Capítulo 32
1Ouvi, céus, o que vou a dizer: ouça a terra as palavras da minha bôca.(l)[1]OUVI, CÉUS — E’ um dos mais belos monumentos da poesia hebraica. Fónelon disse que Moisés excedia Homero, princi palmente neste cântico. Bossuet escreveu: “Antes de morrer, Moi sés compôs êste extenso e admirável cântico, que começa por estas palavras: Oh céus! escutai a miiilm voz; ouça a terra as palavras da minha bôca! No silêncio de tôâa a natureza fala ao povo com uma fôrça inimitável; prevendo as suas infidelidades, revela-lhes o seu horror. De repente, sai de sl mesmo, como que achando a pala vra humana desproporcionada à grandeza do assunto; narra o que o Senhor diz, e repete as palavras de Deus com tal elevação e tal doçura que se não sabe o que mais inspira, se temor, se confusão, se amor e confiança”. Discours sur Phistoire universelle.
2Cresça como chuva a minha doutrina, distilem como orvalho as minhas palavras, como chuvisco sôbre a erva, e como gôtas de água sôbre as relvas.
3Porque eu invocarei o nome do Senhor: magnifi cai ao nosso Deus.
4As obras de Deus são perfeitas, e todos os seus caminhos são cheios de equidade. Deus é fiel, e sem ne nhuma iniquidade, justo e reto.
5Pecaram contra êle, não já seus filhos em imun dícies: geração depravada e perversa.
6Assim é que tu, povo louco e insensato, mostras1
7Consulta os séculos antigos, considera o que se tem passado no decurso de tôdas as gerações: pergunta aos teus maiores, e eles te dirão.
8Quando o Altíssimo dividia as nações: quando separava os filhos de Adão, êle designou os limites dos povos, segundo o número dos filhos de Israel.
9A porção porém do Senhor é o seu povo: Jacó a corda da sua herança.[2]A CORDA DA SUA HERANÇA — No Egito, mediam-se as grandes extensões de terreno com as cordas, e déste uso deriva esta expressão.
10Êle o achou numa terra deserta, num lugar horroroso, e numa vasta solidão: êle o conduziu por di versos caminhos: e o ensinou: e o guardou como a meni na do seu ôlho.
11Como uma águia provoca seus filhos a voar, e dé contínuo voa sôbre êles, assim o Senhor estendeu as suas asas sôbre o seu povo, e o tomou, e o levou sôbre seus ombros.
12O Senhor só foi o seu condutor: e não era com Êle deus algum estranho.
13Êle o estabeleceu sôbre uma terra alta: para que comesse os frutos.dos campos, para que chu passe o mel que saía da pedra, e gostasse do azeite que se dava nos mais duros rochedos.
14Da manteiga das vacas, e do leite das ovelhas, com a gordura dos cordeiros, e dos carneiros dos filhos de Basan: e dos cabritos com a medula do trigo, e para que bebesse mui puro o sangâiíneo licor da uva.[3]FILHOS DE BASAN — Isto é, do país de Basan, muito abundante em pastagens.
15Mas o amado engrossado, recalcitrou: engros sado, engordado, alargado, abandonou a Deus seu Cria dor, e se apartou de Deus seu Salvador.[4]O AMADO — A Vulgata traduziu por dilectus o têrmo hebraico lshrnu, que é um uome próprio simbólico que se aplica ao povo de Israel, derivado do verbo lashar e significando rectulus, justulus. Cfr. Leopold, Lexicon hebraicum et chaldalcum.
16Êles o irritaram, adorando deuses estranhos, e com as suas abominações o provocaram à ira.
17Ofereceram sacrifícios não a Deus, mas aos demónios, aos deuses, que eles desconheciam: vieram deuses novos e recentes, que seus pais não tinham ado rado.
18Deixaste ao Deus que te gerou, e esqueceste-te do Senhor teu Criador.
19Viu isto o Senhor, e se acendeu em ira: porque o provocaram seus filhos e filhas.
20Então disse: eu esconderei dêles a minha face. e considerarei o fim que os espera: porque esta é uma geração perversa, e uns filhos infiéis.
21Êles me provocaram a zelos com aquele que não era Deus, e me irritaram com as suas vaidades: e eu os provocarei a zelos com aquêle que não é povo, e os irritarei com uma nação insensata.
22O fogo se acendeu no meu furor, e arderá até o mais profundo do inferno: e devorará a terra com as suas mais pequenas ervas, e queimará os montes até às raízes. 1[5]DO INFERXO — No hebreu está sclteol ou habitação dos mortos. O último scheol, ou o mais profundo do inferno, é o lugar destinado às almas carregadas de pecados. Prov 9, 8.
23Eu amontoarei sôbre êles os males, e emprega rei neles tôdas as minhas setas.
24A fome os consumirá e as aves os despedaça-
25Por fora os devastará a espada, e por dentro o pavor, ao mancebo juntamente com a virgem, à crian ça que ainda mama, e ao homem velho.
26Eu disse: Onde estão êles? Eu farei apagar dentre os homens a sua memória.
