Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Ordenações sôbre o extermínio dos cananeus. O Senhor escolheu os hebreus para seu povo particular.

1Quando o Senhor teu Deus’ te tiver introduzido na terra, que vás a possuir, e tiver exterminado à tua vista muitas íiações, os heteus, os gergeseus, os amorreus, os cananeus, os fereseus, os hevetts, e os jebuseus, Deuteronôraio 7, 2-9 que são sete povos muito mais numerosos do que tu és, e muito mais fortes do que tu:[1]CAXAXEUSEram os representantes duma tribo que tinha particularmente êste nome; habitava Junto do Mediterrâneo, nas margens do Jordão.

2E o Senhor teu Deus tas tiver entregado, tu as passarás a cutelo sem que fique nem um só. Não cele brarás concêrto algum com elas, nem as tratarás com compaixão,

3nem contrairás com elas matrimónios. Não da rás tua filha a seu filho, nem tomarás sua filha para teu filho:

4Porque ela seduzirá a teu filho, para que me não siga, e sirva antes a deuses alheios: e o furor do Senhor se acenderá, e te destruirá logo.

5Mas antes ao contrário vós vos havereis assim com eles: Deitai abaixo os seus altares, e quebrai as suas estátuas, e cortai os seus bosques, e queimai as suas es culturas.

6Porque tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus. O Senhor teu Deus te escolheu para sêres o seu povo próprio, dentre todos os povos que há na terra.

7Não porque vós vencêsseis em número tôdas as nações, se uniu o Senhor a vós, e vos escolheu, sendo vós menos em número, do que todos os outros povos:

8Mas foi porque o Senhor vos amou, e guardou o juramento, que tinha feito a vossos pais: e vos tirou com uma mão poderosa, e vos resgatou da casa da ser vidão, do poder de Faraó, rei do Egito.

9Saberás pois que o Senhor teu Deus é êle mes mo o Deus forte e fiel, que guarda o seu pacto e a sua[2]O DEUSNo original hebraico não se encontram <\s palavrus forte e fiel, tendo tido Moisés o cuidado de preceder a pa lavra El, Deus, do artigo ha, para indicar por esta expressão o Deus, que se trata aqui do Deus único e verdadeiro.

10E que castiga prontamente os que o aborrecem, de sorte que não deixa para mais tarde perdê-los de todo nem o dar-lhes logo a paga merecida.

11Guarda pois os preceitos e cerimónias e ordena ções, que eu hoje te mando observar.

12Se depois de teres ouvido estas ordenações, as guardares e as praticares, também o Senhor teu Deus guardará a teu respeito o seu pacto, e a misericórdia que êle prometeu com juramento a teus pais:

13E te amará e te multiplicará, e abençoará o fru to do teu ventre, e o fruto da tua terra, o teu trigo, e vin dima, o teu azeite, e os teus bois, os teus rebanhos de ovelhas na terra, que êle prometeu com juramento a teus pais que te daria.

14Tu serás bendito entre todos os povos. Não ha verá em ti estéril nem dum nem doutro sexo, nem nos homens nem nos teus rebanhos.[3]NAO HAVERA EM TI ESTÉRILA esterilidade era, entre os hebreus, considerada como um opróbrio.

15O Senhor alongará de ti tôdas as doenças: nem te ferirá com as maligníssimas enfermidades do Egito, que tu viste, mas ferirá com elas todos os teus inimi gos.[4]MALIGNÍSSIMAS ENFERMIDADESCertos comenta dores véem aqui uma alusão às pragas do Egito, outros pensam que o autor se refere apenas às enfermidades que empestavam o Egito,

16Devorarás todos os povos, que o Senhor teu Deus está para entregar. Não te deixarás tocar de com-[5]PARA QUE NAO VENHAM A SER A CAUSA DA TUA RUÍNA• No hebreu e nos Setenta está: Porque isso é um laço (cilada) para ti. O têrmo hebraicomoquesh, formado do verbo iaqash, significa laqueus, e em sentido metafórico insidiae. Cfr. Leopold. Lexicon hebraicum et chaldaicum.

17Se disseres no teu coração: Estas nações são mais numerosas do que eu, como poderei eu extingui-las?

18não temas, mas lembra-te de como o Senhor teu Deus tratou a Faraó, e a todos os egípcios:

19Daquelas formidáveis pragas que os teus olhos viram, c daqueles milagres, e daqueles prodígios, c da quela mão poderosa, e daquele braço estendido, com que o Senhor teu Deus te tirou para fo ra: o mesmo fará êle a todos os povos que temes.

20Além disto mandará o Senhor leu Deus vespas contra êles, até destruir, e acabar com todos os que te tiverem escapado, ou se puderem ter escondido de ti.

21Não os temerás, pòrque o Senhor teu Deus está no meio de ti, aquêle Deus grande e terrível:[6]NAO OS TEMERASNo texto hebraico está: Não tre mas diante dêles; na versão dos Setenta: Não serás ferido na sua face.

22Êle mesmo consumirá estas nações à tua vista pouco a pouco e por partes. Tu não as poderás destruir tôdas a um tempo: Por não suceder que se multipliquem contra ti as feras da terra.

23Mas o Senhor teu Deus os porá diante de t i: e os fará morrer até que de todo acabem.

24Entregar-te-á nas tuas mãos os seus reis, e fará

25Queimarás no fogo as suas esculturas: Não co biçarás a prata nem o ouro, de que são feitas, nem destas tomarás nada para ti, para que não tropeces visto serem estas coisas a abominação do Senhor teu Deus[7]A ABOMJNAÇAO DO SENHORlato é, êBtea ídolos são abomináveis aos olhos do Senhor. O tôrmo hebraico to’ebah, que a Vulgata traduziu por abominatlo, significa uma coisa sagrada horri velmente manchada.

26Nem em tua casa meterás coisa alguma que seja de ídolo, por não vires a ser anátema, como êle o é tam bém. Detestá-lo-ás como uma imundície, e abominá-lo-ás como as coisas mais hediondas e sórdidas, porque é um anátema.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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