Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 32

Cântico de Moisés. Deus manda a Moisés que suba ao monte Nebo.

1Ouvi, céus, o que vou a dizer: ouça a terra as palavras da minha bôca.(l)[1]OUVI, CÉUSE’ um dos mais belos monumentos da poesia hebraica. Fónelon disse que Moisés excedia Homero, princi palmente neste cântico. Bossuet escreveu: “Antes de morrer, Moi sés compôs êste extenso e admirável cântico, que começa por estas palavras: Oh céus! escutai a miiilm voz; ouça a terra as palavras da minha bôca! No silêncio de tôâa a natureza fala ao povo com uma fôrça inimitável; prevendo as suas infidelidades, revela-lhes o seu horror. De repente, sai de sl mesmo, como que achando a pala vra humana desproporcionada à grandeza do assunto; narra o que o Senhor diz, e repete as palavras de Deus com tal elevação e tal doçura que se não sabe o que mais inspira, se temor, se confusão, se amor e confiança”. Discours sur Phistoire universelle.

2Cresça como chuva a minha doutrina, distilem como orvalho as minhas palavras, como chuvisco sôbre a erva, e como gôtas de água sôbre as relvas.

3Porque eu invocarei o nome do Senhor: magnifi cai ao nosso Deus.

4As obras de Deus são perfeitas, e todos os seus caminhos são cheios de equidade. Deus é fiel, e sem ne nhuma iniquidade, justo e reto.

5Pecaram contra êle, não já seus filhos em imun dícies: geração depravada e perversa.

6Assim é que tu, povo louco e insensato, mostras1

7Consulta os séculos antigos, considera o que se tem passado no decurso de tôdas as gerações: pergunta aos teus maiores, e eles te dirão.

8Quando o Altíssimo dividia as nações: quando separava os filhos de Adão, êle designou os limites dos povos, segundo o número dos filhos de Israel.

9A porção porém do Senhor é o seu povo: Jacó a corda da sua herança.[2]A CORDA DA SUA HERANÇANo Egito, mediam-se as grandes extensões de terreno com as cordas, e déste uso deriva esta expressão.

10Êle o achou numa terra deserta, num lugar horroroso, e numa vasta solidão: êle o conduziu por di versos caminhos: e o ensinou: e o guardou como a meni na do seu ôlho.

11Como uma águia provoca seus filhos a voar, e dé contínuo voa sôbre êles, assim o Senhor estendeu as suas asas sôbre o seu povo, e o tomou, e o levou sôbre seus ombros.

12O Senhor só foi o seu condutor: e não era com Êle deus algum estranho.

13Êle o estabeleceu sôbre uma terra alta: para que comesse os frutos.dos campos, para que chu passe o mel que saía da pedra, e gostasse do azeite que se dava nos mais duros rochedos.

14Da manteiga das vacas, e do leite das ovelhas, com a gordura dos cordeiros, e dos carneiros dos filhos de Basan: e dos cabritos com a medula do trigo, e para que bebesse mui puro o sangâiíneo licor da uva.[3]FILHOS DE BASANIsto é, do país de Basan, muito abundante em pastagens.

15Mas o amado engrossado, recalcitrou: engros sado, engordado, alargado, abandonou a Deus seu Cria dor, e se apartou de Deus seu Salvador.[4]O AMADOA Vulgata traduziu por dilectus o têrmo hebraico lshrnu, que é um uome próprio simbólico que se aplica ao povo de Israel, derivado do verbo lashar e significando rectulus, justulus. Cfr. Leopold, Lexicon hebraicum et chaldalcum.

16Êles o irritaram, adorando deuses estranhos, e com as suas abominações o provocaram à ira.

17Ofereceram sacrifícios não a Deus, mas aos demónios, aos deuses, que eles desconheciam: vieram deuses novos e recentes, que seus pais não tinham ado rado.

18Deixaste ao Deus que te gerou, e esqueceste-te do Senhor teu Criador.

19Viu isto o Senhor, e se acendeu em ira: porque o provocaram seus filhos e filhas.

20Então disse: eu esconderei dêles a minha face. e considerarei o fim que os espera: porque esta é uma geração perversa, e uns filhos infiéis.

21Êles me provocaram a zelos com aquele que não era Deus, e me irritaram com as suas vaidades: e eu os provocarei a zelos com aquêle que não é povo, e os irritarei com uma nação insensata.

22O fogo se acendeu no meu furor, e arderá até o mais profundo do inferno: e devorará a terra com as suas mais pequenas ervas, e queimará os montes até às raízes. 1[5]DO INFERXONo hebreu está sclteol ou habitação dos mortos. O último scheol, ou o mais profundo do inferno, é o lugar destinado às almas carregadas de pecados. Prov 9, 8.

23Eu amontoarei sôbre êles os males, e emprega rei neles tôdas as minhas setas.

24A fome os consumirá e as aves os despedaça-

25Por fora os devastará a espada, e por dentro o pavor, ao mancebo juntamente com a virgem, à crian ça que ainda mama, e ao homem velho.

26Eu disse: Onde estão êles? Eu farei apagar dentre os homens a sua memória.

