas até o céu, (I)[1]HOJEDeve-se entender no sentido de bem depressa, da mesma maneira que o amnnbã quer muitas vêzes significar mais tarde.

2dum povo grande e mui alto, dos filhos dos Enacins, que tu mesmo viste e ouviste, e a quem nenhum pode fazer cara.

3Tu pois saberás hoje que o Senhor teu Deus passa rá êle mesmo diante de ti, como um fogo devorador e consumidor, que os fará em pó e os arruinará, e os ex terminará dentro de pouco tempo como êle to prometeu.

4Depois que o Senhor teu Deus os tiver destruído diante de ti, não digas lá no teu.coração: Por causa da minha justiça é que o Senhor me introduziu nesta terra para a possuir, tendo sido estas nações destruídas por causa das suas impiedades.

5Porque não é pela justiça, nem pela retidão do teu coração, que tu entrarás nas suas terras para as possuí res: Mas porque elas obraram impiamente, por isso fo ram destruídas à tua entrada: e porque o Senhor queria cumprir o que tinha prometido com juramento a teus pais Abraão, Isaac, e Jacó.

6Sabe pois que não é pela tua justiça que o Senhor teu Deus te fará possuir esta terra tão excelente, pois que tu és um povo de cerviz duríssima.[2]DE CERVIZ DURÍSSIMAIsto é, que se recusa a su portar o jugo de Deus e a obedecer aos seus mandamentos.

7Lembra-te, e não te esqueças, de que modo tens provocado a ira ao Senhor teu Deus no deserto. Desde o dia que saíste do Egito até este lugar, sempre conten deste contra o Senhor.

8Porque já em Horeb o provocaste, e êlc irado te quis destruir.

9quando eu subi ao monte, para receber as tábuas de pedra, as tábuas do pacto que o Senhor fêz convosco: e perseverei no monte quarenta dias e quarenta noites, sem comei* pão. nem beber água.[3]SEM COMER PAOComo o pâo e a água eram os ali mentos mais rudimentares, esta expressão significa que Moisés guar dou abstinência completa durante os quarenta dias que passou sôbre o monte.

10E o Senhor me deu duas tábuas de pedra escri tas com o dedo de Deus, e que continham todas as pala vras que êle vos falou no monte do meio do fogo, estan do junto todo o povo.[4]DO MEIO DO FOGONa versão dos Setenta falta esta frase.

11E passados que foram quarenta dias, c outras tantas noites, me deu o Senhor duas tábuas de pedra, as tábuas do concerto,

12e me disse: Levánta-te, e desce logo daqui: Por que o teu povo, que tu tiraste do Egito, prontamente de samparou o caminho, que tu lhe mostraras, e fêz para si um bezerro fundido.

13Outrossim me disse o Senhor: Vejo que êste povo é de dura cerviz.

14Deixa que eu o faça em pó, e que apague o seu nome debaixo do Céu, e eu te farei príncipe duma gente, que seja maior c mais forte do que esta.

15E como eu descesse do monte que ardia, e levas se nas minhas mãos as duas tábuas do concerto,

16e visse que vós tínheis pecado contra o Senhor vosso Deus, e que tínheis feito um bezerro fundido, e que depressa tínheis deixado o caminho, que êle vos haviamostrado:

17Arrojei das minhas mãos as tábuas, e as que brei à vossa vista.

18E prostrei-me diante do Senhor, como antes o ti nha feito, e estive quarenta dias e quarenta noites sem comer pão, nem beber água por causa de todos os vossos pecados, que tínheis cometido contra o Senhor, e com que o provocastes à ira:[5]E PROSTREI-MEPara interceder pelo povo, quando Deus lhe anunciou a idolatria dos hebreus, e o seu desígnio de op punir. Esta primeira oração de Moisés não é vrepetida no Deuteronômio, mas encontra-se no ê x 32, 11-14.

19Porque temi a sua indignação c irá, pela qual, estimulado contra vós, quis acabar-vos. E o Senhor me ouviu ainda por esta vez.

20Irritado também sobremaneira contra Aarão quis o Senhor matá-lo, e eu orei por êle do mesmo modo.

21E pegando no vosso pecado, que tínheis feito, isto é, no bezerro, o queimei no fogo, e fazendo-o em pe daços, e reduzindo-o inteiramente a pó, o deitei na tor rente, que desce do monte.

22Irritastes também o Senhor no incêndio e na tentação, e nos sepulcros da concupiscência:

23e quando vos mandou de Cadcsbarne, dizendo: Subi, e tomai posse da terra, que eu vos dei, e vós des prezastes o mandado do Senhor vosso Deus, e não lhe destes crédito, nem quisestes ouvir a sua voz:

24Mas sempre lhe fóstes rebeldes desde o dia que eu comecei a conhecer-vos.

25E estive prostrado diante do Senhor quarenta

26e orando disse: Senhor Deus, não percas o teu povo, e a tua herança, que tu resgataste com o teu gran de poder, e que tiraste do Egito com mão poderosa.

27Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac, e Jacó: Não olhes para a dureza dêste povo, nem para a sua im piedade e pecado:

28Para que não digam os habitantes do país, don de nos tiraste: Ò Senhor não podia introduzi-los na terra, que lhes havia prometido, e como os aborrecia, por isso os tirou, para os matar no deserto:

29Os quais são teu povo e tua herança, que tu tiraste com a tua grande fortaleza, e com o teu braço estendido.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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