27Mas eu deferi executá-lo por causa da arro gância dos inimigos: para que os seus inimigos se não ensoberbecessem, e dissessem: Não foi o Senhor, mas sim a nossa mão poderosa, a que fêz tôdas estas coisas.
28E ’ uma gente sem conselho e sem prudência.
29Oxalá que êles tivessem sabedoria, e inteligên cia, e previssem os fins.
30Como pode ser que um persiga a mil, e dois fa çam fugir a dez mil? Não é isto, por que o seu Deus os vendeu, e o Senhor os fechou?
31Porque o nosso Deus não é como os deuses dê- les: e os nossos mesmos inimigos são os juízes.
32A sua vinha é da vinha de Sodoma, e dos. su búrbios de Gomorra: as suas uvas são uvas de fel, e os seus cachos amaríssimos.
33O seu vinho é fel de dragões, e veneno de áspi des incurável.[6]DRAGÕES — Esta palavra dragões designa um animal real e não simbólico, uma espécie de serpente. ÁSPIDES —; Áspides, em hebreu petèn, é uma serpente muito venenosa; é a serpentes uroeus, que aparece nos monumentos egíp cios, o nadaja hadje do vale do Nilo. Os encantadores de serpentes procuram atraí-las com os seus encantos, não obtendo sempre resul tado lisonjeiro. A áspide oculta-se nos buracos dos muros, e nas fendas dos rochedos; dilata o colo em forma de disco, erguendo-se de frente p'ara a prêsa. E’ muito freqiiente na Palestina do Sul.
34Porventura não tenho eu guardadas estas coi sas comigo, e seladas nos meus tesouros?[7]E SELADAS — • O uso dos selos era muito comum no Oriente; encontram-se aos centenares na Caldéia, no Egito e na Pérsia. Descobertas modernas têm-nos fornecido belos exemplares de selos que serviram aos antigos israelitas.
35Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago a * seu tempo, quando resvalar o seu pé: perto está o dia da sua perdição, e os momentos dela se apressam por chegar.
36O Senhor julgará o seu povo, e se compadecerá dos seus servos. Êle verá que as mãos estão sem fôrça, e que também os que estavam fechados desfaleceram, e que os que tinham ficado foram consumidos.
37E dirá: Onde estão òs seus deuses, nos quais tinham pôsto a sua confiança?
38De cujas vítimas comiam as banhas, e bebiam o vinho das suas libações: levantem-se e venham em vosso socorro, e protejam-vos na vossa necessidade.
39Vêde que só eu sou Deus, e que não há outro fora de mim: eu matarei, e eu farei viver: ferirei, e curarei: e não há quem possa tirar da minha mão coisa alguma.
40Eu levantarei a minha mão ao céu, e direi: Eu sou o que vivo eternamente.
41Se eu afiar como raio a minha espada, e a mi nha mão se armar para fazer justiça: eu me vingarei de meus inimigos, e darei o pago aos que me aborrecem.
42Eu embriagarei as minhas setas em sangue dos mortos, e a minha espada devorará as carnes dos ini migos, que estão no cativeiro com a cabeça rapada.[8]EU EMBRIAGAREI... — E’ muito obscuro êste texto, tanto no original como na Vulgata. Várias interpretações têm sido apresentadas; reproduzimos a de Menochio, a mais simples, a mais
43Louvai, ó gentes, o seu povo, porque ela vin gará o sangue dos seus servos: e tomará vingança dos seus inimigos, e se mostrará propícia à terra do seu povo.
44Veio pois Moisés, e com Josué, filho de Nun, proferiu tôdas as palavras dêste cântico diante do seu povo.
45E acabou tôdas estas palavras, falando a todo o Israel:
46E lhes disse: Aplicai vossos corações a tôdas as palavras que eu hoje vos testifico, recomendai a vos sos filhos que guardem, e pratiquem, e cumpram tudo o que está escrito nesta lei:
47Porque não debalde vos foram postos êstes pre ceitos, mas sim para que cada um de vós ache nêles a vida, e guardand.o-os moreis por muito tempo no país, que ides a possuir, depois que passardes o Jordão.
48No mesmo dia falou o Senhor a Moisés, dizendo:
49Sobe a este monte de Abarim, isto é, das pas sagens, ao inonte Nebo, que é o país de Moab defronte de Jcrkó: e contempla a terra de Canaã, cuja posse da rei aos filhos de Israel, e tu morrerás no monte.[9]ÊSTE MONTE DE ABARIM — Abarim está no plural poraue significa uma cordilheira do país de Moab. O MONTE NEBO — Hoje Nebbeb, a seis horas do mar Morto; do alto desfruta-se um excelente panorama.
50Ao qual tend.o subido, irás unir-te a teus povos, assim como Aarão teu irmão morreu no monte Hor, e se foi unir aos seus povos:
51Porque vós prevaricastes contra mim no meio dos filhos de Israel nas águas da contradição em Cades, do deserto de Sin: e não me santificastes entre os filhos de Israel.
52Tu verás defronte de ti a terra, que eu hei de dar aos filhos de Israel, e não entrarás nela.