27Mas eu deferi executá-lo por causa da arro gância dos inimigos: para que os seus inimigos se não ensoberbecessem, e dissessem: Não foi o Senhor, mas sim a nossa mão poderosa, a que fêz tôdas estas coisas.

28E ’ uma gente sem conselho e sem prudência.

29Oxalá que êles tivessem sabedoria, e inteligên cia, e previssem os fins.

30Como pode ser que um persiga a mil, e dois fa çam fugir a dez mil? Não é isto, por que o seu Deus os vendeu, e o Senhor os fechou?

31Porque o nosso Deus não é como os deuses dê- les: e os nossos mesmos inimigos são os juízes.

32A sua vinha é da vinha de Sodoma, e dos. su búrbios de Gomorra: as suas uvas são uvas de fel, e os seus cachos amaríssimos.

33O seu vinho é fel de dragões, e veneno de áspi des incurável.[6]DRAGÕESEsta palavra dragões designa um animal real e não simbólico, uma espécie de serpente. ÁSPIDES —; Áspides, em hebreu petèn, é uma serpente muito venenosa; é a serpentes uroeus, que aparece nos monumentos egíp cios, o nadaja hadje do vale do Nilo. Os encantadores de serpentes procuram atraí-las com os seus encantos, não obtendo sempre resul tado lisonjeiro. A áspide oculta-se nos buracos dos muros, e nas fendas dos rochedos; dilata o colo em forma de disco, erguendo-se de frente p'ara a prêsa. E’ muito freqiiente na Palestina do Sul.

34Porventura não tenho eu guardadas estas coi sas comigo, e seladas nos meus tesouros?[7]E SELADAS• O uso dos selos era muito comum no Oriente; encontram-se aos centenares na Caldéia, no Egito e na Pérsia. Descobertas modernas têm-nos fornecido belos exemplares de selos que serviram aos antigos israelitas.

35Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago a * seu tempo, quando resvalar o seu pé: perto está o dia da sua perdição, e os momentos dela se apressam por chegar.

36O Senhor julgará o seu povo, e se compadecerá dos seus servos. Êle verá que as mãos estão sem fôrça, e que também os que estavam fechados desfaleceram, e que os que tinham ficado foram consumidos.

37E dirá: Onde estão òs seus deuses, nos quais tinham pôsto a sua confiança?

38De cujas vítimas comiam as banhas, e bebiam o vinho das suas libações: levantem-se e venham em vosso socorro, e protejam-vos na vossa necessidade.

39Vêde que só eu sou Deus, e que não há outro fora de mim: eu matarei, e eu farei viver: ferirei, e curarei: e não há quem possa tirar da minha mão coisa alguma.

40Eu levantarei a minha mão ao céu, e direi: Eu sou o que vivo eternamente.

41Se eu afiar como raio a minha espada, e a mi nha mão se armar para fazer justiça: eu me vingarei de meus inimigos, e darei o pago aos que me aborrecem.

42Eu embriagarei as minhas setas em sangue dos mortos, e a minha espada devorará as carnes dos ini migos, que estão no cativeiro com a cabeça rapada.[8]EU EMBRIAGAREI...E’ muito obscuro êste texto, tanto no original como na Vulgata. Várias interpretações têm sido apresentadas; reproduzimos a de Menochio, a mais simples, a mais

43Louvai, ó gentes, o seu povo, porque ela vin gará o sangue dos seus servos: e tomará vingança dos seus inimigos, e se mostrará propícia à terra do seu povo.

44Veio pois Moisés, e com Josué, filho de Nun, proferiu tôdas as palavras dêste cântico diante do seu povo.

45E acabou tôdas estas palavras, falando a todo o Israel:

46E lhes disse: Aplicai vossos corações a tôdas as palavras que eu hoje vos testifico, recomendai a vos sos filhos que guardem, e pratiquem, e cumpram tudo o que está escrito nesta lei:

47Porque não debalde vos foram postos êstes pre ceitos, mas sim para que cada um de vós ache nêles a vida, e guardand.o-os moreis por muito tempo no país, que ides a possuir, depois que passardes o Jordão.

48No mesmo dia falou o Senhor a Moisés, dizendo:

49Sobe a este monte de Abarim, isto é, das pas sagens, ao inonte Nebo, que é o país de Moab defronte de Jcrkó: e contempla a terra de Canaã, cuja posse da rei aos filhos de Israel, e tu morrerás no monte.[9]ÊSTE MONTE DE ABARIMAbarim está no plural poraue significa uma cordilheira do país de Moab. O MONTE NEBO — Hoje Nebbeb, a seis horas do mar Morto; do alto desfruta-se um excelente panorama.

50Ao qual tend.o subido, irás unir-te a teus povos, assim como Aarão teu irmão morreu no monte Hor, e se foi unir aos seus povos:

51Porque vós prevaricastes contra mim no meio dos filhos de Israel nas águas da contradição em Cades, do deserto de Sin: e não me santificastes entre os filhos de Israel.

52Tu verás defronte de ti a terra, que eu hei de dar aos filhos de Israel, e não entrarás nela.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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