Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 27

Ordem de levantar certos padrões na banda de além do Jordão. Cerimónias que se hão de observar no lançar as maldições e as bênçãos sôbre os montes de Garazim e Hebal.

1E mandou Moisés e os anciãos de Israel ao povo, dizendo: Observai tôdas as ordenações que eu vos pres crevo hoje.

2E quando passares o Jordão para a terra, que o Senhor teu Deus te há de dar, levantarás umas pedras grandes, e as alisarás com cal,[1]E AS ALISARAS COM CALN&o quer o texto dizer que essas pedras fôssem revestidas de cal para sôbre esta se escre ver a Lei; porque o Decálogo foi gravado na pedra; esta porém era branqueada com a cal, para que as letras gravadas se distinguissem melbor na brancura da pedra caiada.

3para que possas escrever nela tôdas as palavras desta lei, quando tiveres passado o Jordão: para entra-1

4Logo pois que tiverdes passado o Jordão. levan tai as pedras, que eu vos ordeno hoje, no monte de Hebal, e as alisarás com cal:

5E edificarás aí ao Senhor teu Deus um altar de pedras, que o ferro não tenha tocado,

6e de pédras brutas e por polir: e oferecerás so bre êle holocaustos ao Senhor teu Deus,

7e imolarás hóstias pacíficas, e ali comerás, e te regalarás diante do Senhor teu Deus.

8E escreverás distinta e claramente sôbre as pe dras tôdas as palavras desta lei.[2]E ESCREVERASEsta insistência de Moisés mandan* 4o escrever, mostra como êle estava eivado dos costumes egípcios, onde tudo se escrevia, ora na pedra, ora na tela, ora na madeira, orã no papiro, o que não admira, visto ter sido educado no Egito, e estar falando a homens iniciados nos usos do vale do Nilo, o que é mais outra prova da autenticidade dêste livro.

9Então Moisés e os sacerdotes da linhagem de •Levi disseram a todo o Israel: Está atento, e ouve, ó Israel: hoje fôste feito povo do Senhor teu Deus:

10Ouvirás pois a sua vòz, e observarás os preceitos e as ordenações, que eu te prescrevo.

11E nesse mesmo dia ordenou Moisés ao povo, dizendo:

12Passado o Jordão, pôr-se-ão para abençoarem o povo sôbre o monte de Garizim estes: Simeão, Levi, Judá, Issacar, José, e Benjamim.

13E estes outros se porão da outra parte sôbre ‘o m onte‘de Hebal para deitarem a maldição: Rúben, Gad, e Aser, e Zábulon, Dan e Neftali.

14E os. levitas pronunciarão, e dirão em alta voz a.todos os varões de Israel:

15Maldito o homem, que faz imagem de escultura ou fundida, què é a abominação do Senhor, a obra da mão dos artífices, e a põe num lugar escondido: e todo o povo responderá, e dirá: Amém.[3]QUE FAZ IMAGEMC preciso não esquecer que Moi sés falava a um povo que tinha presenciado práticas de idolatria, e que fundiu o bezerro de ouro para o adorar. Moisés amaldiçoa a ido latria por estas palavras, que devem entender-se: Maldito o que fizer imagens de Ídolos, e os adorem, o que é abominação do Senhor, a quem só é devida a adoração e glória.

16Maldito o que não honra a seu pai, e á sua mãe: e todo o povo responderá: Amém.

17Maldito o que transpõe os marcos de seu próxi mo: e todo o povo responderá: Amém.

18Maldito o que faz que o cego erre o caminho: e todo o povo responderá: Amém.

19Maldito o que perverte a justiça do estrangei ro, do órfão, e da viúva: e todo o povo responderá: Amém.

20Maldito o que dorme com a mulher de seu pai, e que levanta o cobertor da sua cama: e todo o povo responderá: Amém.

21Maldito o que dorme com tôda a casta de ani mais: e todo o povo responderá: Amém.

22Maldito o que dorme com sua irmã, filha de seu pai ou de sua mãe: e todo o povo responderá: Amém.

23Maldito o que dorme com sua sogra: e todo o povo responderá: Amém.

24Maldito o que à traição fere a seu próximo: e todo o povo responderá: Amém.

25Maldito o que aceita dádivas para derramar o sangue inocente: e todo o povo responderá: Amém.

26Maldito o que não permanece firme nas ord.enaçÕes desta lei, e que as não cumpre efetivamente: e todo o povo responderá: Amém.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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